No ano de 1981, a MTV iniciou transmissões pela primeira vez com a exibição do emblemático videoclipe de “Video Killed The Radio Star”, do duo de rock britânico The Buggles. A faixa foi escrita por Geoff Downs e Trevor Horn, integrantes do duo, sendo o single de estreia de seu primeiro (e penúltimo) álbum de estúdio, The Age of Plastic. Na música, os Buggles apontam de maneira crítica que a chegada da televisão e o surgimento das filmografias dentro da indústria musical, havia destruído, de certa forma, a carreira daqueles músicos que não se adaptaram ao audiovisual e optaram por seguir apostando unicamente nas paradas musicais características das emissoras de rádio europeias e americanas.
A canção de Horn e Downs, apresenta uma narrativa similar ao que aconteceu com uma outra categoria de produtos do entretenimento: a novela. Dos romances em folhetos e jornais até as tão famosas telenovelas, o gênero passou por diversas adaptações ao contexto das épocas e lugares por onde esteve inserido. Assim como a música, a novela quebrou barreiras e passou a ser um produto cultural de massa, sobretudo, no território latinoamericano. Dentro desse processo, existiu um fator determinante para o crescimento, sucesso e consolidação da novela como gênero narrativo: o imaginário do público alvo.
O surgimento da novela
A novela surge nos EUA, inicialmente em forma de romances textuais impressos, com publicações semanais em jornais e revistas da época. A aceitação do público aos folhetins impressos, despertou o interesse das empresas de sabão em pó americanas, que visavam aumentar as vendas de produtos de limpeza para casa, comumente comprados pelo público alvo daqueles textos: as mulheres.
Assim, essas empresas passaram a veicular propagandas de seus produtos dentro das colunas, fazendo com que o gênero passasse a ser conhecido como soap opera, tornando-se uma das principais ferramentas de publicidade da época.
Com a expansão do rádio entre as décadas de 1920 e 1930, surgiu a necessidade de adaptar esses textos ao rádio. Naquele então, as emissoras de rádio já possuíam em sua grade programas focados em contação de histórias ao vivo e, o sucesso obtido por estes foi considerado fundamental para a idealização dessa ideia. Para as interpretações, as agências publicitárias responsáveis pela produção quase que inteira das obras, buscaram a presença de artistas de grande renome do cinema e do rádio, a fim de atrair o máximo de atenção possível para as novelas e aos produtos promovidos pelas empresas patrocinadoras.
Pouco depois, com a chegada dessas empresas ao território latinoamericano, o ramo publicitário buscou adaptar os interesses folhetinescos da american soap (opera) à realidade da mulher latino-americana. Assim surgem as radionovelas, que nascem em Cuba e, posteriormente, são exportadas para o resto do continente como técnica para a promoção e comercialização desses produtos.
As radionovelas na América Latina
Com enfoque no melodrama, as radionovelas prontamente criaram um laço de cumplicidade com o novo público popular, traçando um tipo de demarcação cultural que foi determinante na potencialização da novela como gênero dentro dos meios de comunicação massivos. Enquanto os programas de rádio, sobretudo, os radioteatros, trabalhavam sobre o inconsciente coletivo por meio da representação de histórias críveis com uma riqueza de detalhes típica do formato do rádio, estimulando todos os demais sentidos por meio da audição, as radionovelas iam por outro lado e buscavam emocionar. A radionovela vendia sonhos. Cada palavra, som ou música transmitida, possuía um único objetivo: dar aos ouvintes o prazer da imaginação – e, consequentemente, garantir a audiência e as verbas publicitárias. O rádio era uma verdadeira fábrica de ilusões, chegavam a dez novelas no ar e alcançavam recordes de audiência pelo mundo inteiro. Em todo o território latinoamericano, folhetins adaptados e originais foram reverberados pelas ondas do rádio e contaram com a interpretação de estrelas locais de cada um deles. Anos antes de se dedicar ao ativismo e à diplomacia política, Eva Duarte, a Evita Perón, durante seu ascenso como atriz, protagonizou algumas das obras de rádio mais emblemáticas da Argentina, como é o caso de Oro Blanco, para a Rádio Belgrano no ano de 1937. A trama durou pouco, mas foi o ponta-pé inicial de Eva Perón na Radio Belgrano, onde trabalhou por anos como locutora e atuou em diversas obras.

Nesse contexto, surgem e se popularizam textos clássicos de autores como Abel Santacruz, Inés Rodena ou Janete Clair, que posteriormente percorreram o mundo através das diversas adaptações que obtiveram em diferentes formatos. No Brasil, as radionovelas começaram como adaptações de textos estrangeiros. A primeira radionovela brasileira, por exemplo, Em Busca da Felicidade (1947), era um texto original do cubano Leandro Blanco e foi adaptada por Gilberto Martins para a Rádio Nacional.
Entretanto, o projeto de maior sucesso dessa leva foi, sem sombra de dúvidas, “O Direito de Nascer”, ou melhor, “El Derecho de Nacer”. O folhetim cubano escrito por Felix Benjamin Cainet, ganhou adaptações para o rádio tanto no Brasil, quanto no restante da América Latina. Tocando em temas como o aborto, gravidez, desigualdade social e abandono, a radionovela tocou temas sensíveis que, naquele então, não eram mencionados, o que foi um chamaríz para o publico e terminou por levantar discussões sociais que antes pouco eram debatidas.
A exibição e repercussão da trama impactou tanto que alterou a rotina dos ouvintes em todo o continente latinoamericano, uma vez que o rádio não era portátil e era necessário estar ao lado de um aparelho de som para sintonizar e acompanhar o desenvolvimento da novela. Se tornou um hábito comum que os espaços comuns de entretenimento como teatros e cinemas, ficassem completamente vazios durante a transmissão dos capítulos do folhetim.
O fenômeno ultrapassou fronteiras: Do outro lado do mundo, na Espanha, Simplemente María, texto clássico da autora argentina Celia Alcantara, ganhou uma versão ambientada no velho continente e que quebrou todos os parâmetros de sucesso. A adaptação para o rádio espanhol, surgiu em virtude do sucesso da também versão peruana da trama, feita para a televisão, protagonizada por Saby Kamalich e pelo saudoso Ricardo Blume, o tio “Loro” de Maria do Bairro (1997).

Simplemente Maria foi um estrondo em audiência, tendo 501 programas de uma hora exibidos entre 1971 e 1974, sendo sintonizada por milhões de espectadores diariamente. A atriz María Salerno, quem deu voz e vida à protagonista desse radiodrama, nasceu em Colle, um pequeno povoado do municipio de Boñar, na Espanha e, ao encarnar à personagem, se transformou em uma estrela nacional, atraindo milhares de fãs eufóricos à aeroportos, emissoras de radio e produtoras de tv, apenas para vê-la passar.
Quando o rádio foi substituído pela telenovela
E então, com a chegada da televisão no continente latinoamericano e o fortalecimento do vídeo dentro da indústria do audiovisual na década de 50, surge a telenovela, considerada uma extensão da radionovela – ao menos naquele então. Em 1952, estreia na TV Tupi, a que viria a ser a primeira telenovela da história: “Sua Vida Me Pertence”. Com 15 capítulos transmitidos, a trama era realizada ao vivo e exibida duas vezes por semana. Aos poucos, a telenovela foi ganhando seu espaço nas grades de horário das emissoras de televisão e, consequentemente, as radionovelas foram perdendo força até serem extintas definitivamente. Alguns dos vários sucessos do rádio se tornaram posteriormente telenovela. “Em Busca da Felicidade”, a primeira radionovela brasileira, ganhou anos depois sua adaptação televisiva pela TV Excelsior, com uma telenovela homônima.

Outro clássico do rádio que teve seu momento de glória na televisão foi “El Derecho de Nacer”. O texto cubano possui 6 versões para a televisão, a mais recente sendo de 2001. A mais famosa delas foi produzida pela rede mexicana Televisa em 1981, protagonizada por Verónica Castro e Sergio Jimenez. Com produção de Ernesto Alonso, a adaptação de El Derecho de Nacer teve um papel relevante para a sociedade latinoamericana no início dos anos 80 e foi responsável a instaurar uma série de debates sociais sobre os acontecimentos do folhetim. Acontece que, mesmo que o epicentro da trama seja focado no aborto, direito à vida e em todas as questões que giram em torno do plot principal, a crítica à moral da sociedade capitalista periférica e a desigualdade social, aqui é apresentada como contraponto para um mundo de abundancia material e privilégios envoltos pela superficialidade das classes mais altas, algo que, naquele então, era debatido com menos clareza e frequência que nos dias atuais.
Diversos temas ganharam visibilidade por meio de discussões sociais e foram de extrema importância nessa leva de adaptações do jornal ao rádio e do rádio para a televisão. No caso das telenovelas, as histórias originais também tiveram espaço para reverberar temas considerados tabus em momentos onde a sociedade carecia de informações e esclarecimentos acerca de uma série de estigmas. Um exemplo claro disso, é a maneira em que a Televisa (agora TelevisaUnivision) durante os anos 2000, trouxe a conscientização acerca do vírus do HIV como ponto de destaque nas novelas juvenis “Primer Amor” (2000) e “Amigas y Rivales” (2001).
Em Clase 406 (2002), adaptação da colombiana “Francisco, el Matemático” (1999), temas como gravidez na adolescência, sexualidade, uso de drogas, bullying e violência, foram explorados ao longo das quatro temporadas do folhetim.
Várias das telenovelas rosas mais clássicas e memoráveis, as quais foram exportadas pelo mundo afora, como Rubí, Teresa, a trilogia das Marias, Corazón Salvaje e até mesmo Carrusel (no Brasil, Carrossel), também são adaptações de folhetins que foram dos contos à televisão, passando pela radionovela.
A telenovela ainda hoje é um dos gêneros mais populares do audiovisual na américa latina e um dos produtos de maior exportação a nível internacional. Seja pelo impacto, roteiro, qualidade das produções ou artistas presentes em cada produção, as telenovelas seguem, ainda hoje, sendo assunto de todo tipo de discussão. Honrando o legado do rádio, as novelas assumiram o papel social de incitar discussões de cunho social e cultural de extrema importância e informar de forma clara acerca de temas que não atingem toda a população, sem deixar de lado o laço fundamental que tornou a novela um gênero popular: a emoção e o imaginário. Em textos clássicos re-adaptados ou em histórias originais, a essência da novela segue a mesma, perpetuando um gênero que sobreviveu ao tempo e que, definitivamente, veio pra ficar.
