Em setembro de 2021, El Salvador surpreendeu o mundo ao se tornar o primeiro país a adotar o bitcoin como moeda de curso legal. A medida, impulsionada diretamente pelo presidente Nayib Bukele, foi recebida com entusiasmo por entusiastas das criptomoedas — e com grande desconfiança por economistas, organismos internacionais e parte expressiva da população salvadorenha. Agora, pouco menos de quatro anos depois, essa ousada iniciativa chega ao fim. O país reformou a chamada Lei do Bitcoin, retirando da criptomoeda o status de moeda oficial.
A decisão, ainda que não tenha sido amplamente comentada por Bukele, representa uma mudança de rumo significativa e expõe os limites entre inovação tecnológica e responsabilidade fiscal em um país com graves desafios econômicos.
Do pioneirismo à retração
A Lei do Bitcoin foi aprovada às pressas em junho de 2021 e entrou em vigor em setembro do mesmo ano. Com ela, o bitcoin passou a ter o mesmo status legal que o dólar americano, até então a única moeda oficial em circulação no país. A intenção, segundo o governo, era facilitar remessas internacionais, atrair investimentos estrangeiros e posicionar El Salvador como um polo tecnológico global.
Na prática, no entanto, o que se viu foi algo bem diferente. A implantação do bitcoin foi marcada por protestos, desconfiança, falta de informação e baixa adesão. A principal aposta do governo, a carteira digital “Chivo Wallet”, chegou a oferecer US$ 30 em bitcoin para cada cidadão que fizesse o download do aplicativo — uma tentativa clara de incentivar o uso da criptomoeda. Mas nem os bônus conseguiram conquistar a população: em 2024, apenas 8,1% dos salvadorenhos declaravam ter utilizado a ferramenta.
FMI na jogada
O recuo do governo salvadorenho não aconteceu por acaso. El Salvador vinha negociando, desde 2022, um empréstimo de US$ 1,4 bilhão com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Entre as condições impostas pelo organismo estava a “mitigação dos riscos associados ao bitcoin”, considerados elevados demais para a frágil economia do país.
Por trás do entusiasmo de Bukele com o bitcoin, havia uma realidade preocupante: o país enfrentava alto endividamento, baixo crescimento do PIB, escassez de dólares em reservas e risco de calote. As negociações com o FMI estavam emperradas, e o comportamento autoritário do presidente, com ataques ao Judiciário e à imprensa, agravava o cenário de desconfiança.
A concessão do crédito só avançou quando El Salvador aceitou revisar a legislação. Em janeiro de 2025, a Assembleia Legislativa — dominada por aliados de Bukele — aprovou a reforma da Lei do Bitcoin. Seis artigos foram modificados e três, revogados. A palavra “moeda” foi removida do texto, e o bitcoin passou a ser tratado como um ativo de curso legal, mas não obrigatório.
A confusão da nova lei
Apesar da mudança de posição, a nova redação da lei gerou confusão. Ou seja, o bitcoin ainda pode ser usado, desde que haja acordo entre as partes envolvidas, mas não é mais de aceitação obrigatória.
Além disso, a reforma estabelece que impostos e obrigações do Estado devem ser pagos na moeda em que foram contraídos, o que exclui o bitcoin como opção viável para quitação de débitos públicos. Isso coloca um ponto final no ideal defendido por Bukele de substituir, ainda que parcialmente, o dólar como moeda corrente.
Falta de dados, sobra de dúvidas
Durante todo o período em que o bitcoin teve status legal, o governo manteve uma postura opaca em relação aos resultados da medida. Não foram divulgados dados concretos sobre volume de transações, impacto econômico ou adesão da população. As únicas informações vinham de declarações esparsas do próprio presidente nas redes sociais, muitas vezes celebrando resultados sem apresentar evidências.
A plataforma Chivo Wallet, por exemplo, foi envolvida em uma série de problemas técnicos e suspeitas de fraude. Estima-se que uma vulnerabilidade na carteira digital tenha resultado em perdas de até US$ 840 mil. Também houve denúncias de duplicação de identidade e possíveis violações de leis internacionais contra lavagem de dinheiro.
A mídia local, por sua vez, sempre mostrou que o entusiasmo oficial não era acompanhado pela população. O criptoativo era, em grande medida, ignorado no cotidiano da maioria.
Bukele em silêncio
Curiosamente, Bukele não se manifestou publicamente sobre a retirada do bitcoin como moeda oficial — ao contrário de sua postura quando anunciou a adoção da criptomoeda, com direito a discurso em conferência internacional e postagens frequentes no Twitter/X.
A única menção oficial foi feita pela Assembleia Legislativa, que confirmou a reforma. Paralelamente, o presidente preferiu usar as redes sociais para comentar sobre temas como a condenação de Bob Menendez, senador norte-americano que criticou a política pró-bitcoin de El Salvador. Um silêncio que chama atenção, sobretudo vindo de um líder conhecido por sua comunicação populista.
Ainda comprando bitcoin
Apesar da reforma, o governo salvadorenho ainda mantém investimentos em bitcoin. Um site lançado recentemente, o “Bitcoin Office”, indica que o país possui cerca de 6.049 BTC, o equivalente a mais de R$ 3 bilhões. Isso levanta outra questão: como o governo lidará com esse ativo em um contexto em que ele já não é mais moeda oficial?
Fontes do governo indicam que a compra de bitcoin continua, mesmo após o acordo com o FMI. Isso sugere que, embora tenha recuado em termos legais, Bukele ainda vê valor simbólico e estratégico na criptomoeda.
Entre janeiro e julho de 2025, o governo salvadorenho adquiriu aproximadamente 258 bitcoins, elevando a reserva oficial para 6.230 unidades. Com a valorização recente da criptomoeda — que atingiu recordes acima de US$ 113 mil —, o valor total da reserva chegou a US$ 700 milhões, representando um aumento de 14% em comparação a fevereiro deste ano. Segundo dados compartilhados por Bukele, o país já gastou US$ 291,7 milhões com essas compras e acumula ganhos não realizados de quase US$ 400 milhões.
O que fica do bitcoin em El Salvador
Apesar do fim do experimento como moeda oficial, o bitcoin deixou marcas em El Salvador — inclusive físicas. Na cidade de Ilopango, um monumento em homenagem à criptomoeda ainda permanece de pé. Já a praia de El Zonte, conhecida como “Bitcoin Beach”, segue atraindo entusiastas e turistas interessados no universo cripto.
Mas, na prática, a criptomoeda volta ao lugar de onde nunca deveria ter saído: o de uma ferramenta alternativa, e não de um pilar da economia nacional. Para os salvadorenhos, a experiência serviu mais como um lembrete dos riscos da improvisação em políticas públicas do que como uma revolução financeira (que só existia na cabeça de Bukele).
