PERREOLOGÍA EP: 3 – Neoperreo: o reggaeton underground que virou megafone das periferias digitais

O reggaeton já é um fenômeno global: virou trilha sonora de festas, virais e charts internacionais. Mas, nos becos e quartos improvisados de jovens criativos, uma nova batida vem ganhando força: o neoperreo. Nascido da mistura entre cultura de bairro, reggaeton clássico e era digital, esse subgênero está dando voz a quem não teve acesso a escolas de arte, mas tem um notebook e muita atitude.

Considerado um dos pilares da “velha escola” do reggaeton, Daddy Yankee costuma ser lembrado ao lado de nomes como Don Omar e do duo porto-riquenho Wisin y Yandel. Esses artistas ajudaram a moldar as bases rítmicas e estéticas que, anos depois, seriam reinterpretadas pelo neoperreo — subgênero que emergiu na década de 2010, mesclando o dembow clássico com influências do trap, da música eletrônica e de movimentos contraculturais. Com essa fusão, o neoperreo não apenas ressignifica o legado do reggaeton, mas também amplia seus limites estéticos e políticos para novas gerações.

Duas das maiores referências do movimento são a chilena Tomasa del Real e a argentina Jorgelina Torres, mais conhecida como Ms Nina. As duas começaram a fazer música de forma independente, compondo reggaetons com pegada eletrônica em computadores simples, comprados com a ajuda dos pais.

O neoperreo é esse cruzamento entre a era digital e a influência do reggaeton na nova geração de artistas. É o que, explica Tomasa, em entrevista para o Podcast da DalePlay records. O termo vem da gíria “perreo”, que define as famosas festas de reggaeton – ou, traduzindo livremente, aquele “rebolado colado” cheio de sensualidade.

Tomasa, natural da cidade de Iquique, lançou seu primeiro álbum, Bien y Mal, aos 20 anos de idade em 2014, totalmente de forma independente. Agora, com 31, e sob o selo californiano Nacional Records, ela acaba de lançar seu segundo trabalho: Bellaca del Año, que foi divulgado no dia 15 de maio. O videoclipe do single de estreia, Barre con el pelo, já está rodando pela internet com a mesma ousadia que marca o estilo.

Com estética ousada, letras provocativas e batidas que não pedem permissão, o neoperreo prova que a revolução musical pode muito bem começar no quarto de alguém, apenas – com Wi-Fi e muita vontade de fazer barulho.

É como perguntar se só quem estudou arte pode fazer arte. Não, não, não! O povo também pode criar arte, defende. A artista, que já se apresentou em espaços renomados como o Museu de Arte Contemporânea Tomasa del Real critica elitismo na arte e defende o reggaeton como expressão popular

A cantora e tatuadora profissional Tomasa del Real voltou seus holofotes para uma crítica direta aos “artistas consagrados”, como o mexicano Aleks Syntek, que recentemente afirmou que o reggaeton e seus videoclipes seriam danças “pornográficas”, apropriadas apenas para “clubes noturnos”.

A chilena rebateu: “Durante muito tempo, esconderam a realidade com coisas bonitinhas. Agora querem esconder o reggaeton porque suas letras não são poesia? Por favor”, para o Podcast da DALEPLAY RECORDS. Conhecida como uma “reggaetonera digital”, Tomasa é uma das figuras mais autênticas do neoperreo, movimento que mistura o reggaeton clássico com a estética crua e eletrônica da cultura digital. 

a do Queens e o Central Park, em Nova York, também criticou o pedestal em que muitos colocam determinados artistas: Se alguém expressa sua realidade por meio da arte, ninguém — por mais alto que esteja em alguma escada social, econômica ou moral — tem o direito de dizer que isso não é válido. Para ela, o sucesso do neoperreo está justamente em sua origem real e orgânica.

Ultimamente, vem se moldado por algoritmos e fórmulas de sucesso, e o neoperreo acaba entrando na jogada  como uma versão mais sombria, eletrônica e alternativa do reggaeton tradicional: e se destaca não apenas por sua estética sonora, mas também pela forte presença de artistas femininas, algo ainda pouco comum no gênero original. Embora seu vínculo com o ritmo dembow ainda gera debate, o neoperreo parece mais flexível em sua definição, incorporando influências do trap e de outros estilos urbanos, desde que mantenha a atitude e a proposta estética que definem seu universo.

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