Vallenato: tradição, ritmo e identidade colombiana

Se você já ouviu a música “La Bicicleta”, de Carlos Vives e Shakira, certamente conhece a citação ao vallenato, certo? Mas, você sabe o que é o vallenato?  

Esse é um dos principais ritmos que nasceram na Colômbia, se concentrando principalmente na região caribenha do país. Inicialmente, foi desprezado por ser considerado “música de camponeses” e chegou a ser perseguido pelas autoridades colombianas. 

Porém, se popularizou em meados do século XX, quando artistas e intelectuais, como Gabriel García Márquez, se encantaram pelo ritmo. Desde 2015 o vallenato é considerado patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco. 

A origem do vallenato

O gênero musical surgiu da fusão de expressões culturais do norte da Colômbia: canções dos vaqueiros de Magdalena Grande, cantos de escravos africanos e ritmos de dança tradicionais dos povos indígenas da Sierra Nevada de Santa Marta. 

Todas essas expressões também foram misturadas com elementos da poesia espanhola e o uso de instrumentos musicais de origem europeia. As letras das músicas são nostálgicas, alegres, sarcásticas e bem-humoradas, interpretando histórias que combinam realismo e imaginação. 

Os instrumentos usados para o vallenato são a caja (pequeno tambor tocado com as mãos), a guacharaca (pedaço de madeira com ranhuras que são raspadas com um pente de arame) e o acordeão.

O nome “vallenato” significa “nascidos no vale” e origina-se pelo nome da cidade de Valledupar. Como no início, o ritmo foi alvo de discriminação e o próprio nome “vallenato” tinha uma conotação depreciativa, os moradores do municipio não viam com bons olhos o nome ser associado à região.

Por esse motivo, em 1915 don Miguel Vence, professor primário, fundou uma Academia de Línguas de Valledupar, que se reuniu apenas uma vez e determinou que o apelido para os nascidos em Valledupar seria “valduparense”.

O gênero só deixou de ser marginalizado quando as classes altas quiseram levar essa música ao Valledupar Social Club, para poder beber e ouvir as histórias dos cantores e músicos através das músicas. 

Atualmente, o vallenato faz parte da música folclórica da costa caribenha da Colômbia e é de longe o gênero que alcançou maior popularidade tanto nacional quanto internacionalmente. Tanto é que o ritmo tem festivais próprios:

  • Festival da Lenda Vallenata: Todos os anos, no final de abril, na cidade de Valledupar, é realizado o Festival de la Leyenda Vallenata, em que busca os melhores representantes do gênero musical, especialmente os acordeonistas. Durante o festival, acontece um concurso no qual os melhores intérpretes de vallenato competem pelo título de Rei do Vallenato. Também são premiados novos compositores, “guacharaqueros” e “cajeros”, em três categorias: profissional, amador e infantil. O festival também inclui apresentações de orquestras da indústria fonográfica.
  • Festival do Berço do Acordeão: Este festival é celebrado anualmente desde 1979, na cidade vizinha de Valledupar, Villanueva, em La Guajira. O festival é semelhante ao formato do Festival da Lenda Vallenato, mas também inclui uma categoria para acordeonistas idosos com mais de sessenta anos.

Estilos de vallenato

Por ser um gênero musical antigo, o vallenato foi ganhando estilos e “roupagens” diferentes ao decorrer dos anos, os principais são tradicional, comercial, romântico e nova onda. Conheça a distinção entre cada um:

Vallenato Tradicional

De cunho eminentemente folclórico, é apresentada em festivais como a Lenda Vallenato, o Berço dos Acordeões e a Festa do Rio Magdalena. Inclui quatro dos cinco ritmos tradicionais: o puya, o paseo, o son e o merengue. 

Seus temas abrangem a vida cotidiana, a amizade, a folia, a terra e o amor. É a música cultivada por menestréis como Juancho Polo Valencia, Alejandro Durán, Abel Antonio Villa, Luis Enrique Martínez, “Toño” Salas, Lorenzo Morales, Leandro Díaz, “Pacho” Rada, “Colacho” Mendoza, Rafael Escalona, ​​Emiliano Zuleta, entre outros. 

Também estariam incluídos neste seleto grupo os acordeonistas que faziam parte do grupo Los Corraleros de Majagual, como Calixto Ochoa , Lisandro Meza e Alfredo Gutiérrez, o único ainda ativo.

Vallenato Comercial

É o primeiro movimento de vallenato a se tornar comercialmente disponível nas estações de rádio do país e é conhecido como “yuca vallenato”. Começou a ser ouvida no início dos anos 70, espalhando sua popularidade nos anos 80. 

Seus principais representantes são: Otto Serge e Rafael Ricardo, Jorge Oñate, Os Irmãos Zuleta, Diomedes Díaz, Binomio de Oro (com Rafael Orozco), Los Betos, Farid Ortiz, Iván Villazón, Adanies Díaz, Daniel Celedón e Ismael Rudas, entre outros. 

Predomina a caminhada, o merengue e o puya.

Vallenato Romântico

Estilo influenciado por outros ritmos como a balada, impulsionada por Iván Calderón no final dos anos 80 e início dos anos 90, baseia-se principalmente no paseo e, no que foi chamado décadas depois como vallenato romance. Sua principal característica está nas letras, onde canta exclusivamente o amor. 

Seus temas incluem amor, desgosto, afastamento, declarações e reconciliações. É um dos subgêneros mais ouvidos na Colômbia e o mais ouvido no exterior. Alguns de seus representantes mais importantes são: Binomio de Oro de América, Estrellas Vallenatas, Los Pechichones, Dúo Sensacional, Patricia Teherán, Las Musas, Adriana Lucía (em seu tempo como cantora de vallenato), Los Diablitos, Los Gigantes, Los Inquietos, Los Chiches, Los Embajadores, Miguel Morales, Jesús Manuel e Álex Manga (todos os três ex-diablitos), Fabián Corrales, Luis Mateus, Nelson Velásquez (ex-inquietos), Jean Carlos Centeno, Junior Santiago e Jorge Celedón (todos os três ex-Binomio de Oro de América), Amín Martínez (ex-Chiches), Luis Miguel Fuentes e Heberth Vargas (ambos ex-Giants), entre outros.

Desde meados da década de 2010, houve um ressurgimento do vallenato romântico no gosto do público colombiano, com artistas gravando novas músicas nesse subgênero e retrabalhando sucessos das décadas de 1980 e 1990, adaptando-os ao som do século XXI  para um público mais jovem, sem perder sua essência romântica. 

Um exemplo é o álbum de música e vídeo “Corazón Vallenato”, lançado nas plataformas de streaming e redes sociais no final de 2020 pela Codiscos, onde, acompanhados pelo acordeão de Morre Romero e seu filho, artistas consagrados e jovens do vallenato interpretam canções clássicas do subgênero romântico.

Nova Onda

Um movimento de vallenato que começou a ser aceito pelo público colombiano no início dos anos 2000, impulsionado por Kaleth Morales, filho do cantor e compositor de vallenato Miguel Morales, que combina elementos e arranjos do estilo carnavalesco e eletrônico com instrumentos de percussão e sopro de outras áreas da região do Caribe (bombardino, caixa, tamboras, tuba, etc). 

Seus artistas mais destacados são: Silvestre Dangond, Peter Manjarrés, Martín Elías, Luifer Cuello, Penchy Castro, Kvrass , Mono Zabaleta, Churo Díaz, Elder Díaz, Daniel Calderón, Felipe Peláez, La Gente de Omar Geles, Los K Morales, Orlando Liñan, Kbto Zuleta, Cayito Dangond, Los Comandantes del Vallenato, entre outros, permanecendo em vigor por duas décadas.

Na época dos trovadores, a música vallenata já manejava sua “Nova Onda”: Alejo Durán compôs e interpretou em 1960 uma canção de ar descontraído chamada “La Ola del Vallenato”, como crítica aos artistas da época que inovavam no gênero, como Aníbal Velásquez, que gravou e impôs um novo ritmo ao vallenato chamando-o de “Guaracha”.

Carlos Vives: o embaixador moderno do vallenato

Anteriormente, falamos sobre o cantor colombiano Carlos Vives e a música “La Bicicleta”, ele também é um dos grandes nomes no vallenato contemporâneo: o cantor colombiano é, sem dúvida, um dos maiores responsáveis ​​por popularizar e renovar esse estilo musical.

Com sua mistura contagiante de tradição e modernidade, Vives se consolidou como um dos principais nomes do gênero nos dias de hoje, levando o Vallenato para além das fronteiras da Colômbia e conquistando plateias ao redor do mundo.

Em 1993 lançou “Clásicos de la Província” e fez algo até então impensável: reinventou canções tradicionais do vallenato com arranjos modernos, elementos do rock, pop e da música tropical, sem jamais perder o respeito pelas raízes do estilo. A fórmula deu tão certo que o álbum se tornou um fenômeno e marcou o início de uma nova era para o vallenato.

Ao longo de sua carreira, Carlos Vives não apenas revitalizou o vallenato como também o levou para palcos internacionais. Sucessos como “La Gota Fría”, “Fruta Fresca”, “Volví a Nacer” e a própria parceria com Shakira em “La Bicicleta” ampliaram o alcance do gênero, abrindo portas para que outros artistas colombianos ganhassem visibilidade mundial.

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