Guerra do Paraguai: o conflito que dizimou a população paraguaia

A Guerra do Paraguai foi o maior confronto armado na América Latina. Ocorreu entre Paraguai e a Tríplice Aliança, composta por Brasil, Uruguai e Argentina, de 1864 a 1870.

Esse combate matou 300 mil pessoas no Paraguai, entre soldados e civis, enquanto 70 mil soldados do lado da Tríplice Aliança morreram. O número de mortos no Paraguai representava mais da metade da população do país.

Para saber como aconteceu essa batalha e o porquê, leia o artigo a seguir!

Antecedentes da Guerra do Paraguai

Antes de explodir a luta no Paraguai, é necessário entender o que estava acontecendo nos países envolvidos na época. 

Os confrontos nos países da América do Sul, nesta fase, tinham muita relação com reivindicações territoriais. Todas as nações da região tiveram conflitos de fronteira persistentes com diversos vizinhos.

Antes de acontecer a Guerra do Paraguai, havia ocorrido a Guerra do Prata, uma disputa entre Argentina, Uruguai e Brasil, motivado pela influência do Paraguai e o predomínio na região do Rio do Prata. 

A guerra foi travada no Uruguai, Rio do Prata e nordeste argentino de agosto de 1851 a fevereiro de 1852, entre as forças da Confederação Argentina e as forças da aliança formada pelo Império do Brasil, Uruguai e províncias rebeldes argentinas de Entre Ríos e Corrientes.

Com o fim dessa guerra, o Brasil impôs ao Uruguai um tratado que dava direitos ao Brasil, como entrar em território uruguaio para procurar escravos fugidos, caso contrário o Uruguai tinha a obrigação de devolver esses escravizados.

Além disso, este tratado previa a possibilidade de intervenção militar brasileira em assuntos uruguaios. 

O Uruguai, por sua vez, vivia em constante conflito entre dois partidos: o “blanco”, partido nacional, e o “colorado”, partido de centro-esquerda. Em 1860, chega ao poder Bernardo Berro, do partido “blanco” e rasga esse tratado firmado entre Brasil e Uruguai.

Francisco Solano López, presidente do Paraguai na época, vendo uma possibilidade de obter mais terras, decide tornar-se aliado do Uruguai, já que o país uruguaio tinha um porto marítimo, que seria uma garantia para o Comércio Exterior do Paraguai.

Com isso, o Paraguai sai em defesa do Uruguai quanto a uma possível intervenção militar vinda do Brasil e Solano López afirma que caso houvesse uma intervenção militar no Uruguai, seria considerada uma ameaça à segurança do Paraguai.  

Logo depois, o Brasil mandou sua tropa para o Uruguai, em 1864, resultando na invasão e deposição do ditador uruguaio Atanasio Aguirre — Bernardo Berro já havia saído do governo antes dessa guerra entre Brasil e Uruguai —, colocando fim o governo do partido político “blanco”.

O Brasil consegue colocar Venâncio Flores, do grupo político “colorado” — tradicionalmente apoiado pelo Brasil —, para governar no lugar de Aguirre. 

Como forma de retaliação, Solano López ataca e sequestra o navio brasileiro Marquês de Olinda, que transportava o Presidente da província do Mato Grosso. 

E, como o Paraguai não tinha acesso ao mar, o presidente inicia o processo de busca pelo aumento do território no país. O objetivo era chegar ao Oceano Atlântico. 

Posteriormente, o Paraguai invade a cidade de Dourados, no Mato Grosso, em 1864, além de planejar inúmeras investidas em território argentino, resultando na invasão de Corrientes e a chegada a Mato Grosso do Sul.

A partir daí, é assinado o tratado da Tríplice Aliança, em 1º de maio de 1865. 

As batalhas na Guerra do Paraguai

No começo da guerra, o Paraguai contava com 60 mil homens, enquanto a Tríplice Aliança tinha 18 mil soldados. Porém, o Brasil inicia uma campanha de recrutamento, chamada de “Os voluntários da Pátria”, adquirindo muitos homens para a guerra.

O primeiro embate aconteceu em 11 de junho de 1865 e foi chamada de “a batalha naval do Riachuelo”. O confronto tem esse nome porque aconteceu às margens do arroio Riachuelo, um afluente do rio Paraná, na província de Corrientes, na Argentina.  

Nesse primeiro combate, o Paraguai planejou um ataque surpresa, entretanto os paraguaios cometeram alguns erros ao colocar o plano em prática: esqueceram de embarcar objetos essenciais, como cordas, ganchos e escadas. Mas o pior foi que um dos navios guaranis, o Iporá, teve problemas na hélice, e o ataque atrasou por três horas.

Ao invés de adiar a ideia para o dia seguinte, Solano López decidiu atacar mesmo com as falhas e consequentemente, não houve ataque surpresa. 

Os brasileiros viram os navios paraguaios chegando e resolveram atacar. Após algumas horas de intenso embate, mais de dois mil mortos do lado paraguaio foram contabilizados e quatro navios foram apreendidos.

A partir daí, os aliados passaram a controlar as águas da bacia do Rio da Prata até a entrada do Paraguai. 

Solano López, quando fica sabendo do resultado do conflito, proíbe que o resultado seja divulgado nos jornais do país, além de não permitir que a população chorasse a perda dos filhos. O presidente também decidiu fazer uma festa para manter o otimismo na guerra.

Francisco Solano López

Com a perda desse combate, o Paraguai fica cercado e isolado no mundo, já que não tem passagem para chegar à Europa pelo rio, além de não ter acesso a armamento e não contar mais com o comércio exterior. 

Algumas outras pequenas batalhas aconteceram, até que houve a Batalha do Tuiuti, maior confronto campal da América Latina, em 24 de maio de 1866. Essa luta foi a mais sangrenta de toda a Guerra do Paraguai, envolvendo mais de 55 mil homens.

O combate tem esse nome porque aconteceu em torno do lago Tuiuti, no Paraguai. Com uma duração de seis horas, o presidente do Paraguai estava confiante na vitória, por reunir o máximo de homens que pôde para o embate. 

Entretanto, Solano López havia se esquecido que o outro lado contava com um número de soldados maior do que o dele e que o tipo de terreno da batalha era propício às técnicas de defesa, em vez de se lançar ao ataque.  

Em contrapartida, o lado da Tríplice Aliança teve algumas dificuldades no começo da luta, por não possuir um comando definido, além de não conhecerem o terreno escolhido para o combate. 

Ao final, os países aliados venceram a batalha. Os paraguaios perderam cerca de seis mil homens e outros seis mil foram capturados e feridos. Do lado da Tríplice Aliança, quatro mil soldados morreram ou ficaram feridos. 

Depois desta batalha, as tropas aliadas conseguiram se estabelecer em território inimigo e Solano López nunca mais conseguiu reunir uma força semelhante para o combate.

Após essa derrota, o presidente do Paraguai tenta um acordo de paz com Bartolomé Mitre, governante da Argentina. Mas não houve acordo, já que o tratado da Tríplice Aliança previa a extinção completa do governo de López. 

Em 22 de setembro de 1826 acontece a Batalha do Curupaiti, às margens do rio Paraguai. Esse combate foi marcado pela maior derrota da Tríplice Aliança em toda a guerra, cujo confronto envolveu cerca de 25 mil soldados, sendo 20 mil soldados aliados e por volta de 20 navios da Armada Imperial contra 5 mil paraguaios entrincheirados.  

Foram aproximadamente dez mil mortos aliados, sendo cinco mil brasileiros e cinco mil argentinos.

Interesses da Inglaterra e Estados Unidos no conflito

Antes da Guerra, o Paraguai era uma potência econômica na América do Sul, sendo um país independente das nações europeias. O país paraguaio, inclusive, era um modelo de desenvolvimento nativo e único na bacia do Prata. 

Consequentemente, esse fato desagradou a Grã-Bretanha, que após a independência da América Latina tornou-se uma potência estrangeira dominante na região.

Com isso, usou seu poder econômico para coagir o Paraguai a pedir ajuda financeira aos ingleses, manipulou Brasil e Argentina para que entrasse em guerra com o país vizinho para destruir o modelo econômico do Paraguai.  

Assim, a Inglaterra ficou ao lado dos países da tríplice aliança, oferecendo apoio que ia desde emprestar dinheiro até ofertar apoio militar. Na época, era interessante para a Inglaterra enfraquecer o Paraguai, que era exemplo de sucesso e independência na América Latina. 

A Inglaterra foi o único país a lucrar com a Guerra do Paraguai: ampliou seus mercados na América, emprestou dinheiro para a reconstrução do Paraguai e para o Brasil, fazendo com que a dívida com o país inglês aumentasse.

Já os Estados Unidos, recém saídos da guerra civil, enviaram o diplomata Charles Ames Washburn, ministro residente dos Estados Unidos no Paraguai entre 1862 e 1868, estando assim presente no país durante os primeiros anos da Guerra da Tríplice Aliança, para expressar a neutralidade dos EUA em relação ao combate entre os países sul-americanos. 

Porém, sua posição neutra apresentava-se mais alinhada ao governo paraguaio. Isso porque, caso o Paraguai ficasse à mercê do país europeu, os estadunidenses temiam que o governo do país vizinho atendesse às demandas do velho continente em detrimento dos interesses norte-americanos.

Duque de Caxias assume o comando 

Duque de Caxias

Com o objetivo de criar um comando unificado sobre as forças brasileiras que operavam no Paraguai, o governo do Brasil escolheu Duque de Caxias para assumir o posto, em novembro de 1866.

Ao se deparar com a situação em que os soldados estavam no acampamento de Tuiuti — o exército praticamente paralisado e devastado por doenças, como a cólera —, Duque de Caxias treinou seus soldados, reequipou o exército com novos canhões, melhorou a qualidade do corpo de oficiais e atualizou o corpo de saúde e higiene geral das tropas, pondo fim às epidemias.

Caxias também insistiu em trazer novas tecnologias bélicas para as frentes de batalhas, como o uso de balões durante o conflito, por exemplo.   

Após oito meses desse trabalho, a tropa reiniciou a ofensiva com o objetivo de derrotar os paraguaios. Caxias, então, cercou a Fortaleza de Humaitá, principal centro de defesa de Assunção, capital do Paraguai. 

Para auxiliar no esforço de guerra, Caxias utilizou balões de observação para coletar informações das linhas inimigas. Com o 3º corpo pronto para o combate, o Exército Aliado iniciou sua marcha de flanco ao redor de Humaitá.

Em 24 de dezembro de 1868, Caxias enviou uma nota a Solano López pedindo a rendição, mas o presidente paraguaio recusou e fugiu para Cerro León. Ao lado dele estava o ministro-embaixador estadunidense, general Martin T. McMahon, que depois da guerra se tornou um ferrenho defensor da causa de López.

Ainda em dezembro, Duque de Caxias marchou até Assunção para travar uma série de batalhas. O episódio ficou conhecido como “As batalhas de Dezembrada”. Após vencer esses duelos, Caxias toma Assunção, que estava vazia por ordens de Solano López. 

A maior parte do exército de Caxias se instalou em Assunção, onde também chegaram quatro mil soldados argentinos e 200 uruguaios junto com cerca de 800 soldados e oficiais da Legião Paraguaia. 

A essa altura, Caxias adoeceu e renunciou ao cargo, partindo para Montevidéu. Para substituir Caxias, Dom Pedro II envia seu genro, o Conde D’Eu para comandar as tropas brasileiras. 

Negros escravizados usados como soldados

Um apontamento que é preciso ser feito é que o Brasil usou negros escravizados como soldados na guerra. 

Dom Pedro II sugeriu que fosse criada uma lei que permitisse a alforria dos escravos em troca de serviço militar. Os conselheiros reais discordavam do posicionamento do imperador. Eles acreditavam que as alforrias trariam liberdade para os escravos, além de fomentar fugas, movimentos pelas abolições e motivar sérios transtornos para a agricultura nacional. 

Mesmo assim, o decreto 3725/1866 foi aprovado em caráter emergencial, com a ressalva de pagar uma indenização aos proprietários dos escravos. 

A partir daí, cartas de alforria chegavam junto dos uniformes para os negros que estavam nas lavouras ou senzalas. Em janeiro de 1867, os primeiros libertos da guerra foram encaminhados para o Exército e a Marinha do Brasil.

O Corpo dos Zuavos da Bahia era um dos muitos batalhões formados exclusivamente por negros. Os comandantes dos Aliados admitiam que aqueles negros lutavam mais bravamente e com maior entusiasmo que muitos brancos, porque o objetivo deles era a liberdade. 

Entretanto, essa decisão de mandar escravos para o front não foi bem vista, já que o Brasil, um país escravagista, teve que recorrer aos escravos para lutar na guerra. 

Não há dados sobre o número de escravos usados nos conflitos, porém, acredita-se que eles eram a maior parte da tropa brasileira. 

Depois que os negros foram alistados ao Exército, tornava-se difícil para seus senhores retomarem a posse deles, visto que o governo estava desesperado por soldados.

Alguns dos recrutas anteriormente escravizados então se juntaram às comunidades livres compostas por afro-brasileiros e indígenas. 

Fim do confronto da Tríplice Aliança

Em 1869, aconteceu o último grande confronto: a batalha de Campo Grande, em 16 de agosto de 1869. Nessa fase, Solano López começou a recrutar até crianças menores de 12 anos para a guerra.

Cerca de seis mil paraguaios lutaram contra 20 mil da Tríplice Aliança durante aproximadamente oito horas. 

A Tríplice Aliança saiu vencedora deste confronto. Todos os feridos, sendo a maior parte do Paraguai, foram queimados vivos. Em homenagem a esses menores de idade, o dia 16 de agosto é marcado como o Dia das Crianças no Paraguai. 

Com Solano López em fuga, o país estava sem governo. D. Pedro II resolve enviar seu chanceler José Paranhos a Assunção, onde chegou em 20 de fevereiro de 1869 e iniciou consultas com os políticos locais. 

Paranhos teve que criar um governo provisório que pudesse assinar um acordo de paz e reconhecer a fronteira reivindicada pelo Brasil entre as duas nações.

A partir disso, começou uma caçada atrás de Solano López que durou mais de um ano. O ex-presidente foi encontrado em 1º de março de 1870. Ele é morto, mesmo contra as ordens do Imperador. 

Consequências da Guerra do Paraguai

As consequências da Guerra do Paraguai foram devastadoras para o país, isso porque 90% da população masculina maior de 20 anos estava morta.

Além disso, o país paraguaio ficou destruído sem agricultura e pecuária, sendo preciso importar arroz e feijão da Argentina. O conflito também deixou o país em situação de completa miséria tanto humana quanto economicamente. 

Outro efeito marcante foi a perda de território que o Paraguai reivindicava, que representava mais de 150 mil quilômetros quadrados, além de 25% das terras paraguaias. O Brasil incorporou áreas aos atuais estados do Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina, e a Argentina conseguiu anexar as atuais províncias de Formosa e Misiones.

Crédito: BBC News

O Brasil também resolveu ocupar o Paraguai por seis anos e exigiu uma indenização pela guerra, que não foi totalmente quitada e acabou sendo perdoada apenas em 1943, por Getúlio Vargas. 

Mais um resultado do combate foi que um novo governo pró-Brasil foi instalado em Assunção em 1869, enquanto o Paraguai permaneceu ocupado pelas forças brasileiras até 1876, quando a Argentina reconheceu formalmente a independência daquele país, garantindo sua soberania e deixando-o um Estado-tampão entre seus vizinhos maiores.

Soldados de todos os lados usavam erva-mate para diminuir a dor de fome e aliviar a ansiedade de combate. Grande parte dos 156.415 quilômetros quadrados perdidos pelo Paraguai para a Argentina e o Brasil era rico em erva-mate, então, no final do século XIX, o Brasil se tornou o maior produtor dessa cultura agrícola. 

Empresários estrangeiros entraram no mercado paraguaio e assumiram o controle do restante da produção e indústria de erva-mate.

Uma outra característica é a dependência comercial que o Paraguai nutre até hoje sobre o Brasil e Argentina. Todos os produtos que o Paraguai exporta são enviados ao Brasil.

Para saber outros assuntos relacionados à América Latina, continue lendo o Exclamación!

Autor: Beatriz Gouvêa

Jornalista de formação e amante da cultura hispana desde criança. Passo a maior parte do tempo escutando música em espanhol e amo tudo o que envolve o universo latino.

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