Em Latinaje, Cazzu faz um mergulho na vastidão sonora da América Latina. Depois de se consagrar no trap, a artista argentina surpreende com um projeto ambicioso que homenageia a riqueza musical do continente, mas indo a fundo nisso. O disco, com produção de Nico Cotton e gravações realizadas em diferentes países latino-americanos, é uma carta de amor às raízes culturais de Cazzu e à diversidade de ritmos que moldam a identidade da região. Cada faixa traz consigo um gênero distinto, resgatando tradições e reinterpretando-as com frescor e sinceridade.

Latinaje é um álbum que assume o compromisso de ser experimental e exploratório da musicalidade latino-americana e consegue fazer isso além do óbvio. Ao invés de focar apenas nos clichês mais presentes na indústria — salsa, merengue, bachata, cumbia, reggaeton e regional mexicano — Cazzu amplia o mapa sonoro e se volta com afeto e ousadia para outras sonoridades menos exploradas no mainstream. Há em Latinaje um sabor distinto da América do Sul: a copla, a chacarera, o tango e até mesmo o cenário visual de um carnavalito andino se misturam ao trap, à música eletrônica e ao pop com naturalidade e personalidade.
Ao desafiar a dominância sonora do eixo México-Caribe, tão presente nas definições mais comerciais do que se entende por “música latina”, Cazzu reposiciona o sul do continente dentro desse imaginário. Ela recupera vozes e formas de cantar que pertencem à história popular da Argentina e do cone sul, e as insere em um contexto moderno, urbano e global. É um gesto corajoso, que mostra que a música latina não precisa se repetir ou se limitar ao que já foi consagrado. Pode ser híbrida, ousada e, ainda assim, profundamente conectada às raízes.
O álbum se abre com “Copla”, uma introdução contida, mas que entrelaça percussões indígenas e um canto afirmativo sobre a identidade andina de Cazzu. A música serve como manifesto e como portal para o universo do disco. Afinal, ao evocar os tambores e elementos do folclore de Jujuy, sua província natal, Cazzu resgata sonoridades andinas frequentemente esquecidas nas narrativas sonoras latino-americanas.
“Mala suerte” mistura o latin pop com a bachata, criando uma faixa dançante e melancólica ao mesmo tempo. A batida sincopada, típica do ritmo caribenho, dá o tom para uma letra sobre azar no amor, e é justamente na leveza melódica que a música encontra seu charme. Aqui, Cazzu aproxima a bachata da estética urbana, como já fizeram outros artistas mainstream, mas com um toque mais pessoal e comedido. Lembrando, a argentina é, geralmente, uma cantora de trap.
Em “Me tocó perder”, a chacarera argentina ganha nova vida com a presença de Los Nombradores del Alba e Facundo Toro. Trata-se de uma das faixas mais enraizadas no folclore argentino, com palmas marcadas, violões criollos e uma interpretação que resgata o canto telúrico das pampas. É também uma das mais emocionais do disco, pois fala de resignação com dignidade, o que é algo comumente visto na tradição camponesa da qual a chacarera nasce.
Em “Dolce”, a artista mergulha nos corridos tumbados, estilo popularizado pela cena mexicana contemporânea. Com guitarras arrastadas e um beat sombrio, Cazzu narra as dores de um amor perdido com a mesma firmeza que caracteriza os relatos de sobrevivência típicos do gênero. Sua voz carrega emoção e entrega, demonstrando como a desilusão amorosa pode causar tanta dor no coração de uma pessoa. A escolha desse gênero para falar especificamente disso não foi a toa: a cantora vem de uma conturbada separação com o pai de sua filha, Christian Nodal, que é um cantor de regional mexicano.
“La cueva” é uma balada com uma produção minimalista e introspectiva. A letra fala de isolamento e autoconhecimento após um colapso emocional. É um dos momentos mais suaves do álbum, quase um sussurro. Pode parecer simples demais, mas cumpre a função de dar respiro e profundidade emocional à sequência de faixas.
Em “Ódiame”, há uma tentativa de reimaginar o tango, gênero que representa o lado dramático da Argentina. A base é clássica, com um fundo de bandoneón, mas ganha texturas eletrônicas e efeitos vocais que a situam no presente. O que acontece é que todo o clima tenso que o tango proporciona está totalmente presente, apesar de carecer de elementos musicais mais tangíveis do gênero. A proposta é ousada — e serve para mostrar o desejo de Cazzu de dialogar com toda a herança musical de seu país.
“Pobrecito mi patrón”, interlúdio baseado na obra de Facundo Cabral, é um momento contemplativo e quase espiritual dentro de Latinaje. A escolha de homenagear Cabral — cantor, poeta e filósofo argentino conhecido por seu pacifismo, humanismo e crítica social afiada — revela a profundidade política do projeto de Cazzu. Ao transformar essa máxima em um interlúdio sonoro de ambientações e vocais etéreos, Cazzu realiza um gesto simbólico de resgate e reinvenção da música de protesto. Esse momento, breve mas denso, amplia o escopo poético de Latinaje, conectando o disco com uma tradição histórica de inconformismo e liberdade. Afinal, música latino-americana também é política.
“Con otra” aposta na cumbia santafesina, ritmo popular da Argentina que mistura acordeões e percussão tropical. A canção se tornou um sucesso viral e é fácil entender o porquê: tem refrão pegajoso, levada cativante e letra que destila ciúme e amargura. A produção é limpa, direta, e mesmo simples, consegue entregar um hit de rádio sem perder a alma popular da cumbia.
“Engreído”, o bolero do álbum, é uma joia escondida. Ao lado de Elena Rose, Cazzu entrega uma balada romântica cheia de ressentimento e doçura. O arranjo é minimalista, com piano e cordas discretas que deixam espaço para a voz das cantoras. A harmonia lembra os grandes boleros cubanos, mas a letra moderna e direta revela a perspectiva feminina contemporânea sobre a desilusão amorosa.
A salsa de “Que disparen” explode em ritmo e cor, transformando a tristeza em movimento. É um dos momentos mais festivos do álbum, com instrumentos metais bem marcados e um piano caribenho que remetem às grandes orquestras salseras. Ainda assim, a faixa mantém um tom de ameaça emocional, como se Cazzu dançasse em meio à dor. A produção é precisa e cheia de camadas, revelando o cuidado em adaptar o gênero sem cair na caricatura.
“Inti”, canção dedicada à filha de Cazzu, é o coração do álbum. Sua instrumentação leve, guiada por violões e melodias suaves, carrega uma ternura íntima que contrasta com o resto do disco. Até aqui, Cazzu conseguiu trazer suas raízes tomadas pelos conhecimentos dos povos nativos dos Andes: “Inti”, que é o nome de sua filha, significa “sol” em quíchua, e, na cosmovisão andina, essa é uma figura sagrada.
“Una loca enamorada”, ao lado de WIU, entrega uma fusão envolvente com o funk brasileiro. O resultado é uma faixa dançante e moderna, que traz o “molho” do Brasil sem perder o olhar regional e autêntico de Cazzu. É um dos momentos em que o disco mais se aproxima da pista de dança, sem abrir mão da inventividade rítmica. É um funk honesto, sem intenções de cair em fórmulas prontas para que isso se transforme um grande hit no nosso país. Muito pelo contrário, ele parece nascer de uma vontade genuína dos artistas de colaborarem e conhecerem o universo musical um do outro. Aqui, podemos escutar Cazzu cantando em português — e muito bem, diga-se de passagem.
Por fim, “Menú de degustación” encerra o disco com um merengue urbano explosivo, que faz jus ao nome: é, de fato, um resumo festivo dos sabores apresentados ao longo do álbum. Ritmo acelerado, vocais desinibidos e uma produção animada fazem da faixa uma despedida animada.
Latinaje é uma obra que se sustenta pela diversidade, mas também pela coerência estética. Ao invés de parecer um recorte apressado de ritmos latinos, o álbum se constrói como um diálogo entre tradição e contemporaneidade. Nesse sentido, é muito interessante perceber como uma artista vinda do trap — gênero frequentemente associado a fórmulas repetitivas e estéticas padronizadas — se mostra aberta a experimentar sons distintos e a explorar outras linguagens musicais com naturalidade. Cazzu não apenas incorpora gêneros como a cumbia, o tango, o bolero e a música andina, mas faz isso com uma fluidez rara, conseguindo conectar essas influências de forma coesa e com muito mais versatilidade do que outras propostas que já vimos surgir dentro do universo urbano. Com este disco, ela se afirma como uma artista disposta a honrar sua herança e, ao mesmo tempo, desafiá-la.
