Gabriela Mistral: a primeira mulher latino-americana a receber um Nobel de Literatura

Em 1945, a escritora chilena Gabriela Mistral foi o primeiro nome da América Latina a ganhar o Nobel de Literatura. A poeta, diplomata, feminista e pedagoga, autora de “Tala” e “Desolación”, foi premiada por “por sua poesia lírica que, inspirada por fortes emoções, fez de seu nome um símbolo das aspirações idealistas de todo o mundo latino-americano”.

Nascida Lucila de Maria del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga em 1899, em Vicuña, no Chile, demonstrou desde cedo os interesses pelos quais a tornaram famosa: escrita e docência. A escritora viu na literatura uma forma de expressão de suas angústias, de seus amores e seu olhar do mundo.

O nome Gabriela Mistral é uma homenagem aos poetas que ela admirava: o italiano Gabriele D’Annunzio e o francês Frédéric Mistral.

A trajetória de Gabriela Mistral marcada por palavras e paixão

Gabriela desde cedo foi uma mulher comprometida com as causas sociais, um exemplo disso foi quando escreveu um ensaio publicado em um jornal chileno, em 1906, manifestando-se a favor da ampliação dos direitos das mulheres. O texto chamava-se “A instrução da mulher”.

Nele, a escritora afirma que o papel da mulher é extremamente “pálido” e reprova o pensamento que muitos possuíam sobre a capacidade da mulher “governar o lar”.

“Porque a mulher instruída” – segundo ela – “deixa de ser essa fanática ridícula que não atrai nada além de zombaria; porque deixa de ser essa esposa monótona que, para manter o amor conjugal, não conta com mais nada além de sua beleza física e acaba por tornar entediante essa vida em que a contemplação se esgota. Porque a mulher instruída deixa de ser esse ser desvalido que, fraca para lutar contra a Miséria, acaba por se vender miseravelmente se suas forças físicas não lhe permitem o trabalho.” Para a poetisa, educar a mulher “é torná-la digna e elevá-la”.

Apenas por esse trecho é possível perceber a grandeza dos pensamentos e atitudes da autora. Em sua obra, a dor e o amor foram temas constantes. A perda trágica de um namorado na juventude serviu de inspiração para o ciclo de poemas “Sonetos de la muerte”, que a levou à consagração literária.

I

Do nicho gelado em que os homens te puseram,
Abaixar-te-ei à terra humilde e ensolarada.
Que hei de dormir-me nela os homens não souberam,
que havemos de sonhar sobre o mesmo travesseiro.

Deitar-te-ei na terra ensolarada com uma
doçura de mãe para o filho dormido,
e a terra há de fazer-se suave como berço
ao receber teu corpo de criança dolorido,

Logo irei polvilhando terra e pó de rosas,
e na azulada e leve poeira da lua,
os despojos levianos irão ficando presos.

Afastar-me-ei cantando minhas vinganças formosas,
porque a essa profundidade oculta a mão de nenhum
abaixará a disputar-me teu punhado de ossos!

II

Este longo cansaço se fará maior um dia,
e a alma dirá ao corpo que não quer seguir
arrastando sua massa pela rosada via,
por onde vão os homens, contentes de viver…

Sentirás que a teu lado cavam briosamente,
que outra dormida chega a quieta cidade
Esperarei que me hajam coberto totalmente…
e depois falaremos por uma eternidade!

Só então saberás o porque não madura
para as profundas ossadas tua carne ainda,
tiveste que abaixar, sem fadiga, a dormir.

Far-se-á luz na zona das sinas, escura:
saberão que em nossa aliança signo de astros havia
e, quebrado o pacto enorme, tinhas que morrer…

III

Más mãos tomaram tua vida desde o dia
em que, a um sinal de astros, deixara seu viveiro
nevado de açucenas. Em gozo florescia.
Más mãos entraram tragicamente nele…

E eu disse ao Senhor: – “Pelas sendas mortais
Levam-lhe. Sombra amada que não sabem guiar!
Arranca-o, Senhor, a essas mãos fatais
ou lhe afundas no longo sonho que sabes dar!

Não lhe posso gritar, não lhe posso seguir!
Sua barca empurra, um negro vento de tempestade.
Retorná-lo a meus braços ou lhe ceifas em flor “.

Deteve-se a barca rosa de seu viver…
Que não sei do amor, que não tive piedade?
Tu, que vais a julgar-me, o compreendes, Senhor!

Gabriela era uma escritora que colocava emoção em toda sua obra, costurando palavras com emoção e poesia lírica. Porém ela não ficou apenas na escrita, também foi professora e diplomata, atuando na Europa, Estados Unidos e América Latina.

Como diplomata, foi uma das maiores vozes em defesa dos direitos humanos, da educação e da infância. Em 1926 foi nomeada secretária do Instituto Internacional de Cooperação Intelectual, uma organização da Sociedade das Nações.

Até na diplomacia ela foi revolucionária sendo a primeira mulher a ocupar o cargo de cônsul em países como o Brasil, Espanha, Portugal e Itália. 

No nosso país, Gabriela fez amizade com Cecília Meireles e juntas lançaram um livro de poemas. Também ficou amiga de Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Assis Chateaubriand e Vinícius de Moraes. Conheceu Mário de Andrade através de Cecília. Nessa época, escreveu para o Jornal do Brasil.

Infelizmente, suas obras não são amplamente difundidas no Brasil, entretanto é possível conhecer seus poemas em “Poemas Escolhidos: Gabriela Mistral” e “A Mulher Forte e Outros Poemas”. Garantimos que seus escritos valem sempre a pena!

Confira na íntegra o discurso completo de Gabriela Mistral no Nobel de Literatura

“Tengo la honra de saludar a sus Altezas Reales los Príncipes Herederos, a los Honorables Miembros del Cuerpo Diplomático, a los componentes de la Academia Sueca y a la Fundación Nóbel, a las eminentes personalidades del Gobierno y de la Sociedad aquí presentes:

Hoy Suecia se vuelve hacia la lejana América ibera para honrarla en uno de los muchos trabajos de su cultura. El espíritu universalista de Alfredo Nóbel estaría contento de incluir en el radio de su obra protectora de la vida cultural al hemisferio sur del Continente Americano tan poco y tan mal conocido.

Hija de la Democracia chilena, me conmueve tener delante de mí a uno de los representantes de la tradición democrática de Suecia, cuya originalidad consiste en rejuvenecerse constantemente por las creaciones sociales valerosas. La operación admirable de expurgar una tradición de materiales muertos conservándole íntegro el núcleo de las viejas virtudes, la aceptación del presente y la anticipación del futuro que se llama Suecia, son una honra europea y significan para el continente Americano un ejemplo magistral.

Hija de un pueblo nuevo, saludo a Suecia en sus pioneros espirituales por quienes fue ayudada más de una vez. Hago memoria de sus hombres de ciencia, enriquecedores del cuerpo y del alma nacionales. Recuerdo la legión de profesores y maestros que muestran al extranjero sus escuelas sencillamente ejemplares y miro con leal amor hacia los otros miembros del pueblo sueco: campesinos, artesanos y obreros.

Por una venturanza que me sobrepasa, soy en este momento la voz directa de los poetas de mi raza y la indirecta de las muy nobles lenguas española y portuguesa. Ambas se alegran de haber sido invitadas al convivio de la vida nórdica, toda ella asistida por su folklore y su poesía milenarias.
Dios guarde intacta a la Nación ejemplar su herencia y sus creaciones, su hazaña de conservar los imponderables del pasado y de cruzar el presente con la confianza de las razas marítimas, vencedoras de todo.

Mi Patria, representada aquí por nuestro culto Ministro Gajardo, respeta y ama a Suecia y yo he sido invitada aquí con el fin de agradecer la gracia especial que le ha sido dispensada. Chile guardará la generosidad vuestra entre sus memorias más puras.”

Se quiser saber mais sobre os vencedores latino-americanos no Nobel de Literatura, leia aqui um texto que temos sobre o tema.

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