Cantora Lali Espósito é vetada na Rádio Nacional e na TV Pública argentina, denunciam trabalhadores e jornalistas

Trabalhadores da Rádio Nacional denunciaram, em um comunicado divulgado em julho de 2026, que a direção da emissora estatal proibiu a difusão de músicas de Lali Espósito. No mesmo período, o jornalista Lucca Melpi afirmou publicamente que a cantora também está vetada na TV Pública, ao ponto de nem sequer poder ser mencionada no ar. As duas denúncias, feitas de forma independente, apontam para uma mesma prática: o veto informal e não documentado de uma artista associada à visibilidade das dissidências sexuais e dos feminismos dentro da estrutura de comunicação do Estado.

Episódios semelhantes já haviam sido relatados antes. Em 2024, o cineasta Goyo Anchou contou que, ao tentar programar um ciclo de filmes em um centro cultural dependente do governo nacional, foi avisado de um código não escrito que vetava, entre outros conteúdos, qualquer material que incluísse Lali Espósito. Segundo ele, tratava-se de uma diretriz oral, transmitida de chefe a funcionário, sem nenhum documento que a formalizasse.

Quase dois anos depois, em julho de 2026, os mesmos sinais reapareceram, desta vez de forma mais orgânica e com reivindicações sindicais formais.

Trabalhadores e trabalhadoras de imprensa da Rádio Nacional, reunidos na Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa (Fatpren), divulgaram um comunicado intitulado “Censura e indigência”, no qual denunciaram um avanço sobre a liberdade de expressão dentro da emissora estatal. Entre os exemplos citados, apontaram que havia sido proibida a difusão de músicas de Lali Espósito e que até havia sido bloqueada uma entrevista ligada a uma campanha provincial de vacinação pediátrica.

O texto sindical responsabilizou diretamente a direção da rádio, encabeçada por Fernando Subirats, junto com as gerências jornalística e artística a cargo de Nicolás Yacoy e Fernanda Carbonell, a quem atribuíram o que descreveram como um silenciamento sistemático de vozes e da programação local. Segundo o comunicado, a eliminação das direções das emissoras provinciais fez com que toda entrevista com funcionários públicos passasse a exigir autorização prévia de uma “coordenadora jornalística” que, segundo afirmam, é exercida por Lula Lupo sem ocupar formalmente esse cargo no organograma.

A esse quadro, os trabalhadores somaram uma reivindicação salarial: afirmaram que os salários estão congelados desde 2024 e que o piso de um trabalhador da Rádio Nacional gira em torno de 474 mil pesos, valor que, segundo eles, fica abaixo da linha de indigência. O comunicado se encerra com uma frase que resume o posicionamento sindical: sem salários dignos não há trabalhadores, sem trabalhadores não há meios públicos, e sem meios públicos não há democracia.

Paralelamente, o jornalista Lucca Melpi fez uma revelação semelhante a respeito da TV Pública. Durante sua participação no programa de streaming No Damos Abasto, apresentado por Anamá Ferreira, Melpi afirmou ter trabalhado no canal estatal e garantiu que ali Lali Espósito está diretamente proibida, a ponto de nem sequer poder ser mencionada no ar. O comunicador disse confirmar comentários no mesmo sentido feitos por outro funcionário do canal.

Um padrão que se repete: sem papéis, mas com testemunhas

O que conecta os dois episódios — separados por quase dois anos e por instituições diferentes — é a lógica da ordem verbal. Em nenhum dos casos os denunciantes conseguiram exibir um documento, uma resolução ou um e-mail que comprovasse a existência de uma diretriz de censura. Isso levou Goyo Anchou a insistir, já em 2024, que não caberia falar em “denúncia” no sentido estrito, porque não havia crime tipificado nem prova escrita, apenas depoimentos — alguns com nome e sobrenome, e muitos outros mantidos em reserva por medo de represálias no trabalho.

A Rádio Nacional faz parte de uma rede federal de 57 emissoras que chega a regiões do país onde a oferta de meios privados é escassa ou inexistente, da Antártida até La Quiaca. Para os trabalhadores do órgão, a centralização das decisões editoriais e o corte na produção local atingem justamente essa característica distintiva: a pluralidade de vozes e a cobertura das realidades regionais.

Tanto no caso do centro cultural de 2024 quanto no dos meios públicos em 2026, a menção recorrente a Lali Espósito — figura pública associada à visibilidade das dissidências sexuais e dos feminismos — funciona como o dado que mais rapidamente viraliza esses episódios, mas que também os torna, para quem os denuncia, um exemplo especialmente claro de que o critério por trás das restrições é ideológico antes de artístico ou de programação.

Lali Espósito e o presidente argentino Javier Milei: uma rusga que não vem de hoje

O pano de fundo dessas denúncias é um conflito público entre Javier Milei e Lali Espósito que remonta a agosto de 2023. Naquele mês, quando La Libertad Avanza se consagrou a força mais votada nas primárias argentinas, a cantora publicou nas redes sociais uma mensagem curta e crítica ao resultado: “que perigoso, que triste”. A partir daí, começou uma sequência de ataques por parte de apoiadores do então candidato — e, depois, do próprio presidente.

Já no poder, Milei passou a se referir a Lali publicamente com o apelido pejorativo “Lali Depósito”, a acusando de receber cachês em shows organizados com dinheiro público. Em diversas ocasiões, o presidente a chamou também de “parasita” e de “instrumento de propaganda política”, acusações que a cantora rebateu tanto em entrevistas quanto em canções, caso de “Fanático”, faixa de seu álbum No vayas a atender cuando el demonio llama, composta como resposta indireta aos ataques. Lali chegou a afirmar que, por um tempo, foi alvo do que descreveu como o “ódio” do próprio mandatario.

O embate se estendeu por atos públicos e disputas nas redes: Lali participou de manifestações críticas ao governo, como a Marcha do Orgulho Antifascista, e o próprio Milei voltou a mencioná-la em entrevistas e transmissões de streaming ao longo de 2024 e 2025. É nesse contexto de hostilidade declarada entre a artista e o chefe de Estado que as denúncias de veto a seu conteúdo na Rádio Nacional e na TV Pública ganham um sentido mais direto: para os denunciantes, o silenciamento dentro dos meios estatais seria uma extensão, pela via administrativa, de uma disputa que até então se travava apenas no campo discursivo.

Leia mais sobre o conflito entre Lali e Javier Milei.

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