A entrada da música em espanhol no Brasil

A popularização de novos hits de gêneros urbanos nos últimos cinco anos apresentou a um novo público a diversidade da música em espanhol no Brasil. Entretanto, é preciso lembrar que essa não foi a primeira vez que o país viu a entrada das canções de países vizinhos, embora o trabalho de se estabelecer no mercado nacional não seja tão fácil para artistas hispanos.

Entenda a cronologia desse intercâmbio cultural!

Música em espanhol no Brasil: como os artistas entram no mercado musical brasileiro?

Ainda que o Brasil esteja cercado por sete países hispânicos, a difusão de seus produtos culturais não chegou de forma massiva até o final dos anos 1980. Ainda assim, isso aconteceu porque, poucas décadas antes, houve uma latinização da música brasileira, introduzido, principalmente, pelos artistas da afrobaianidade e do MPB.

Os boleros e a afrobaianidade caribenha dos anos 1940 e 1950

Um dos primeiros indícios da influência da música de países hispanos no Brasil é o intercâmbio cultural que se deu a partir dos anos 1940. O bolero, apesar de ser um ritmo cubano, se popularizou em diversas partes do mundo por ser “música romântica mexicana”, embalada, principalmente, por Agustín Lara. 

Em 1947, o brasileiro Orlando Silva lançou uma versão de “Pecadora”, do mexicano — o que é, provavelmente, o primeiro indício de introdução desse gênero nas rádios brasileiras.

Nessa mesma década, porém, um outro movimento apareceu: o “jazz latino”, embalados pelo mambo e pelo cha cha cha, principalmente, que fazia sucesso na cena musical e teatral de Nova York, chegaram ao Brasil. 

Mais especificamente, a sonoridade caribenha chegou ao Centro Histórico de Salvador — local onde os cinemas de rua mostravam filmes norte-americanos que cada vez mais incorporavam em sua trilha sonora essa música. 

Outro ponto que permitiu esse intercâmbio cultural foi a atracação de navios da marinha dos EUA na cidade, que traziam consigo discos oriundos de Cuba e do México. Já nos anos 1950, carnavalescos prestavam atenção nessa onda musical caribenha e esses ritmos chegaram a agitar festas e casas de dança na capital baiana. 

Foi assim que, além do bolero e do jazz latino, houve a introdução do merengue, da rumba e da salsa para as casas de dança da região. Inclusive, esses ritmos ajudaram na formação musical de Salvador, influenciando na origem do axé.

Esse movimento de convergência entre ritmos negros entre vários países da América Latino é defendido pela sociologia com o nome Atlântico Negro. Isso porque, a população afro que chegou tanto no Brasil quanto no Caribe vieram por rotas atlânticas.

Aliás, essa fusão é algo sonoramente perceptível ao escutar alguns clássicos da música baiana dos anos 70 e 80. O cantor Gerônimo, por exemplo, é assumidamente grande fã dos ritmos caribenhos e sempre declarou a influência de artistas como Celia Cruz e Tito Puente em sua obra.

A latinização da MPB dos anos 1960 e 1970

Para entender como a latinidade virou algo recorrente na MPB, é preciso analisar o seguinte contexto histórico: com o final da Guerra Fria, os blocos dos Estados Unidos e da União Soviética disputavam pela dominância de pontos estratégicos — e um deles era a América Latina.

Inspirados por um sentimento pós-revolucionário de Cuba e pela ascensão de grandes nomes da literatura latino-americana, artistas da nova MPB comprometidos com “letras de protesto” passaram a se enxergar como parte desse cenário, principalmente após o estabelecimento das ditaduras militares na América Latina nas décadas de 1960 e 1970. Não à toa, em 1968, Caetano Veloso cantou aos quatro ventos “soy loco por ti, América”.

Isso se intensificou na década seguinte, quando três movimentos de grande importância se cruzaram musicalmente: a Tropicália brasileira, a Nueva Trueva cubana e o Nuevo Cancionero argentino. Juntos, eles formaram parte de um ideal maior — o da Nueva Canción Latinoamericana, que contava, também, com chilenos, uruguaios, mexicanos, entre outros. A ideia era resgatar as raízes musicais da região, valorizando a instrumentalidade e as narrativas indígenas e africanas.

A necessidade comum de exaltar identidades nacionais que fugiam do padrão estadunidense-europeu, junto às experiências compartilhadas de luta contra a ditadura e exílio aproximou esses artistas. Nesse contexto, a argentina Mercedes Sosa se tornou um dos nomes populares entre os brasileiros, chegando a cantar uma canção da chilena Violeta Parra com Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento.

Fazendo um pequeno salto temporal, a MPB continua a flertar com artistas hispânicos nos anos 2000. Apenas para citar alguns exemplos, enquanto Marisa Monte faz o dueto “Ilusión” com a mexicana Julieta Venegas em 2008, Paulinho Moska se junta ao uruguaio Jorge Drexler diversas vezes para cantar ao longo da década de 2010.

Os ídolos pop entre adolescentes dos anos 1980 e a música romântica

A virada da década trouxe consigo a volta da popularidade dos boleros e um grande marco para a música em espanhol no Brasil. Os gêneros românticos tiveram uma nova onda, sendo levada a várias partes do mundo, principalmente, pelo mexicano-porto riquenho Luis Miguel. 

Em 1983, com apenas 13 anos, o cantor vem ao Brasil pela primeira vez e se apresenta no Cassino do Chacrinha, cantando a versão em português “1+1 = 2 Enamorados”. A criação de músicas traduzidas ao nosso idioma passou a ser algo comum entre os artistas latinos que se aventuraram no mercado brasileiro desde então.

Não por acaso, no ano seguinte, entre os jovens surge a febre do Menudo. Apesar de criada em 1977, a boyband estourou nas rádios brasileiras em 1984 com o hit “Não Se Reprima”. A sua vinda promocional para aparição em programas de televisão nesse mesmo ano causou furor. 

O SBT teve uma função fundamental no processo de popularização do grupo, já que programas como o “Viva Noite”, apresentado por Gugu Liberato, divulgaram os garotos de Porto Rico massivamente.

O Menudo chegou a vender 1,5 milhões de cópias de discos no Brasil. Devido à popularidade, os empresários contrataram uma turnê para 1985. Com estádios lotados, os concertos em São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro somaram mais de 200 mil espectadores.

Além deles, outro caso de música em espanhol que se popularizou nessa década foi a romântica. Julio Iglesias, que já vinha acumulando sucesso desde a década anterior, também se tornou bastante conhecido no Brasil. Em 1989, por exemplo, gravou “Solamente Una Vez” com Roberto Carlos.

A explosão da música em espanhol no Brasil e as novelas da década de 1990 e início dos anos 2000

Além do efeito Menudo, o SBT percebeu que entre os telespectadores havia uma lacuna que poderia ser preenchida com mais fenômenos latino-americanos. O canal, que desde 1982, com “Os Ricos Também Choram”, começou a transmitir novelas mexicanas, intensificou a compra dessas obras no início dos anos 1990.

Além dos grandes sucessos infantis Carrossel e Luz Clarita, um fator determinante para o sucesso das novelas foi a exibição de Maria Mercedes, Marimar e Maria do Bairro, todas protagonizadas pela atriz e cantora Thalía. 

O “furacão mexicano” foi convidada para divulgar seu trabalho no Brasil inúmeras vezes, indo aos programas de auditório da Hebe e do Gugu. Inclusive, ela chegou a desfilar em 1998 com a escola de samba Imperatriz Leopoldinense.

A emissora também aproveitou para convocar e promover diversos artistas latinos em ascensão na época, como é o caso de Ricky Martin, ex-Menudo. Para contextualizar, nos anos 1990 ocorreu a chamada “explosão latina”, que levou a música em espanhol a se expandir no mundo — sendo o porto-riquenho um dos principais nomes da época. 

Percebendo esse movimento, a Rede Globo passou a inserir nas trilhas sonoras de suas novelas alguns dos principais sucessos em espanhol. Um marco nessa época foi a trama Salsa e Merengue, que tinha como abertura “María”, de Ricky Martin, e contava com outros hits, como “Donde Estás Corazón” de Shakira, “Sólo Se Vive Una Vez”  de Azucar Moreno, “Dáme” de Luis Miguel, “Solamente Tu Amor” de Chayanne e  “El Día En Que Me Quieras” de Julio Iglesias.

Outras canções que se tornaram populares no Brasil até meados dos anos 2000 por formarem parte da trilha de novelas da Globo foram “Corazón Partío” de Alejandro Sanz (Torre de Babel, 1998), “Vivir Sin Aire” de Maná (Mulheres Apaixonadas, 2003) e “Para Tu Amor” de Juanes (Páginas da Vida, 2006).

É nesse contexto que Shakira, por exemplo, se torna tão popular. Ela estourou no Brasil em 1995, quando lançou o seu primeiro disco, “Pies Descalzos”, nesse mesmo ano. Com uma turnê brasileira com mais de 30 datas, ela se estabelecer como “queridinha” do país.

Nos anos seguintes a cantora quase não saía daqui: teve roda de conversa no Programa Livre, entrevista na Hebe e diversas aparições no Domingo Legal, participação no H do Luciano Huck junto com a Tiazinha, samba no Jô,  e ela até foi na festa de aniversário da Ana Maria Braga. 

A era das bandas que saíram das novelas dos anos 2000 e início dos 2010

Novamente, o SBT aparece pautando os gostos musicais de jovens em todo o país. No início dos anos 2000, houve um investimento massivo em novelas infanto-juvenis. Devido ao enorme sucesso da versão brasileira de Chiquititas, a emissora percebeu que havia público jovem disposto a assistir e cantar junto com atores mirins.

Já no início do milênio, a grande aposta foi O Diário de Daniela e, nos anos seguintes, as tramas que animaram as tardes das crianças foram Cúmplices de Um Resgate, Carinha de Anjo, Maria Belém, Amy, a Menina da Mochila Azul, Alegrifes e Rabujos, entre outras. 

A situação mudou com a exibição de Rebelde, em 2005, versão mexicana de uma novela argentina que apresentou ótimos resultados. A grande aposta da novela foi o alto investimento na banda RBD, que acabou se tornando um grande fenômeno em diversas partes do mundo, principalmente no Brasil.

A banda fez uma turnê de estádios no país em 2006, passando por 12 capitais brasileiras para 13 shows — com um público total que chegou a quase duas milhões de pessoas, esta foi considerada a tour internacional mais exitosa até então.

O efeito RBD foi tão forte no Brasil que, mesmo anos depois do término da novela, a banda continuou fazendo um enorme sucesso no país, com constantes vindas e aparições nos programas do SBT. Inclusive, após a dissolução da banda, em 2008, o público brasileiro segue sendo fiel aos ex-integrantes, de modo que eles continuam fazendo shows com suas carreiras solo em diversas cidades.

Outra “artista de novela” que conquistou público foi Belinda, que fez Cúmplices de um Resgate e, anos depois, Camaleões, exibida em 2010 no SBT. Os seus segundo e terceiro discos, “Utopía” (2007) e “Carpe Diem” (2010), respectivamente, deixaram grandes sucessos  entre os fãs de música em espanhol no Brasil, como “Luz Sin Gravedad” e “Egoísta”, com participação de Pitbull. 

O canal também apostou algumas vezes em produções originais argentinas, exibindo a 6ª e a 8ª temporada de Chiquititas, em 2008, mas não obteve o sucesso esperado. A novela que conseguiu apresentar o mundo hispânico a novos públicos foi exibida pela Band em 2009: Isa TKM. A trama venezuelana gerou grande repercussão e a banda fez shows no Brasil entre os anos de 2010 e 2011.

Devido aos bons números de audiência — a Band chegou à vice-liderança, perdendo apenas para a Globo, que exibia o Jornal Nacional —, a emissora comprou outra novela que fazia bastante sucesso no exterior: a argentina Quase Anjos, que foi ao ar em 2010, assim que terminou a original da Venezuela.

O grupo da novela, os Teen Angels, nunca chegou a fazer uma tour no Brasil, mas os integrantes vieram para um pocket show e participação no programa da Raul Gil neste mesmo ano. 

A novela também deixou fãs fiéis o suficiente para começar a seguir a carreira solista de Lali, que começou em 2013. A cantora, em 2018, chegou a lançar uma parceria com Pabllo Vittar e participar de seu bloco no carnaval de 2019, em São Paulo e Salvador. Além disso, já cantou com Anitta e o funkeiro MC Lan afirmou que ambos têm uma música juntos para lançar.

Também sobre a Argentina, uma geração muito mais jovem também participou da introdução da música em espanhol no Brasil com a série Violetta, exibida na Disney de 2012 a 2015. O canal também é responsável pelo mais novo fenômeno infanto-juvenil latino, Soy Luna. 

Com o término de Violetta, a atriz principal, Tini, também se lançou como solista e chegou a fazer um concerto em São Paulo em 2017. 

A vez da música urbana, de meados dos anos 2000 até os dias de hoje

É inegável que o reggaeton foi se adentrando na indústria musical latino-americana e conseguiu produzir sucessos memoráveis desde a metade dos anos 2000. Apesar de ser extremamente popular nos países hispânicos, as únicas canções que, de fato, emplacaram no Brasil nessa época foram “Gasolina”, do Daddy Yankee (2004), e “La Tortura”, de Shakira e Alejandro Sanz (2005).

A virada da década trouxe consigo “Latinoamérica”, da banda porto-riquenha Calle 13, em parceria com a brasileira Maria Rita, a peruana Susana Baca e a colombiana Totó la Momposina. Apesar de não ser reggaeton, a canção tem características do gênero urbano. Com sua letra forte, ficou bastante popular entre o entusiastas de uma união latino-americana.

Em 2012, um grande hit que já havia gerado grande repercussão na América Latina é adaptado para ser a abertura da que foi a telenovela mais popular entre os brasileiros em toda a década: Avenida Brasil. “Danza Kuduro” de Don Omar acabou se tornando uma febre no país.

Porém, ritmo chegou oficialmente à playlist dos brasileiros em 2013 com “Bailando”, de Enrique Iglesias, que até ganhou um remix em português com Luan Santana. Depois, ele também emplacou “Duele El Corazón”, com Wisin, que se tornou trilha sonora da novela A Lei do Amor, em 2016.

O mercado do reggaeton começou a se tornar cada vez mais forte no exterior, com lançamentos que atraíram milhões de visualizações em pouquíssimas horas. Com esse sucesso, era impossível que o público geral brasileiro não percebesse esse movimento que já chegava a dominar os Estados Unidos. 

É nesse contexto que a brasileira Anitta aposta na música em espanhol: em 2016, participa do remix do sucesso “Ginza”, de J Balvin, e “Sim ou Não” com Maluma. Ambos cantores colombianos eram considerados os de maior projeção internacional na época.

Maluma recebia alto investimento da Sony Music: fez canções com Ricky Martin, Thalía e Shakira. Em 2018, chegou a fazer uma versão em espanhol do hit “Você Partiu Meu Coração”, de Nego do Borel. J Balvin ainda fez mais duas parcerias com Anitta, “Downtown” e “Machika”, também lançando um remix de “Bum Bum Tan Tan”, de MC Fioti.

Em 2017, o Brasil também participou da grande febre “Despacito”, de Luis Fonsi com Daddy Yankee, O clipe já se aproxima da impressionante marca de 7 bilhões de visualizações e favoreceu a vinda do cantor com sua tour ao Brasil no ano seguinte. 

Entre o público adolescente, o que gerou repercussão foi a recém-formada boyband latina CNCO, criada a partir do reality show La Banda e apadrinhada por Ricky Martin. Com algumas visitas promocionais em programas, como o da Fátima Bernardes, e para participar de festivais de música.

A música em espanhol no Brasil é um fenômeno ou possui um público já estabelecido?

Apesar da música em espanhol no Brasil passar por fases em que estão um pouco mais populares, a entrada de artistas ao mercado musical brasileiro é bastante complicado. 

A falta de investimento de gravadoras, assim como a existência de poucos de meios de divulgação que consigam levar a variedade de expressões musicais a um grande público — como é o caso do papel que a TV teve nos anos 1990 para a popularização da Shakira — faz com que muitos brasileiros não se interessem a explorar a música latino-americana.

Isso porque, ainda que a era da internet facilite a busca do trabalho de artistas que jamais seriam encontrados por vias tradicionais, ela também permite que os usuários se fechem em bolhas de gêneros que já são de seu gosto. 

É nesse contexto que o relatório do final de 2019 da plataforma de streaming Spotify mostra que top 10 artistas mais escutados no Brasil é formado apenas por brasileiros que cantam sertanejo ou funk, enquanto países como Colômbia, México e Argentina possuem um ranking muito similar, mostrando nomes como J Balvin, Maluma, Anuel AA, Ozuna e Bad Bunny. 

Apesar dos brasileiros aparentemente viverem em uma bolha musical em relação aos países vizinhos, isso não significa que o público para esses gêneros seja pequeno por aqui. Como você observou ao longo desse texto, desde os anos 1940 é possível encontrar vestígios da introdução de artistas que cantam em espanhol em nosso país. 

Assim, na próxima vez que você encontrar uma pessoa dizendo que a introdução da música em espanhol no Brasil é algo recente, compartilhe este post com ela. Aproveite e leia mais artigos aqui no Exclamación!

Aliás, esse foi o tema do nosso primeiro podcast. Escute e veja o que debatemos a respeito desse assunto!

Salve nossa playlist para curtir os hits latinos que fizeram sucesso no Brasil!

Autor: Isabela Guiaro

Jornalista e analista de conteúdo em marketing digital. Fiz pós-graduação em Globalização e Cultura e, durante o curso, desenvolvi pesquisas sobre identidade nacional e cultura latino-americana. Apaixonada pelo idioma espanhol desde os 5 anos de idade, meu objetivo é disseminar a cultura hispana no Brasil.

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