O México foi palco de milhares de eventos marcantes — alguns você pode conferir aqui no Exclamación —, mas hoje vamos falar de uma tragédia que aconteceu dias antes das Olímpiadas de 1968, quando o país mexicano sediou a edição: o massacre de Tlateloco.
Esse episódio aconteceu em 2 de outubro daquele ano, quando forças armadas abriram fogo contra centenas de estudantes em Tlatelolco, na Cidade do México. Até hoje o número de mortos é incerto, porém estima-se que seja de cerca de 300. Vem descobrir mais sobre esse caso.

Contexto histórico
Para entender como ocorreu o massacre de Tlatelolco, é preciso saber como era o México nessa época: o país era governado por Gustavo Dias Ordaz, do Partido PRI, que domina a política mexicana há décadas, e mantinha um regime que, na época, era autoritário, sufocava a oposição e restringia as liberdades civis.

O massacre foi precedido por vários meses de instabilidade política e inspirado por outras manifestações ao redor do mundo que aconteciam no mesmo período.
No mesmo ano aconteceram as Olimpíadas naquele país e esse foi outro motivo que fizeram os manifestantes se rebelar — chamar atenção da mídia e do público para o que acontecia na região.
Os estudantes mexicanos começaram a organizar protestos em julho de 1968, clamando por liberdade política, melhores condições educacionais e a libertação de presos políticos.
O presidente estava determinado a dar um ponto final nos protestos estudantis e, em setembro — dez dias antes da abertura das Olimpíadas —, ordenou ao exército que ocupasse o campus da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM), a maior da América Latina.
Os estudantes foram espancados e detidos de forma indiscriminada. Em protesto contra esta situação, o reitor da UNAM, Javier Barros Sierra, demitiu-se em 23 de setembro.
Ainda assim, as manifestações estudantis não cessaram: houve um aumento de proporção até que, em 2 de outubro, 15 mil estudantes de diversas universidades invadiram as ruas da Cidade do México, ostentando cravos vermelhos como sinal de protesto contra a ocupação militar na UNAM.
Naquela mesma noite, cerca de cinco mil estudantes e trabalhadores, muitos deles acompanhados por esposas e filhos, se uniram na Plaza de las Tres Culturas, em Tlatelolco, para o que deveria ser uma manifestação pacífica.
O massacre de Tlatelolco
O clima era tenso, visto que as autoridades já tinham demonstrado disposição para reprimir os protestos com força. Forças do exército e da polícia chegaram ao local equipadas de carros blindados e tanques, cercaram os manifestantes e abriram fogo contra a multidão, atingindo não só os estudantes e quem estava envolvido nos protestos, como também civis que estavam no local por outras razões.
O massacre continuou noite adentro, com os soldados efetuando operações em busca de outros manifestantes que por ventura pudessem estar escondidos em prédios e casas da região. Testemunhas destes acontecimentos dizem que viram milhares de corpos sendo recolhidos por caminhões de lixo. Além dos mortos, também houve milhares de pessoas presas e torturadas.
A explicação oficial do governo dizia que haviam provocadores infiltrados armados misturados entre os manifestantes colocados nos edifícios adjacentes à praça e que tinham iniciado o confronto.
Juntamente a isto, ele havia colocado atiradores em pontos estratégicos dos edifícios adjacentes à praça e assim deram início ao confronto. Como o exército estava sob fogo cruzado, a única opção era a da autodefesa.
O que aconteceu nesse dia esteve sob suspense durante anos. Registros e informações divulgados por fontes governamentais dos EUA e do México desde os anos 2000 permitiram aos pesquisadores estudar os eventos e tirar novas conclusões.
A questão de quem atirou primeiro permaneceu sem solução durante anos após o massacre. O governo mexicano disse que tiros vindos dos apartamentos vizinhos provocaram o ataque do exército, mas estudantes disseram que os helicópteros pareciam sinalizar ao exército para atirar contra a multidão.
A maior parte da mídia mexicana informou que os estudantes provocaram a resposta do exército com tiros de franco-atiradores vindos de prédios de apartamentos ao redor da praça. A manchete matinal do El Día de 3 de outubro de 1968 dizia: “A provocação criminosa no comício de Tlatelolco causou tumultos sangrentos”.
Entre outros, as autoridades mexicanas acusaram o escritor José Revueltas, infundadamente, de ser o “ideólogo do movimento”, razão pela qual começou a sua perseguição. Ele foi condenado a 16 anos de prisão em Lecumberri e colocado em liberdade condicional após dois anos de cárcere.
O massacre e as Olímpiadas
“Não há mais informações”, foi a ordem do gabinete presidencial. Ao amanhecer do dia 3 de outubro, a televisão e os jornais davam a previsão do tempo como principal notícia do dia. Os jornais não informaram corretamente — ou apenas não falaram sobre o caso.
“Forte luta enquanto o Exército dispersa uma reunião de grevistas. 20 mortos, 75 feridos e 400 presos”, titulava Excelsior. Enquanto isso, as manifestações se espalhavam por todo país. O tempo estava instável e o “espírito olímpico” não podia ser atenuado.
Mas a imprensa internacional confirmou o massacre: mais de 325 pessoas, segundo o jornal inglês The Guardian, morreram e outras continuam desaparecidas. O massacre de Tlatelolco foi um fato.
Ainda no dia 3, o Senado emitiu um comunicado sobre os acontecimentos e os justificou. Nos jornais, os estudantes foram acusados e rotulados como “terroristas” e como estando sob as ordens do comunismo internacional.
Os primeiros Jogos Olímpicos da América Latina mostrariam um México que saía do Terceiro Mundo e crescia com o apoio dos Estados Unidos. O avanço econômico, a opulência dos estádios e da Vila Olímpica justificaram tudo.
Os camponeses e indígenas empobrecidos e a exigência de uma verdadeira democracia, tudo o assustava. Não importava: os Jogos tinham de ser realizados custe o que custasse.
O que disse o Comitê Olímpico Internacional (COI) sobre o massacre perpetrado em Tlatelolco? A organização fez apenas uma reunião rápida e o show continuou, com a cerimônia de abertura feita no dia 12 de outubro, apenas 10 dias após o ocorrido.
O então presidente, o americano Avery Brundage, especificou que o Olimpismo tinha de permanecer “fora da política”. “Os Jogos Olímpicos são para atletas, não para políticos”, repetiu. E assim, as Olímpiadas se realizaram normalmente no país.
Investigação e desfecho do caso
Em 1998, o presidente Ernesto Zedillo, no 30º aniversário do massacre de Tlatelolco, autorizou uma investigação do Congresso sobre os acontecimentos de 2 de outubro. No entanto, a administração do PRI continuou sem divulgar documentos oficiais do governo relacionados com o incidente.
Em 2001, o então presidente Vicente Fox — primeiro mandatário não pertencente ao PRI em mais de 70 anos — tentou resolver a questão de quem tinha orquestrado o massacre. O presidente Fox ordenou a divulgação de documentos anteriormente confidenciais relacionados com o evento.
Os documentos revelaram: “Milhares de estudantes reuniram-se na praça e a versão do governo é que os estudantes abriram fogo. Pois bem, agora há evidências bastante claras de que existia uma unidade chamada Batalhão Olímpia, formada por forças especiais da guarda presidencial, que abriram fogo dos prédios ao redor da praça, e foi isso que causou o massacre.”
O Presidente Fox também nomeou Ignacio Carrillo Prieto, em 2002, para processar os responsáveis por ordenar o massacre. Em 2006, o ex-presidente Echeverría Álvarez foi preso sob a acusação de genocídio.
Contudo, em março de 2009, após um complicado processo de recurso, as acusações foram rejeitadas. O jornal mexicano The News México informou que “um tribunal de três juízes de circuito decidiu que não havia provas suficientes para ligar Echeverría à repressão violenta de centenas de manifestantes estudantis em 2 de outubro de 1968”.
Apesar da decisão, o promotor Carrillo Prieto disse que continuaria sua investigação e buscaria acusações contra Echeverría Álvarez perante a Corte Internacional de Justiça e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
Em junho de 2006, Echeverría foi acusado de genocídio por ter ordenado o massacre. Devido a sua idade avançada, foi colocado em prisão domiciliar aguardando julgamento.
No mês seguinte foi absolvido das acusações de genocídio, uma vez que o juiz decidiu que ele não poderia ser julgado, pois segundo a legislação mexicana, o crime havia prescrito.
Ainda hoje os cidadãos mexicanos se unem para relembrar esse trágico acontecimento e todo aniversário do massacre manifestantes se reúnem para reivindicar justiça e pelo fim da impunidade do caso, mantendo viva a lembrança desse horror.

Como dissemos acima, o México teve muitos momentos marcantes em sua história, entre eles os massacres — que são tão “comuns” no país mexicano. Um deles foi o Ayotzinapa, que aconteceu em 2014. Clique para conhecer o massacre de Iguala.
