Carnaval de Oruro: uma celebração boliviana dos tempos ancestrais

O Carnaval de Oruro é a expressão máxima carnavalesca da Bolívia, sendo inclusive declarado como Obra Mestra do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade pela UNESCO.

Apesar do título de “carnaval” ter sido utilizado a partir da chegada dos espanhóis, a data celebra, na verdade, uma tradição que já ocorria há séculos na região dos Andes. Com o tempo, passou pelo sincretismo, mas os costumes indígenas ainda prevalecem.

Continue lendo para conhecer a história por trás dessa festividade!

Qual a origem do Carnaval de Oruro?

A festividade parte de uma lenda. A região, chamada de Uru, contava com uma população que foi amaldiçoada pelo deus Wari — que, por receio das pessoas em mencionarem o nome dele, ficou conhecido também como Tio —, por adorarem outra divindade — Pachacamaj, conhecido como Inti, o sol. Com isso, foram enviadas quatro pragas para castigar a cidade. 

Primeiro foi a víbora gigante, que surgiu para atacar a zona sul da cidade. Porém ela foi detida pela Ñusta, que lhe cortou a cabeça. Ela foi petrificada sobre os montes da Serranía Katari, criando os zigue-zagues de seu formato.

Ñusta é uma palavra em quechua para “princesa”, mas para os povos andinos não é um título da monarquia. Ela é uma jovem que também é um simbolismo para a fertilidade e a terra que ainda não foi tocada. Por conta disso, ao passar pelo processo de sincretismo religioso, ela ficou conhecida também como a virgem.

Então, Wari resolveu mandar um sapo gigante pela zona norte. Porém, desde o alto da montanha, a Ñusta fez com que ele parasse e fosse petrificado.

Furioso por ter sido mais uma vez impedido de castigar a cidade, resolveu atacar a zona leste com um lagarto gigante. A Ñusta ajudou novamente, cortando-o em pedaços. Segundo a lenda, o sangue que escorria de sua cabeça se tornou uma lagoa.

E, da sua boca, saíram formigas para aterrorizar a população local. Porém, mais uma vez, a Ñusta apareceu. Ela as transformou em areia, criando o local conhecido hoje como Los Arenales de Cochiraya, na zona oeste da cidade.

Por conta disso, a população local passou a celebrar a Ñusta como a salvadora da cidade. Séculos mais tarde, com a imposição do cristianismo pela invasão europeia, ocorreu um sincretismo religioso: ela foi popularizada como Virgem de Socavón, por conta das analogias com a religião cristã, enquanto Wari é o diabo. Já as festas se tornaram o carnaval.

Em 1970, Oruro foi declarada por um decreto a capital nacional do folclore por conta das tradições locais, virando lei em 1984. Em 1995, o Carnaval vira um Patrimônio Cultural, Tradicional, Artístico e Folclórico da Bolívia — sendo reconhecido como Obra Mestra do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade da UNESCO em 2001. Desde 2012, também é Patrimônio Inmaterial de la Comunidad Andina.

Monumento para a Virgem de Socavón, localizada no alto de uma montanha, em Oruro

Quais os elementos principais do Carnaval de Oruro?

O Carnaval de Oruro também é uma importante atração turística. Em média, o número de pessoas que se reúnem para assistir às apresentações chega aos 400 mil por ano. Segundo dados da Secretaria de Turismo e Cultura, a celebração de 2020 gerou a entrada de US$35 milhões — que, na cotação atual, corresponde a R$188 milhões.

As fantasias usadas são feitas por artesãos locais, de modo que a economia da cidade gira em torno dos desfiles ao longo do ano, não apenas na semana de feriado. 

Durante as festas, se apresentam 48 grupos folclóricos que se dividem em vários tipos de dança. Existem cinco expressões que são as mais importantes para o Carnaval, sendo representantes de destaque para a cultura boliviana. São eles:

Diabladas

A diablada tem origem em rituais ancestrais da civilização Uru, com mais de 2000 anos de existência. Documentos históricos do período colonial relatam celebrações dos povos indígenas com máscaras e celebrando uma dança que, na época, foi chamada de Llama Llama.

Era um culto a Wari, que depois do sincretismo ficou conhecido pelo imaginário popular como o diabo universal. Depois do envio das pragas, ele se converteu e se tornou um devoto da Virgem de Socavón — e é isso que as danças modernas representam.

A coreografia traz alguns personagens malignos, caracterizados pelos diabos. Eles saudam a virgem e começam os passos. É uma metáfora para a luta do bem e o mal.

Tinku

Outra manifestação folclórica muito importante também é o Tinku. Esse termo é, em quechua “encontro” e, em aymara, “ataque físico”. Isso explica a existência do Ritual ceremonial del Tinku, que se trata de uma celebração que envolve um enfrentamento entre grupos.

Nesse ritual, há um combate físico com uso de golpes violentos. O perdedor deve derramar seu sangue como oferenda para a Pachamama para que haja um bom ano de colheira.

A dança do Tinku, por outro lado, não se trata de uma luta. É feita de forma coletiva, de modo que homens e mulheres dançam agitando os braços e, principalmente, fazendo movimentos com os punhos.

Saya

A saya é não apenas uma dança, mas um gênero musical que nasce dos afrobolivianos que se estabeleceram na região do altiplano — especificamente, em Los Yungas de La Paz. Começando com elementos trazidos da África, logo o ritmo também passa a ser influenciado por características da música andina e, também, europeia.

As roupas tanto para homens quanto mulheres devem ser brancas. Para elas, as saias vão até o joelho enfeitadas com tiras coloridas. Essa é uma das características que foi influenciada pela cultura andina, já que as roupas também lembram as das cholitas.

A dança tem várias variantes, já que ao ser levada para centros urbanos foi sofrendo algumas alterações.

Caporales

O termo “caporal” era utilizado para denominar o capataz dos escravos negros durante o vice-reinado do Peru. 

É comum que algumas pessoas confundam os caporales com a saya. Isso porque uma das já mencionadas variantes é, justamente, o caporal. Criada pelos irmãos Estrada Pacheco, a dança traz uma mescla da saya com outros tipos de movimentos corporais tradicionais da região do Altiplano, como é o caso do Tundique.

Foi lançado em 1969 e o primeiro grupo a treinar os movimentos e apresentar foi Los Uros del Gran Poder, em 1972. É uma dança bastante envolvente e costuma ser o ponto alto de muitas festas folclóricas. Já as roupas são bastante coloridas e brilhantes. Alguns trajes em específico têm chocalhos, criando um efeito sonoro interessante.

Morenada

Como o próprio nome sugere, essa é a dança dos “morenos”. Também surgiu na região do Altiplano, mas no local onde hoje é o Peru. Tem origem na época colonial, especificamente com um contexto em que os negros eram levados para trabalhar nas minas de prata da região.

A dança representa o sofrimento dessas pessoas que eram exploradas pelos espanhóis. Começou a ser feita pelos indígenas que observavam os africanos e, depois, se espalhou por outras regiões dos Andes. Hoje, é muito reproduzida em outros países além da Bolívia e do Peru, como Chile e Argentina.

Os trajes são bastante pesados e, inclusive, muitos bailarinos depois do ciclo de carnaval ficam com as costas machucadas ou até mesmo sangrando. Também são usadas máscaras grandes que ocultam totalmente o rosto de quem está por baixo.

Gostou de saber mais sobre o Carnaval de Oruro, na Bolívia? Conheça também as características do Carnaval de Barranquilla, na Colômbia.

Texto produzido com a ajuda de Karla Burgoa.

Autor: Isabela Guiaro

Jornalista e analista de conteúdo em marketing digital. Fiz pós-graduação em Globalização e Cultura e, durante o curso, desenvolvi pesquisas sobre identidade nacional e cultura latino-americana. Apaixonada pelo idioma espanhol desde os 5 anos de idade, meu objetivo é disseminar a cultura hispana no Brasil.

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