Literatura latino-americana: A voz feminina nas obras de Isabel Allende

Ao longo de sua carreira, Isabel Allende construiu um universo literário totalmente marcado pela presença feminina. Suas personagens são protagonistas complexas, repletas de subjetividade, desejo, resistência e humanidade. Para quem não conhce, em suas obras, a autora chilena não apenas dá voz às mulheres, mas também as posiciona como agentes centrais da história, em contraposição a uma tradição literária dominada por perspectivas masculinas. Esse movimento de ressignificação da figura feminina na literatura está alinhado à trajetória pessoal da autora e à sua participação ativa no feminismo latino-americano.

O romance “A ilha sob o mar” (2009) é um exemplo emblemático dessa construção literária. A protagonista Zarité Sedella é uma mulher escravizada de origem africana que, ao longo da narrativa, cresce diante dos olhos do leitor. Quando é apresentada, é apenas uma qualquer faminta e fragilizada. Mas à medida que a história avança, ela revela uma força interior moldada por sua espiritualidade ancestral, sua resiliência e sua capacidade de amar. Allende alterna a narração entre a terceira pessoa e passagens em primeira pessoa narradas pela própria Zarité, criando uma estrutura narrativa que valoriza a subjetividade da personagem e permite ao leitor um contato íntimo com seus sentimentos e memórias. Zarité é, em muitos aspectos, o retrato da mulher silenciada pela história oficial, mas que encontra na palavra e na narrativa uma forma de resistência.

Eva Luna (1987), outra protagonista icônica da autora, segue o mesmo caminho. Eva é uma mulher que se forma como sujeito a partir da capacidade de narrar. Sua identidade se constrói pela palavra e pela imaginação, à semelhança de Sheherazade, de “As mil e uma noites”. Ao dominar a escrita e a oralidade, Eva transcende a pobreza, a orfandade e a violência, e encontra um espaço de liberdade e expressão. Sua história se entrelaça com outras vozes femininas, criando uma rede de memórias, afetos e resistências.

Em “Contos de Eva Luna” (1988), é Belisa Crepusculário quem encarna outra faceta dessa voz feminina. No conto “Duas palavras”, Belisa foge da pobreza e encontra nas palavras uma forma de sobrevivência e autonomia. Ela torna-se uma “vendedora de palavras”, uma escriba errante que escreve cartas de amor, discursos e mensagens diversas. Sua habilidade com a linguagem é tamanha que até um coronel a contrata para que ela escreva um discurso político que o torne presidente. Além do discurso, Belisa sussurra duas palavras misteriosas no ouvido do militar. Essas palavras, nunca reveladas, são tão potentes que transformam o tirano e o perturbam profundamente. Ao final do conto, o reencontro entre os dois é envolto em misticismo e ternura. Belisa, como Zarité, é um símbolo da força transformadora da mulher que domina a linguagem e, com ela, modifica o mundo ao seu redor.

Em “Paula” (1994), o protagonismo feminino ganha contornos ainda mais pessoais. A obra é uma longa carta escrita por Isabel Allende à sua filha, que está em coma devido a um ataque de porfiria. No entanto, mais do que um lamento por uma perda, o livro é uma afirmação da vida e da memória. Allende se mostra como mulher, mãe, filha, cidadã e escritora. Ela entrelaça suas dores pessoais com a história do Chile e com o processo de formação de sua identidade como mulher e escritora feminista. Em “Paula”, vemos claramente como a autora se funde com suas personagens: ela também é uma mulher que resiste, que narra para não esquecer, que transforma a dor em arte.

O contexto histórico do Chile também se faz presente como pano de fundo para a construção dessas personagens. O golpe de 1973, a ditadura militar e as violações de direitos humanos não aparecem apenas como elementos de ambientação, mas influenciam diretamente as trajetórias das protagonistas. Em “De amor e de sombra”, por exemplo, Irene Beltrán é uma jovem jornalista que desafia os padrões de comportamento impostos às mulheres de sua classe social. Ela é livre, ousada, inconformada, e sua atuação é central para a revelação dos crimes cometidos pela ditadura. Irene representa a mulher que escolhe se posicionar, mesmo em contextos de risco e silenciamento.

Essa coragem está presente também em Clara, Blanca e Alba, as três gerações de mulheres que compõem o núcleo de “A casa dos espíritos” (1982), romance que marcou a estreia de Allende no mundo literário. A matriarca Clara, dotada de dons paranormais e uma serenidade quase mística, é o pilar da família. Sua filha Blanca, apesar de submissa em certos momentos, demonstra firmeza ao defender seu amor por Pedro Tercero. E Alba, neta de Clara, é quem finalmente narra e reconstrói a história familiar, resistindo à barbárie do regime militar e escolhendo a memória como instrumento de redenção.

Já no romance “Violeta” (2022), Isabel Allende volta a escrever a partir da perspectiva da memória, narrando a vida de uma mulher centenária que atravessa os principais eventos do século XX na América Latina. A protagonista, Violeta del Valle, escreve uma longa carta a um ser querido, relembrando seus amores, perdas, conflitos familiares e descobertas. Como outras personagens femininas de Allende, Violeta desafia as convenções de sua época, constrói sua autonomia e amadurece emocional e espiritualmente. A escrita, mais uma vez, aparece como ferramenta de reconstrução de si mesma. Através da voz de Violeta, Allende oferece uma reflexão sobre o papel das mulheres nas transformações sociais e sobre a importância de preservar a memória como forma de resistência.

Isabel Allende escreve a partir do exílio, de uma posição de deslocamento, e isso também marca suas personagens. Muitas delas vivem em busca de um lugar, de um pertencimento simbólico e físico. Essa sensação de não pertencer a um lugar fixo, de estar sempre em trânsito, também é uma experiência comum a muitas mulheres, historicamente marginalizadas e deslocadas de suas próprias histórias.

Em “Mujeres del alma mía” (2020), Allende reflete diretamente sobre seu feminismo. Ela relata como, na juventude, não tinha ambições literárias porque isso era visto como coisa de homens. Foi o movimento de emancipação das mulheres que lhe deu a coragem de escrever, de se apropriar da ira, da assertividade, da competência, do erotismo e da determinação. A escritora reconhece que suas personagens femininas nascem desse impulso: elas desafiam normas, fazem escolhas, rompem silências.

Pode-se dizer que Isabel Allende não apenas escreve sobre mulheres, mas escreve como mulher e para mulheres. Sua literatura é atravessada por uma perspectiva de gênero que busca dar centralidade à experiência feminina em todas as suas formas. A escrita torna-se, assim, um espaço de reparação histórica, de empoderamento e de liberdade.

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