“Autopoiética” de Mon Laferte é o álbum mais ousado dos últimos tempos

O ano de 2023 trouxe uma revolução sonora nas mãos de Mon Laferte, uma das artistas mais versáteis e talentosas da América Latina. Seu nono álbum de estúdio, Autopoiética, é uma obra que desafia categorizações, rompendo barreiras de gênero e estilo; um manifesto sonoro que captura a essência da constante transformação da artista. Em um universo onde a música muitas vezes se conforma a fórmulas previsíveis, a chilena Mon Laferte nos presenteia com uma obra inovadora, diversa e emocionalmente impactante, que merece ser reconhecida.

O título do álbum, Autopoiética, é inspirado no conceito de autopoiese, criado por dois biólogos chilenos, que descreve a capacidade dos organismos de se auto-recriar e regenerar. Essa metáfora é perfeita para explicar a trajetória de Mon Laferte, que sempre demonstrou uma habilidade incomum de se reinventar, tanto artisticamente quanto pessoalmente. Neste álbum, vemos uma mulher que explora sua própria metamorfose, não apenas como cantora, mas como mulher, mãe e artista.

A premissa do álbum é que estamos em constante transformação, e que, assim como células que se renovam, também podemos nos recriar em nossas vidas cotidianas. A cantora explora essa ideia profundamente ao longo das faixas, oferecendo um som futurista que desafia as expectativas dos ouvintes, levando-nos por uma jornada de autoconhecimento e aceitação.

A faixa que abre o álbum, “Tenochtitlán” estabelece um trip-hop com tom intenso, trazendo uma sonoridade que combina sintetizadores pesados, remetendo a um ambiente sombrio e ritualístico — algo que ela própria trouxe no videoclipe da música. Utilizando autotune, não como um efeito artificial, mas como um elemento de distorção intencional, a cantora cria uma sensação quase alucinatória, refletindo a sensação de deslocamento e os desafios de se estabelecer em terras estrangeiras.

Afinal, ao ambientar a música sob o céu de Tenochtitlán, Mon Laferte traz à tona suas primeiras impressões relacionadas ao início de sua carreira: a chilena se mudou para a Cidade do México para tentar a sorte no mundo da música. Com isso, a letra carrega um forte tom de denúncia e resistência. Ao expor insultos e preconceitos, a canção dá voz a mulheres que enfrentam críticas e julgamentos por sua origem e profissão, especialmente como artistas imigrantes. “Quanto custou? Com quem ela transou? Se ela é uma puta ‘sudaca’ do terceiro mundo”.

A referência ao “cuánto le meten” questiona o valor que a sociedade atribui às mulheres, como se sua dignidade estivesse à venda. É uma provocação poderosa contra os estereótipos que reduzem e objetificam, enquanto, ao mesmo tempo, Mon Laferte afirma sua identidade com orgulho e determinação. 

Na segunda faixa do álbum, Mon Laferte explora o ritmo da cumbia rebaixada, utilizando distorção vocal para criar uma atmosfera emocionalmente densa. “Te juro que volveré” apresenta um contraste entre a energia festiva da cumbia e a melancolia de uma letra que carrega o peso de promessas não cumpridas. A narrativa aborda a trajetória de uma jovem imigrante que, após anos de luta e dificuldades em outro país, conquista seu tão almejado sucesso, mas não a tempo de compartilhar essa vitória com sua mãe, a quem havia prometido um reencontro.

A canção se torna um desabafo íntimo sobre perda e arrependimento, com Mon Laferte refletindo sobre o sentimento de culpa e a dor de não ter cumprido sua promessa de retorno antes que fosse tarde demais. O refrão repetido, “Volveré”, então, acaba enfatizando a angústia de querer voltar e reparar o passado, mesmo sabendo que certos momentos já se foram para sempre.

A escolha de uma cumbia, um ritmo tradicionalmente associado à celebração, torna-se aqui uma ferramenta poderosa para subverter expectativas e comunicar uma sensação de luto. A distorção da voz amplifica o tom introspectivo da faixa, transformando o ritmo alegre em um espaço de dor e reflexão.

“Préndele fuego” se destaca como uma faixa que mistura sensações de desejo e intensidade emocional, mergulhando no caos e na paixão. A produção minimalista cria um clima denso e envolvente, onde cada detalhe sonoro é cuidadosamente escolhido para intensificar a experiência. A influência da bossa nova brasileira, com seu toque clássico das décadas de 60 e 70, é evidente não só nesta faixa, mas também em outras de seu repertório, como “Que Sí” de La Trenza (2017) e “Canción Feliz” de Seis (2021). 

A letra de “Préndele fuego” complementa essa atmosfera de tensão e paixão, misturando promessas ardentes, lembranças de momentos caóticos e uma sensualidade que transborda. O tema da perda e do desejo de reconquistar algo perdido se entrelaça com o ritmo envolvente, tornando a faixa uma experiência única que te surpreende a cada “lembrança” que a cantora traz de situações vividas com o seu amado.

Mon Laferte entrega um dos momentos mais ousados de Autopoética com “No+Sad”, mergulhando no neoperreo, um subgênero do reggaeton que combina batidas agressivas com um uso pesado de sintetizadores distorcidos, criando uma atmosfera de provocação e crítica. Nesta faixa, a cantora faz uma sátira direta aos críticos e aos julgamentos que recebe nas redes sociais, usando humor ácido para expor as críticas superficiais e muitas vezes cruéis que circulam na internet. A letra brinca com estereótipos e críticas direcionadas a ela, como “feminazi”, “demoniaca”, e “capitalista”, ao mesmo tempo em que revela o cansaço da artista diante dessas expectativas e rótulos impostos.

Ao lado da agressividade sonora e da distorção dos sintetizadores, Mon Laferte também faz uma referência à sua jornada artística. “Que tu falta’e querer/ Ya pasó esa güeá/Ya no voy a estar sad” (Que “Tu Falta de Querer”/ Já passou essa bobagem / Já não estarei triste) é uma alusão ao hit que a deixou famosa em 2015, “Tu Falta de Querer”, que é conhecido como um hino depressivo de término de relacionamento.

O neoperreo, uma evolução do reggaeton com influência de estilos como trap e música eletrônica, é caracterizado por seu som crudo e experimental. A inclusão desse estilo no álbum de Mon Laferte não é apenas uma mudança estética, mas também um movimento consciente para explorar a cultura digital, onde a ideia de ser “cancelado” é um tema recorrente e amplamente discutido. A repetição da frase “ya no voy a estar sad” (não vou mais estar triste) é uma afirmação de empoderamento, uma resposta à pressão externa e à maneira como ela foi tratada pelas normas sociais e pela indústria da música.

Em “Metamorfosis”, Mon Laferte mistura salsa e merengue com elementos eletrônicos, criando uma faixa alegre, dançante e vibrante. No entanto, o destaque está no uso de glitch pop no final da canção, onde a artista explora distorções e falhas digitais como um reflexo da metamorfose contínua que ela defende. 

Essa abordagem sonora não apenas traz uma nova camada de profundidade à música, mas também é uma metáfora sonora para o conceito de autotransformação presente em todo o álbum Autopoética. O glitch pop, ao inserir cortes abruptos, ruídos digitais e distorções, além de letras faladas, contrasta com a suavidade das melodias latinas e cria uma tensão que simboliza o processo de mudança e evolução. A letra também é uma homenagem ao seu sobrinho trans.

A faixa que dá nome ao álbum, é um exemplo de como a artista se desafia a criar uma eletrônica crua e experimental, completamente descompromissada com os padrões convencionais de produção. A música não dá descanso ao ouvinte, com uma energia constante e pulsante que é mantida do início ao fim, com um toque de agressividade e uma abordagem altamente processada.

A letra repetitiva e quase mantra (“Autopoiética, hegemónica, autónoma, ibuprofénica”) é minimalista, com a palavra “autopoiética” sendo repetida várias vezes, como um reflexo da própria ideia de auto sustentação, de um sistema que se cria a partir de si mesmo. 

No entanto, o foco real da música está no instrumental e na produção, que se destacam pela sua crueza e experimentação. Sua voz é sussurrada, distorcida, reverberada e, em alguns momentos, quase se dissolve em um mar de efeitos eletrônicos, o que a torna uma extensão da própria produção. Ao contrário de suas outras faixas mais melódicas, aqui a voz não é um ponto central de lirismo, mas sim parte de um conjunto mais amplo de texturas sonoras.

“Block 16” é um interlude que chega para marcar uma segunda parte do álbum. Os 46 segundos orquestrais trazem tons baixos, obscuros e que trazem uma sensação de mistério, e até mesmo um pouco de receio. 

Realmente, a atmosfera a partir daqui muda bastante. Enquanto, até agora, havíamos visto sons agressivos, experimentais, e que traziam autoafirmações em diversos aspectos da vida, o que veremos na próxima etapa é diferente.

Em “Levítico 20:9”, Mon Laferte usa as sonoridades da ranchera e do bolero para abordar uma das passagens mais cruéis e opressivas da Bíblia: Levítico 20:9, que prega a pena de morte por apedrejamento aos filhos desobedientes e adúlteros. A música, que começa com uma balada romântica e vai ganhando força gradualmente, se constrói em uma melodia única que mistura elementos da música tradicional mexicana com influências mais modernas, criando uma tensão entre o tema religioso e os acordes fortes de violão característico das rancheras. Instrumentalmente, a música termina com mais experimentos com autotune e batidas criadas por meio de distorções.

A letra é uma reflexão sobre o sofrimento e a culpa, explorando a dor de uma pessoa que se vê marcada pelo pecado e pela condenação, como sugere a citação do versículo bíblico: “El que maldiga a su padre o a su madre morirá / ¡Porque naciste en pecado!” A canção começa com a confissão de um amor que se considera errado ou pecaminoso: “Dios ya sabe tu nombre, yo no quiero / Que cuando mires al cielo, veas al diablo”. A frase “Corazón maldito”, então, acaba se repetindo ao longo da canção, simbolizando a luta interna do eu lírico, que questiona a própria natureza do amor e o castigo divino.

Seguindo para “40 y MM”, vemos novamente o trip-hop, mas que dessa vez se compromete em refletir sua autossuficiência, o amadurecimento e a reinvenção de sua própria persona, em especial, como mãe e mulher empoderada. Há um pouco de bolero, um pouco de rap… E, como já vimos várias vezes no disco, a canção termina indo para outro caminho perto do final. Nesse caso, a música se transforma em uma salsa oitentista — o que transmite uma sensação de realização em relação a essa autopercepção atual da cantora.

É muito interessante ver Mon Laferte colocar para fora as palavras “tenho quarenta anos e ninguém morre de amor”. Principalmente porque analisando sua trajetória nos últimos 10 anos, a vimos cantando sobre diferentes estágios do amor sofrido: a depressão, o choro, o lamento, o término, os pensamentos suicidas… Chegar à conclusão de que ninguém morre por causa de uma decepção amorosa é algo que leva tempo, mas, felizmente, acontece.

Com “Pornocracia”, Mon Laferte mergulha em uma das facetas mais intensas de sua música, explorando o desejo físico e emocional de maneira crua e provocante. A canção, que mistura bolero moderno com influências da música clássica e referências literárias, transmite uma sensualidade palpável, onde a sedução é tanto verbal quanto musical. A performance vocal de Laferte é um destaque, cheia de nuances que exploram as profundezas da paixão, das inseguranças e das fantasias.

A letra é um jogo de provocações e perguntas, com Laferte desafiando o ouvinte a refletir sobre a intensidade de um relacionamento amoroso e físico. “¿Quién te va a esperar de piernas abiertas pidiéndote más?” e “Dime, ¿quién va a llenarte las noches?” são perguntas diretas, mas repletas de significado, insinuando que a cantora possui algo único e irrecuperável, algo que vai além do mero prazer físico. Ela desafia seu parceiro a comparar o que ela oferece com o que os outros podem proporcionar, e a resposta parece ser sempre a mesma: ninguém mais pode dar o que ela dá.

Há um contraste interessante entre a doçura do bolero e a agressividade das palavras, criando uma atmosfera de desejo selvagem e incontrolável. Enquanto o instrumental romântico e sensual característico do gênero toca, ela pergunta, em italiano: quem te dará o seu sexo feroz? O uso desse outro idioma, inclusive, traz um tom de sofisticação para a música que a eleva para outro patamar. Em outras palavras — e com perdão pelo linguajar —, putaria chique.

“Amantes Suicidas” é uma das canções mais introspectivas e reveladoras do álbum de Mon Laferte. A faixa mergulha na temática da solidão e na transformação emocional da artista, refletindo sobre o crescimento pessoal e a capacidade de se sentir bem consigo mesma, mesmo na ausência de um parceiro. A letra, envolta em um son cubano clássico, toca na complexidade dos relacionamentos, nas decepções e nas lições dolorosas aprendidas ao longo do tempo.

Essa transição da dependência emocional para a independência é uma mensagem poderosa que a chilena compartilha com seus ouvintes — e se conecta com outros temas que ela já havia abordado em faixas anteriores. A solidão, agora, é vista como um lugar de força e autossuficiência. A música, com sua melodia suave e rítmica, oferece uma sensação de libertação e tranquilidade, enquanto as palavras falam de aceitação, crescimento e a superação das ilusões românticas.

A cantora encaixa mais um interlude, “Artículo 123”, que traz um neotango — características clássicas do gênero argentino, porém com sons e batidas mais eletrônicas. 

Depois, chegamos a uma faixa em “espanglês”, “Mew Shiny”, que mistura elementos pop industrial com elementos melancólicos de baladas de rock alternativo, principalmente por conta do solo de guitarra que se torna protagonista no meio da canção. A canção se desenrola como uma exploração sonora da vulnerabilidade emocional e do isolamento que surge do amor não correspondido ou desconectado.

A produção da faixa, com sua batida eletrônica, sons sintéticos e uma atmosfera etérea, cria uma sensação de distanciamento, refletindo a agitação interna e o afastamento emocional que ela expressa. Esse minimalismo é combinado com sua performance vocal, que soa ao mesmo tempo frágil e desesperada, à medida que ela navega por seus sentimentos de desejo e abandono. A repetição de “I am here” (Eu estou aqui), inclusive, ao longo da faixa, se torna um mantra de afirmação, um pedido para ser vista e ouvida, mas que parece quase fútil, já que o parceiro continua indiferente. 

Para concluir seu álbum com uma explosão de ousadia, Laferte traz uma faixa que, de maneira inesperada, combina a suavidade acústica com a energia eletrônica. Em “Casta Diva”, a cantora cria um híbrido único de ópera e reggaeton, incorporando um sample da icônica ária “Casta Diva” do italiano Vincenzo Bellini, retirada de sua ópera Norma, de 1831. 

A história, ambientada na Gália antiga, conta a história da sacerdotisa Norma, que lidera uma revolta contra os romanos, mas é traída pelo amante, o procônsul Pollione, que a abandona por outra sacerdotisa, Adalgisa. Norma, consumida pelo amor e pela vingança, decide sacrificar sua própria vida para proteger seus filhos e a honra de seu povo. No final, ela e Pollione se enfrentam diante dos druidas, escolhendo morrer juntos na pira, encerrando a tragédia com um sacrifício coletivo.

Este elemento clássico se mistura com autotune e batidas de dembow, criando uma sonoridade dramática que sintetiza perfeitamente a essência experimental e inovadora do álbum.

Curiosamente, assim como a ópera, o nome de Mon Laferte é Norma — a cantora foi registrada como Norma Monserrat Bustamante Laferte.

“Autopoiética” tem uma mensagem com início, meio e fim sobre transformação, amadurecimento e autoconhecimento por meio de experimentação musical. Afinal, nada pode refletir melhor a essência de um indivíduo do que um conjunto de sons que parecem não fazer sentido juntos mas que, no fundo, têm uma conexão. É isso o que nos torna humanos, afinal de contas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *