Toda geração constrói sua própria forma de se relacionar com a música, não é apenas no que escuta, mas também quando se fala do papel que ela ocupa: pertencimento, expressão, compartilhamento e socialização. Ao longo do tempo, podemos ver que os gêneros mudam, os ídolos mudam, mas essa função permanece.
Entre os jovens de hoje, essa relação se organiza a partir de um repertório que parece, à primeira vista, comum. Há sons que se repetem, referências que circulam com facilidade, virais que estão em todas partes e uma sensação de sintonia entre diferentes países da região. Mas nenhuma geração escuta de forma totalmente homogênea.
É nesse ponto que está a chave da análise: o que realmente escutam os jovens latino-americanos?
Panorama geral
A música hoje é consumida majoritariamente via streaming, com forte integração com redes sociais. Plataformas como o TikTok passaram a desempenhar papel central na descoberta musical, funcionando como porta de entrada para faixas que depois migram para o Spotify e outras plataformas. Isso altera o fluxo tradicional da indústria e acelera a circulação de músicas entre diferentes públicos e países.
Isso significa que playlists, recomendações automáticas e feeds de redes sociais substituíram os antigos mediadores, como rádio e TV. Então, o que ganha visibilidade não depende mais apenas de lançamentos ou campanhas, mas da capacidade de uma música se encaixar nesses sistemas de recomendação.
Colômbia
Dados divulgados pelo Spotify ao longo de 2025, com base em informações internas da plataforma e em um estudo realizado em parceria com a Mindshare, indicam que o consumo musical entre jovens na Colômbia passa por um momento de expansão local. Segundo o levantamento, 8 em cada 10 jovens escutam ao menos uma música de artistas colombianos por dia, enquanto os streams de repertório nacional cresceram mais de 350% nos últimos três anos entre usuários mais jovens.
No mesmo período, artistas colombianos foram ouvidos pela primeira vez mais de 678 milhões de vezes por usuários menores de 28 anos, um dado que aponta para a renovação constante da base de ouvintes e para a circulação ativa de novos nomes dentro da plataforma.
Além disso, a preferência por música nacional aparece como um dos principais vetores do mercado jovem colombiano, o que pode nos levar a entender que a distribuição digital ampliou o alcance da produção local. A Colômbia também se mantém como um dos mercados relevantes da região dentro do Spotify, com cerca de 9 milhões de usuários e aproximadamente 20% da população utilizando a plataforma para ouvir música. Dentro desse universo, o público entre 18 e 34 anos concentra a maior parte da audiência, alinhando o país a uma tendência global de consumo jovem.
Os dados mais recentes, com recorte para o último trimestre de 2025, mostram que o público jovem não se concentra em um único gênero. A expansão acontece em múltiplas frentes, com destaque para:
- Afrobeat latino: crescimento superior a 4.000% nos streams
- Champeta: aumento acima de 1.000%
- Vallenato: crescimento superior a 500%
- Música popular: alta de mais de 400%
O avanço do afrobeat latino é particularmente relevante. O gênero aparece como o mais consumido entre jovens, indicando uma mudança no padrão dominante dentro do país. Ao mesmo tempo, o crescimento de estilos tradicionais como vallenato e música popular mostra que o consumo se organiza por sobreposição de repertórios.
Além disso, entre os nomes mais ouvidos, alguns artistas operam em escala contínua dentro do streaming:
- Beéle registra mais de 5.000 reproduções por hora no país
- Kapo ultrapassa 2.800 streams por hora
- Luis Alfonso mantém cerca de 1.600 reproduções por hora
- Luister La Voz supera 1.000 streams por hora
México
Os dados de consumo indicam que a música mexicana atravessa um ciclo de expansão consistente dentro do streaming global. O crescimento de 56% nas reproduções em um ano, segundo dados de 2022 do Spotify, e o volume que supera 5,6 bilhões de streams desde 2019 expõem um aumento sustentado de audiência e uma ampliação da presença do gênero regional até mesmo fora do seu mercado de origem. Mas, no México, a força interna também é evidente: um em cada quatro streams pertence ao repertório local.
Parte desse crescimento está associada ao aumento das colaborações. Nos últimos dois anos, artistas mexicanos participaram de cerca de 31 mil parcerias com nomes de outros gêneros e mercados. Esse movimento amplia a circulação do repertório e facilita a entrada em novas audiências.
A lógica dessas colaborações segue um padrão claro, trazendo integração de elementos do reggaeton, trap e pop latino com estruturas tradicionais da música mexicana, uma vez que o uso de requintos, guitarras acústicas e instrumentos de banda dentro de produções com estética urbana amplia a compatibilidade do gênero com playlists globais.
O crescimento também está ligado à transformação estética do gênero. Artistas mais jovens reformulam estilos como corridos, sierreño e banda, incorporando elementos do trap e do hip-hop, e estilos como os corridos tumbados exemplificam esse processo ao combinar estruturas tradicionais com beats mais densos e linhas de baixo marcadas. Já o sad sierreño trabalha uma abordagem mais melódica, com foco emocional direto. Em ambos os casos, há uma adaptação ao consumo da geração mais jovem.
Esse público tem papel central na expansão. A predominância de ouvintes abaixo dos 30 anos, inclusive, indica uma mudança no vetor de transmissão cultural: o repertório não é mais algo que foi herdado e passa a ser redefinido dentro do consumo digital.
Paralelamente, o reggaeton mexa se consolida como outro vetor de crescimento entre os jovens do país. Segundo o Spotify, o gênero, que mistura influências do reggaeton porto-riquenho, do dembow dominicano e da cultura sonidera da Cidade do México, registrou crescimento superior a 1.100% na plataforma em cinco anos.
Diferente de uma simples adaptação, o reggaeton mexa funciona mais como uma linguagem local, e o uso de gírias, referências de bairro e uma estética diretamente ligada à vida urbana mexicana cria uma identificação imediata com o público jovem. Mais da metade dos ouvintes do gênero, inclusive, tem menos de 24 anos.
Argentina
Na Argentina, os dados mais recentes de consumo musical apontam menos para uma ruptura geracional e mais para uma continuidade. Mesmo inserido em um cenário latino-hispânico dominado por gêneros urbanos, o país mantém o rock nacional como um dos principais eixos de escuta entre jovens.
Segundo dados divulgados pelo Spotify em 2025, 55% dos usuários da Geração Z no país ouviram rock argentino ao longo do ano, enquanto o gênero registrou crescimento de aproximadamente 90% nos streams nos últimos cinco anos. O aumento acompanha a expansão do streaming, mas se destaca por ocorrer sobre um repertório já consolidado.
O desempenho do gênero sugere um padrão de escuta que difere de outros mercados da região. Em vez de perder espaço para o urbano, o rock argentino mantém presença consistente entre jovens, funcionando como uma base de repertório.
Artistas como Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota, Soda Stereo, Babasónicos e Andrés Calamaro seguem entre os mais ouvidos na história da plataforma no país, todos com volumes acumulados que ultrapassam a marca de bilhões de reproduções.
O crescimento do gênero também está ligado à circulação de novos artistas, que atualizam a linguagem do rock sem romper com sua tradição. É nesse cenário que bandas como Airbag aparecem entre as mais ouvidas de 2025, liderando o consumo dentro do gênero, ou mesmo o mais recente álbum de Lali, uma cantora pop que trouxe uma repaginagem do rock nacional.
Entre as músicas mais ouvidas, predominam faixas lançadas há mais de uma década, como:
- “Seguir viviendo sin tu amor”, de Luis Alberto Spinetta
- “Crimen”, de Gustavo Cerati
- “Nunca quise”, de Intoxicados
O mesmo ocorre com os álbuns mais consumidos, dominados por lançamentos dos anos 1990 e 2000.
Mas, apesar da centralidade do gênero, o consumo musical no país é amplo. Dados da última Encuesta Nacional de Consumos Culturales, organizada pelo governo e publicada em 2022, mostram que:
- Cumbia e reggaeton lideram com 62%
- Rock nacional aparece logo atrás, com 59%
- Trap e hip hop alcançam 33%
A distribuição indica que o rock convive com gêneros urbanos e populares, sem perder relevância no conjunto da escuta.
Chile
Os dados de mercado confirmam que o gênero urbano ocupa posição central no consumo musical chileno. Segundo o relatório País de Músicos 2023, da Sociedad Chilena de Autores e Intérpretes Musicales, metade das 30 músicas chilenas mais ouvidas da última década pertence ao gênero urbano.
Em recortes mais recentes, a predominância é ainda mais evidente: entre as músicas nacionais mais escutadas no país, o urbano representa cerca de 60% do total, que é um dado que está diretamente associado ao perfil do público jovem, que concentra a maior parte do consumo em plataformas digitais.
No Chile, percebe-se que o consumo musical jovem está diretamente ligado ao funcionamento das redes sociais, uma vez que plataformas como o TikTok têm alterado a forma como a música é consumida. Com cerca de 13,7 milhões de usuários no país — mais de 70% da população —, a rede social concentra uma base majoritariamente jovem: aproximadamente 64,9% dos usuários têm entre 18 e 24 anos. Esse recorte etário ajuda a explicar mudanças recentes no comportamento de escuta.
O impacto do TikTok pode ser observado na trajetória recente de artistas chilenos, e o caso de Cris MJ ilustra esse movimento. A faixa “Noche en Medellín” ganhou projeção inicial na plataforma antes de se expandir para outros mercados, repetindo um padrão que se consolidou com “Gata Only”, que alcançou o topo de rankings globais após viralização em milhões de vídeos.
Esse tipo de circulação indica que o desempenho de uma música passa, cada vez mais, por sua capacidade de adaptação ao formato de vídeo curto.
Além disso, no Chile, o consumo de música urbana está fortemente concentrado no streaming, diferentemente de outros gêneros que ainda mantêm presença relevante em rádio. Isso faz sentido, considerando a relação entre juventude, plataformas digitais e determinados estilos musicais, indicando que a ascensão do urbano não pode ser dissociada do ambiente tecnológico em que circula.
Porto Rico
A música ocupa um papel central na vida dos jovens porto-riquenhos não só como entretenimento, mas como uma forma de lidar com emoções e experiências sociais. Um estudo da Fundación Triple S revela que 59,2% dos estudantes entre 6º e 12º ano apresentam níveis moderados de solidão, enquanto muitos relatam não ter apoio na escola ou na comunidade. Não é por acaso que 75,3% dos jovens passam o tempo livre ouvindo música, fato que sugere que ela funciona como um recurso emocional, ajudando a preencher lacunas de conexão social.
Os dados da Encuesta de Consumo y Participación Cultural en Puerto Rico reforçam essa centralidade: 96,4% das pessoas escutam música e 62,1% o fazem diariamente.
Eles também mostram que os gêneros tradicionais seguem sendo muito relevantes: a salsa (46,3%) e os ritmos tropicais (40,3%) lideram as preferências, seguidos por gêneros urbanos como o reggaetón (24,4%). Ainda assim, o consumo musical é diverso e reflete tanto a herança cultural da ilha quanto as influências globais contemporâneas.
O reggaeton, para Porto Rico, é algo que vai além da música. Apesar de ser o gênero “viral” e que está no “hype” em outros países, os portorriquenhos têm uma ligação sentimental e cultural muito mais forte, que não têm nenhuma ligação com a febre do momento.
Suas letras abordam temas como desigualdade, violência, racismo e vida urbana, refletindo vivências que muitos jovens experimentam e, assim, o gênero funciona como um canal de identificação coletiva, especialmente em um cenário onde o diálogo sobre sentimentos — como a solidão — nem sempre acontece abertamente.
Artistas como Daddy Yankee, Ivy Queen e, mais recentemente, Bad Bunny ampliaram esse papel da música ao incorporar temas sociais, identidade e emoções em suas obras.
República Dominicana
A música urbana, especialmente o reggaetón, o dembow e o trap, ocupa hoje uma posição estruturante na experiência juvenil na República Dominicana.
Os dados do estudo “Entre ritmos y letras: percepciones estudiantiles sobre música urbana en centros educativos de República Dominicana” indicam uma adesão massiva ao gênero entre estudantes do último ano do ensino médio, com predominância do reggaetón e do dembow. Esse cenário se insere em um contexto mais amplo de alta circulação musical no país: segundo a Encuesta Nacional de Consumo Cultural (ENCC, 2024), 67,9% dos dominicanos com 13 anos ou mais consomem música gravada por meios digitais, evidenciando o papel central das plataformas e dispositivos móveis na difusão desses ritmos.
Do ponto de vista quantitativo, os resultados evidenciam que:
- O reggaetón (38,51%) e o dembow (25,00%) são os subgêneros mais escutados, seguidos por trap (14,52%) e hip hop (5,42%). Outros contemplam os últimos 16,54%.
- A afinidade com a música urbana supera 89% em todas as faixas etárias analisadas (16, 17 e 18 anos ou mais), mostrando estabilidade geracional.
- Apenas cerca de 10,84% dos estudantes afirmam não gostar do gênero.
No entanto, essa alta afinidade convive com percepções divergentes sobre o conteúdo das letras. Uma parcela significativa dos jovens reconhece a presença de temas como violência, consumo de substâncias e cosificação feminina, enquanto outra parte privilegia o aspecto rítmico e performático, deslocando a atenção do conteúdo para a experiência sensorial. Há ainda um grupo que utiliza essas músicas como forma de expressão emocional ou identificação pessoal, o que sugere níveis distintos de engajamento com o material.
A idade também opera como fator de diferenciação. Embora o gosto pela música urbana se mantenha estável entre as faixas etárias analisadas, estudantes mais velhos demonstram maior identificação sentimental com as letras, sugerindo uma apropriação mais subjetiva e menos superficial.
No ambiente escolar, para o estudo, a presença dominante da música urbana coloca desafios específicos. Por um lado, revela-se como ferramenta potencial para aproximar conteúdos pedagógicos da realidade dos alunos. Por outro, evidencia a necessidade de mediação crítica, especialmente diante de conteúdos controversos, uma vez que a ausência de preparo docente e a persistência de preconceitos em relação ao gênero limitam sua incorporação em práticas educativas mais estruturadas.
Os resultados também reforçam que não há consenso entre os jovens sobre o impacto das letras. Enquanto a maioria reconhece algum nível de influência no comportamento, uma parcela relevante se mostra indecisa ou cética.
Padrões gerais do consumo jovem na América Latina
O cruzamento dos dados mostra três dinâmicas principais: digitalização total do consumo (streaming e redes), protagonismo jovem (principal faixa entre 18 e 34 anos) e fragmentação de repertórios. À primeira vista, os dados não enganam: o reggaetón (e o universo urbano ao redor dele) domina o consumo jovem na América Latina. Ele é o ponto de partida, a linguagem comum, o som que atravessa fronteiras e organiza o mercado.
Mas é justamente quando se olha mais de perto que as diferenças importam.
Porque, embora o mesmo ritmo esteja em todos os países, ele não funciona do mesmo jeito. Na Colômbia, convive com uma explosão de gêneros locais; no México, se mistura com estruturas regionais e ganha outra estética; na Argentina, divide espaço com um repertório histórico roqueiro que não perde força; no Chile, se molda ao formato viral; no Caribe, carrega um peso emocional e social mais explícito.
Ou seja: o som pode ser o mesmo, mas o contexto muda.
