Sor Juana Inés de la Cruz e María Luisa: o amor entre mulheres que atravessou os séculos em versos literários

No século XVII, na Nova Espanha, Sor Juana Inés de la Cruz escreveu dezenas de poemas dedicados a María Luisa Manrique de Lara y Gonzaga, esposa do vice-rei Antonio de la Cerda. Nos versos, a virreina aparece como Lisi ou Fílis, nomes associados à figura da mulher amada na tradição da poesia amorosa.

A relação entre as duas é conhecida para além da literatura. María Luisa era admiradora de Sor Juana, tornou-se sua mecenas e esteve ligada à circulação de sua obra na Espanha. Entre as duas houve proximidade, troca de presentes e retratos e uma relação intelectual que se desenvolveu durante o período em que María Luisa viveu na Nova Espanha.

O que não é possível determinar é a natureza exata desse vínculo.

Não há documentos que comprovem que Sor Juana e María Luisa tenham mantido uma relação amorosa ou sexual. Também não seria adequado aplicar diretamente à monja categorias de identidade sexual contemporâneas. O que existe são os poemas — e, neles, uma voz feminina que declara seu amor por outra mulher.

É essa combinação entre documentação histórica, convenção literária e ambiguidade que mantém a relação entre as duas no centro do interesse de leitores e pesquisadores.

Quem foi Sor Juana Inés de la Cruz?

Nascida em 1648, na Nova Espanha, Sor Juana Inés de la Cruz foi uma das principais escritoras e intelectuais do mundo hispânico do século XVII. Autodidata e conhecida por sua extraordinária dedicação aos estudos, escreveu poesia, teatro, prosa e textos religiosos em uma época em que o acesso das mulheres à educação formal era profundamente limitado. Ainda jovem, recusou o casamento como destino e escolheu ingressar na vida religiosa — primeiro no convento das Carmelitas Descalças e, depois, no Convento de San Jerónimo — onde encontrou condições para estudar e escrever.

A escolha não significava necessariamente uma rejeição à vida religiosa, mas também lhe permitia escapar das obrigações que o casamento impunha às mulheres de seu tempo e preservar uma relativa autonomia intelectual. Em seus textos, Sor Juana questionou repetidamente a desigualdade entre homens e mulheres, defendeu o direito feminino ao conhecimento e criticou a educação que restringia as mulheres ao espaço doméstico.

Por isso, embora o termo “feminista” pertença a um contexto histórico posterior, sua obra é frequentemente considerada precursora do pensamento feminista, especialmente pela defesa da educação e da capacidade intelectual das mulheres.

Uma mulher como objeto do amor

Nos poemas dedicados a María Luisa, porém, a pessoa amada é uma mulher. Em um dos versos, a escritora afirma:

“Yo adoro a Lisi, pero no pretendo
que Lisi corresponda mi fineza.”

Em outro momento, dirige-se à amada como:

“Divina Lysi mía…”

A linguagem é característica da tradição amorosa do período, marcada pela idealização e pela devoção à pessoa amada. Mas a escolha de uma mulher como destinatária desses versos também é um dos elementos que tornam a produção de Sor Juana particularmente significativa para leituras contemporâneas.

Essa questão aparece de maneira mais direta no Romance 19, dedicado a Fílis.

Ao longo do poema, a voz lírica descreve um amor que permanece mesmo diante da distância e de outros obstáculos. Em determinado momento, Sor Juana explicita a condição da própria voz que ama:

“Ser mujer, ni estar ausente,
no es de amarte impedimento;
pues sabes tú, que las almas
distancia ignoran y sexo.”

O trecho é um dos mais importantes para as interpretações contemporâneas da relação entre Sor Juana e María Luisa. A voz que declara seu amor é feminina e reconhece tanto a distância quanto o fato de ser mulher, mas afirma que nenhuma dessas condições impede o vínculo entre as almas.

O poema também associa o sentimento à tradição do amor cortês, na qual a pessoa amada ocupa uma posição superior. Fílis aparece como uma figura quase régia, capaz de dominar aqueles que a amam:

“cuya poderosa mano,
cuyo inevitable esfuerzo,
para dominar las almas
empuñó el hermoso cetro.”

Outro aspecto importante do poema é a forma como Sor Juana representa o desejo. O amor é descrito como intenso, mas não necessariamente como uma experiência física. Os desejos são transformados em uma oferenda espiritual, em um sentimento que permanece dentro do espaço da alma.

Essa característica aproxima o Romance 19 da tradição do amor cortês e ajuda a compreender por que a poesia de Sor Juana pode ser simultaneamente sensual e espiritualizada. A mesma concepção aparece no soneto 179, também dedicado a María Luisa, chamada de Lysi. Nos dois textos, o amor é apresentado como uma experiência que se distancia da satisfação física e se aproxima da idealização da pessoa amada.

Isso não significa, porém, que o desejo esteja ausente. No Romance 19, a voz poética reconhece a força desse sentimento e, ao final, pergunta:

“¿Puedo yo dejar de amarte,
si tan divina te advierto?”

A resposta vem na própria continuidade do poema: o amor não é algo que a voz lírica consiga simplesmente abandonar. Nos versos finais, a intensidade do sentimento chega à associação entre amor e morte:

“en fe que por ti muero.”

Quem era María Luisa

María Luisa chegou à Nova Espanha em 1680, acompanhando o marido, Antonio de la Cerda, nomeado vice-rei. Ela já conhecia a reputação de Sor Juana e se aproximou da escritora durante sua permanência na Cidade do México.

A relação aconteceu dentro dos círculos culturais da corte. María Luisa tinha posição social elevada e atuava como mecenas; Sor Juana, apesar de viver no Convento de San Jerónimo, mantinha uma intensa produção intelectual e relações com figuras importantes da sociedade colonial.

A virreina tornou-se uma das principais apoiadoras da escritora.

Quando María Luisa retornou à Espanha, levou consigo textos de Sor Juana. Em 1689, foi publicada em Madri Inundación castálida, coletânea que reuniu parte importante da produção da escritora e contribuiu para ampliar sua circulação no mundo hispânico.

O que os versos permitem dizer

O século XVII não utilizava as mesmas categorias de sexualidade e identidade que existem hoje. Relações entre mulheres podiam ser descritas em termos de amizade, devoção, intimidade ou patronagem, e essas categorias nem sempre dão conta da complexidade dos vínculos individuais. Principalmente porque relacionamentos entre mulheres eram proibidos, repudiados e pecaminosos, principalmente tratando de uma religiosa e uma nobre. Jamais a história da época permitiria registrar a natureza homossexual de sua relação, caso ela realmente tenha acontecido.

No caso de Sor Juana e María Luisa, a documentação permite afirmar apenas a proximidade. A poesia permite observar a intensidade com que Sor Juana representou essa mulher em sua obra.

O restante permanece em aberto.

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