Caporales: o ritmo que traduz a identidade da diáspora boliviana

O som vem antes da imagem. Um conjunto de metais agudos, quase percussivos, marca o tempo enquanto os corpos entram em cena com precisão coreográfica. As botas pesadas batem no chão com força calculada, produzindo um ritmo que é parte estrutural da própria dança. Em apresentações de caporales, o impacto físico do movimento é tão importante quanto a melodia: trata-se de uma linguagem completa, onde música, corpo e visual operam como uma unidade estética.

A cena se repete em diferentes geografias. Em São Paulo, especialmente nos bairros do Brás e do Pari, grupos de jovens descendentes de bolivianos ocupam ruas e quadras com ensaios que atravessam a noite. Em Buenos Aires e Madrid, a dança aparece em festivais multiculturais e celebrações religiosas. O que se vê é uma prática que saiu do circuito local para se tornar um dos principais marcadores culturais da diáspora boliviana contemporânea.

Origem e expansão dos caporales

Os caporales são uma dança folclórica boliviana criada no final da década de 1960, diretamente inspirada na saya afro-boliviana, música originada nas comunidades afrodescendentes da região dos Yungas. A saya combina música, canto responsorial e dança, com forte presença de tambores e letras que remetem à experiência histórica da população afro-boliviana, sendo um dos principais registros culturais que resgatam a memória deste grupo no país.

A criação dos caporales ocorre em 1969, quando os irmãos Estrada Pacheco desenvolvem uma nova coreografia inspirada na figura do “caporal”, personagem presente em danças como “Los Negritos”, tradicional do Carnaval de Oruro. Historicamente, o caporal era o capataz responsável por supervisionar trabalhadores escravizados durante o período colonial. Essa figura, associada à autoridade e ao controle, foi reinterpretada dentro de uma lógica performática, transformando-se em símbolo de força, liderança e presença cênica.

A primeira grande aparição pública da dança ocorre em 1972, em La Paz, durante as celebrações do Señor Jesús del Gran Poder. A partir desse momento, os caporales passam por um processo acelerado de popularização. Dados de 2018 da Asociación de Conjuntos Folklóricos del Gran Poder indicam que, nas décadas seguintes, o número de participantes cresceu de algumas dezenas para milhares em festividades nacionais.

Parte desse crescimento está ligada à sua estética. Diferente de outras danças tradicionais, os caporales incorporam elementos de espetáculo: saltos, giros, marcações fortes de pé e figurinos altamente elaborados. As botas com cascabeles produzem um som próprio, que funciona como extensão da música. O figurino feminino, com saias curtas e bordados detalhados, e o masculino, com jaquetas estruturadas e chapéus ornamentados, reforçam o caráter visual da dança.

A música também evolui nesse processo. Grupos como Los Kjarkas e Llajtaymanta contribuíram para consolidar a sonoridade das sayas caporales, incorporando instrumentos andinos, metais e arranjos que ampliam o impacto ao vivo.

Também é impossível deixar de mencionar a Fraternidad Folclórica y Cultural Caporales Universitarios de San Simón. Fundada em 22 de novembro de 1978, em Cochabamba, a fraternidade nasce a partir da iniciativa de estudantes da Universidad Mayor de San Simón que buscavam participar do Carnaval de Oruro com uma proposta coreográfica própria.

Com eles, foram criados blocos específicos como os “Macho Caporales”, com dançarinos de grande presença física, e as “Chinas”, mulheres que utilizam figurinos masculinos, introduzindo variações dentro da coreografia tradicional. Também surgiram grupos como “Los Juchuy”, ampliando a diversidade de perfis dentro da dança. Hoje, eles possuem filiais em diferentes países.

Caporales na diáspora boliviana

A partir dos anos 1990, com o aumento da migração boliviana, os caporales atravessam fronteiras. Segundo o Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), o Brasil contava com cerca de 350 mil bolivianos em 2022, sendo aproximadamente 70% na região metropolitana de São Paulo (OBMigra, Relatório 2023). Espaços como a Praça Kantuta exemplificam essa dinâmica ao reunir, especialmente aos domingos, milhares de pessoas em feiras culturais organizadas pela comunidade boliviana, com gastronomia típica, artesanato e apresentações musicais que ocupam o espaço público e o ressignificam.

Foi assim como as danças andinas — Caporales, Morenada, Diablada e Tinkus — ganham destaque como formas de expressão identitária e resistência simbólica. Eventos ligados a datas religiosas e festividades tradicionais, muitas vezes realizados também em espaços como o Memorial da América Latina, reúnem milhares de participantes e espectadores.

Esse movimento também impulsiona debates sobre identidade e pertencimento. Em 2011, a Bolívia declarou os caporales como Patrimônio Cultural e Imaterial por meio da Lei nº 137 (Estado Plurinacional de Bolivia, Ley 137/2011). Em 2025, o país instituiu o dia 25 de janeiro como o Dia Nacional da Dança dos Caporales, aumentando as políticas de proteção cultural (Cámara de Diputados de Bolivia, Proyecto de Ley 090/2023-2024).

E isso não é exclusividade do Brasil. Na cidade de Luján, a cerca de 70 km de Buenos Aires, Argentina, a festa da Virgen de Copacabana virou um dos principais encontros da comunidade boliviana no país. A celebração acontece em torno de um dos santuários católicos mais importantes da Argentina e ganha força desde 1956, quando a imagem da padroeira da Bolívia passou a fazer parte da basílica. Com o tempo, o que era uma peregrinação religiosa também se transformou em um grande evento cultural, com música, comida típica e apresentações que ocupam as ruas da cidade.

É aqui que os caporales dominam a cena. Em 2010, 36 das 50 fraternidades presentes dançaram esse ritmo; em 2016, foram 60 entre 98 grupos, segundo a Asociación de Conjuntos Folklóricos de Residentes Bolivianos en Argentina. Os grupos investem em figurinos, bandas e ensaios para se destacar, e o resultado é um desfile deslumbrante, que mistura devoção e espetáculo e mostra como a cultura boliviana segue viva, especialmente entre jovens que cresceram na Argentina.

Você também pode conhecer os caporales de perto

A Fraternidade de Caporales Mi Viejo Brasil é um dos grupos culturais mais atuantes da comunidade boliviana em São Paulo, dedicada à preservação e difusão da dança caporal. Com origem em Cochabamba e presença no Brasil há cerca de 10 anos, a fraternidade reúne imigrantes, descendentes e brasileiros interessados na cultura andina, promovendo não apenas a prática da dança, mas também a construção de vínculos comunitários e a valorização das tradições bolivianas.

A atuação da Mi Viejo Brasil inclui participações em eventos importantes como a Virada Cultural, o Festival Somos Latinos e celebrações tradicionais como a Festa de Nossa Senhora de Copacabana, além de desfiles cívicos e festividades da comunidade boliviana. Também mantém conexões com grupos musicais e culturais da Bolívia, ampliando seu alcance artístico.

Paralelamente, a fraternidade oferece aulas de caporales, funcionando como um espaço de aprendizado e acolhimento, onde novos integrantes podem conhecer a dança, desenvolver técnica e se aproximar da cultura andina.

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