Ser diferente das outras “divas pop” foi o que fez a Shakira chegar onde chegou

Durante boa parte dos anos 2000, a indústria pop internacional funcionava a partir de uma lógica relativamente clara: artistas globais precisavam ser facilmente traduzíveis para o mercado norte-americano. Isso significava não apenas cantar em inglês, mas também incorporar uma estética, uma linguagem visual e uma forma de performance alinhadas ao que os Estados Unidos entendiam como mainstream. A consolidação da MTV como plataforma global, o domínio das grandes gravadoras multinacionais e a ascensão das turnês cada vez mais coreografadas ajudaram a estabelecer um modelo muito específico de estrela pop.

No centro desse processo estava o impacto comercial de Britney Spears. O sucesso de Britney no fim dos anos 1990 redefiniu as prioridades da indústria estadunidense, que passou boa parte da década seguinte tentando replicar um novo fenômeno em escala quase industrial. Gravadoras investiam continuamente em uma nova geração de cantoras jovens, majoritariamente loiras, altamente coreografadas e visualmente alinhadas a um ideal específico de pop comercial. A combinação entre refrões extremamente acessíveis, videoclipes de alto impacto, performances rigidamente ensaiadas e uma imagem cuidadosamente controlada se transformou em uma espécie de linguagem dominante do pop global daquele período.

A ascensão de Shakira ao mercado global aconteceu justamente dentro desse cenário, o que tornava sua presença particularmente incomum. É verdade que houve uma tentativa evidente de adequação estética durante sua transição para o mercado anglófono no início dos anos 2000: o cabelo ficou loiro, as roupas ficaram menores, os videoclipes passaram a dialogar mais diretamente com a linguagem visual da MTV e existia um esforço claro para posicioná-la dentro do circuito do pop internacional. Mas, mesmo passando por essa espécie de “lavagem” que a indústria frequentemente aplicava a artistas estrangeiras naquele período, Shakira ainda transmitia uma energia completamente diferente da das estrelas pop norte-americanas que dominavam o mercado.

Enquanto boa parte da indústria buscava replicar o modelo de cantoras, Shakira parecia partir de outra lógica. Ela não passava a imagem de uma performer que tentava imitar alguém, mas de uma artista latina com origem no rock alternativo que, por acaso, também sabia transformar sua dança em um elemento central de palco. Shakira era multifacética, era uma rockstar no corpo de uma mulher de cabelos loiros tingidos que encantava com seus quadris. Mesmo nos momentos em que sua imagem se aproximava visualmente do pop da época, existia nela algo muito menos controlado, muito menos plástico e muito mais ligado à ideia de identidade própria. Rebelde, talvez. Afinal, quantas outras artistas da época tentava se posicionar ao mundo com algo que soasse minimamente parecido a Whenever Wherever, com instrumentos andinos como charango e zampoña, ou a Objection, que é um tango-rock com batida afro? Que falava idiomas, escrevia as próprias letras e tocava múltiplos instrumentos?

É preciso lembrar que antes de entrar de vez no mercado anglófono com Laundry Service em 2001, Shakira já era uma figura consolidada na América Latina graças a discos como Pies Descalzos e Dónde Están los Ladrones?, trabalhos muito mais próximos do rock alternativo latino do que do pop que dominava o mainstream da virada do milênio. E, mesmo após sua internacionalização, essa identidade nunca desapareceu completamente. A adequação estética não foi suficiente para transformá-la em “mais uma” dentro do pop americano porque sua singularidade vinha menos da aparência e mais da maneira como ocupava o palco, construía suas músicas e performava sua própria latinidade com alma de roqueira. Muitas tentaram ser uma nova Britney Spears, mas ela foi no caminho contrário e criou uma marca não replicável em fórmulas. Nem mesmo que alguém quisesse, conseguiria transitar entre o mundo mainstream estadunidense, no latino, no rock, no pop, nos gêneros tradicionais e no universo árabe com tanta facilidade como ela.

Sua voz fugia do padrão técnico dominante no pop norte-americano: extremamente forte, marcante e inconfundível. Sua presença de palco também não tinha nada a ver com coreografias rigidamente sincronizadas que dominavam o entretenimento pop da época. Em vez de construir performances baseadas em alinhamento coletivo e precisão mecânica, Shakira apostava em uma movimentação muito mais intuitiva e individual, marcada pela dança do ventre, pela improvisação corporal e por referências multiculturais que misturavam rock, pop latino, folk andino, ritmos árabes e cumbia.

E foi isso o que funcionou para ela.

Shakira dificilmente teria espaço se tentasse competir nos mesmos termos das artistas norte-americanas. Ela não era estadunidense, ainda estava aprendendo inglês e carregava marcas culturais que a tornavam muito mais “difícil” de encaixar dentro do padrão dominante da época. Do ponto de vista da indústria, seria muito mais simples apostar em artistas locais que já correspondiam naturalmente àquela estética e àquela lógica de performance, e foram treinadas desde pequenas a terem essa visão de mundo.

É possível perceber, inclusive, como a própria indústria norte-americana parecia tratá-la com uma mistura de curiosidade e fascínio justamente por ela soar tão diferente das artistas que dominavam o pop naquele período. O evento de lançamento de Laundry Service no Roseland Ballroom, em 2001, ajuda a ilustrar isso com clareza: existia uma percepção muito evidente de que a indústria estava diante de uma artista capaz de ocupar um espaço novo dentro do mercado internacional.

A aposta acabou funcionando em escala gigantesca. Laundry Service vendeu milhões de cópias ao redor do mundo e transformou Shakira em uma figura central do pop global dos anos 2000. Mais importante do que o sucesso comercial em si, porém, foi a velocidade com que ela passou a circular dentro do circuito considerado “prestigiado” da indústria norte-americana. Em poucos anos, Shakira deixou de ser apresentada como uma curiosidade latina para ocupar espaços historicamente reservados à elite do pop internacional: capas de revistas como a Rolling Stone, presença constante em premiações da MTV, performances no Grammy Awards e uma sequência de hits que conseguiram atravessar mercados muito diferentes e turnês realmente mundiais sem que ela precisasse abandonar completamente sua identidade artística.

Shakira ficou famosa com uma voz marcante, usando calças de couro, pés descalços, fazendo movimentos mais orgânicos no palco, tocando guitarra e dominando a dança do ventre. E é por isso que as pessoas gostam dela. Exigir que ela seja diferente é pedir que ela seja uma artista comlpetamente diferente.

Essa condição híbrida sempre esteve no centro da identidade artística de Shakira e talvez ajude a explicar a reação particularmente dividida em torno de sua apresentação recente em Copacabana. Grande parte das críticas ao show parece menos ligada a erros específicos e mais a falta de conhecimento da obra de uma artista somada à expectativa muito clara sobre o que uma artista de estádio deveria entregar hoje: um espetáculo altamente teatralizado, visualmente monumental e organizado a partir de um fio narrativo rígido, nos moldes das grandes turnês pop norte-americanas contemporâneas.

Existe atualmente uma ideia que vem sendo consolidada de que mega shows precisam funcionar quase como experiências cinematográficas, com blocos visuais perfeitamente conectados, direção estética extremamente calculada e uma sensação constante de progressão dramática. É um modelo de espetáculo fortemente associado ao pop estadunidense das últimas duas décadas, especialmente a artistas como Beyoncé, Lady Gaga e Taylor Swift, cujas turnês frequentemente estão mais próximas de uma narrativa teatral do que de um concerto musical tradicional.

O problema é que Shakira nunca construiu sua linguagem artística a partir dessa lógica ou da estrutura ao redor dela. É por isso que, historicamente, seus shows conseguiram funcionar mesmo com estruturas muito mais simples. Porque o elemento mais interessante nunca foi o palco em si, mas a relação extremamente particular que ela estabelece com o próprio corpo. Poucas artistas pop construíram uma presença de palco tão baseada na fisicalidade quanto Shakira, que usa seus movimentos como a expressão quase visceral da sua voz. Isso produz uma sensação de espontaneidade rara dentro do pop de estádio contemporâneo, especialmente em uma era em que tantas performances parecem milimetricamente controladas para funcionar como grandes peças audiovisuais. E, certamente, uma quebra de expectativas para quem esperava “mais uma diva pop”.

E talvez seja justamente aí que a discussão sobre Shakira fique mais interessante — e mais desconfortável. Porque, em algum momento, parece que começamos a exigir que ela se transformasse em um tipo de artista que nunca foi. Não que shows teatrais não sejam ótimos, mas exigir isso de alguém como ela seria remover sua própria essência artística.

Isso é particularmente curioso em um momento histórico em que existe um discurso recorrente sobre a valorização da latinidade dentro da música global. O sucesso recente de artistas latinos, a expansão do reggaeton, a força comercial da música em espanhol e a presença cada vez maior de artistas latino-americanos no mercado internacional costumam ser apresentados como sinais de uma descentralização cultural do pop. Mas a reação a Shakira parece sugerir que essa abertura talvez tenha limites muito claros.

Então, a pergunta mais incômoda pode ser justamente essa: até que ponto o mundo realmente passou a valorizar outras formas de performance e espetáculo — e até que ponto apenas ampliou o espaço para artistas latinos desde que eles consigam se adaptar aos parâmetros performáticos estabelecidos pelos Estados Unidos? A latinidade pode até ser celebrada enquanto identidade cultural, mas ainda parece existir dificuldade em aceitar plenamente linguagens artísticas que não reproduzam o modelo de grandiosidade criado por Hollywood e pelo pop norte-americano contemporâneo.

Porque o caso de Shakira evidencia uma contradição importante: as mesmas características que a tornaram famosa começam a ser lidas por parte do público quase como sinais de insuficiência. Cantar pop, rock, salsa, merengue, reggaetón, afrobeat e cumbia em vários idiomas e dançar diferentes estilos no mesmo concerto não é grande o suficiente se isso não vier acompanhado de uma estrutura megalomaníaca que foi instituída pela indústria.

No fim, talvez a questão central não seja se Shakira deveria fazer shows maiores, mais organizados ou mais cinematográficos. A questão talvez seja outra: por que ainda parece tão difícil aceitar que uma artista global possa construir grandiosidade a partir de uma lógica diferente daquela estabelecida pelos Estados Unidos?

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