Se, ao ouvir a palavra dembow, tudo o que vem à sua mente são imagens de um perreo intenso, continue lendo porque o dembow é muito mais do que isso (ainda que isso também faça parte).
Embora para muitos soe como algo novo, ou até como um subgênero que está na moda, o dembow é, na verdade, o “pai” do reggaeton, um ritmo que nasceu do dancehall jamaicano e se transformou com a expansão para o Panamá, no ano de 1987 quando o dominicano Shabba Ranks lançou a música: Dem Bow que literalmente significa “Eles se Curvam”, protestando contra o colonialismo.
No entanto, foi na República Dominicana em 1992 Nando Boom faz um remix para o Super Pounder Riddim em “Pensión”, a batida chega a Porto Rico e os MCs começam a chamá-la de “El Dembow”. Foi aí que o gênero encontrou seu maior impulso, e por isso faz todo sentido que o seu auge, aqui em toda América Latina, esteja acontecendo justamente agora.
A República Dominicana vem protagonizando uma revolução sem precedentes na América Latina. Não é uma revolução política. Tampouco financeira. É cultural, digital e, também, econômica. E seus protagonistas não usam uniformes nem carregam bandeiras; seguram microfones, smartphones e uma visão disruptiva de sucesso. Os “dembowseros” dominicanos, liderados por El Alfa “El Jefe”, Yailin La Más Viral e Secreto El Famoso Biberón, estão à frente de uma transformação que colocou o país no centro do mapa da economia criativa digital global.
O dembow tem raízes no raggamuffin e no dancehall jamaicano, mas sua principal inspiração é o rap. As músicas desse estilo lembram bastante o reggaeton mais clássico, especialmente em suas bases rítmicas, o ritmo do dembow é marcadamente mais repetitivo e acelerado, tanto na batida quanto nas letras. Um de seus principais objetivos é justamente provocar movimento: ele é feito para dançar como se dança o próprio dembow.
A dança que acompanha o dembow é, essencialmente, uma forma mais intensa e exagerada do perreo tradicional do reggaeton. Muitas vezes, lembra o twerking, mas com uma pegada mais espontânea e de rua, sem tanta preocupação com a técnica. As letras costumam abordar temas diversos: críticas sociais, reflexões do cotidiano, histórias de amor, pequenas anedotas e os desafios da vida real. Apesar da batida dançante, o conteúdo pode ser surpreendentemente variado.
Entre os nomes mais emblemáticos do dembow estão El Alfa, Chimbala, La Materialista, Milka La Más Dura, Secreto “El Famoso Biberón”, Toxic Crow e o único porto-riquenho da lista Don Omar. Os números não mentem: o dembow virou uma indústria.
Segundo um estudo da Universidade de Wharton, na Pensilvânia (EUA), publicado no ano de 2023, existe uma transformação que vai muito além da música. A pesquisa, que traz uma análise dos 12 artistas dominicanos mais influentes, mostra que a renda estimada por artista varia entre 2 e 12 milhões de dólares por ano. Os números apontam para um ecossistema robusto, que emprega diretamente mais de 2.000 pessoas. Estúdios de gravação, agências de marketing, designers gráficos e até roteiros turísticos por bairros populares se beneficiam do fenômeno.
Os dados da pesquisa são impressionantes: a indústria do dembow criou uma nova classe média digital na República Dominicana, com salários acima da média nacional. Gerentes de redes sociais (community managers) ganham entre 1.500 e 3.000 dólares por mês. Produtores musicais de ponta chegam a receber até 10.000 dólares mensais.
¡CON PAPA NO, CON MI BARRIO NO!
A República Dominicana encontrou no dembow sua voz, sua indústria e seu caminho para o futuro. Não esperou ser notada pelo mundo; foi lá e conquistou seu espaço. O que está em curso não é apenas uma revolução musical, mas talvez a mais verdadeira transformação cultural e econômica do Caribe recente.
Os artistas do dembow não pediram licença. Com talento, domínio das redes e uma conexão real com seu público, eles moldaram um novo tipo de poder: o da viralidade, da influência e da identidade. O que nasceu como batida virou indústria; o que parecia entretenimento tornou-se uma estratégia real de desenvolvimento nacional.
Eles também não esperaram ser compreendidos. Foram direto ao ponto: autenticidade e redes sociais. Com isso, redefiniram o sucesso, democratizaram a fama e impulsionaram uma nova economia criativa dominicana. Hoje, o mundo acompanha, imita e consome o que antes era apenas local.
