Colômbia abriu as portas para o mundo e encontrou o… Bogotazo

Bogotá tentava ocupar um lugar que ultrapassava suas montanhas e sua geografia naquele início de abril de 1948. A cidade recebia delegações de todo o continente para a IX Conferência Pan-Americana, evento que buscava reorganizar as relações políticas no hemisfério e que daria origem à Organização dos Estados Americanos. Diplomatas circulavam entre hotéis, salões e edifícios oficiais, e o governo de Mariano Ospina Pérez projetava uma imagem de estabilidade institucional diante de representantes estrangeiros, incluindo a delegação dos Estados Unidos liderada por George Marshall.

Ao mesmo tempo, fora das salas de conferência, outra cidade se movia. Caminhando pelo centro perto de onde ocorreria o evento, estava Jorge Eliécer Gaitán, cuja presença mobilizava multidões e reorganizava expectativas políticas. Ah, finalmente um líder popular colombiano que não queria se alinhar aos interesses conservadores das elites! Agora as coisas irão mudar! Uma nova Colômbia está por vir: mais democrática, mais aberta… Mais liberal. Viva, Gaitán!

Esses dois mundos entraram em sobreposição quando vieram os disparos. Um corpo caiu na calçada e a notícia começou a se espalhar antes mesmo de qualquer confirmação oficial.

O homem identificado como autor dos tiros tentou fugir. Foi perseguido. A multidão se formou quase instantaneamente. “Mataram o Gaitán, mataram o Gaitán” se ouviu pelas ruas, enquanto o culpado se refugiava em uma drogaria. Policiais tentaram intervir, mas a tentativa de controle perdeu força diante do volume de pessoas. Não houve outra maneira, seu corpo foi arrastado pelas ruas até as proximidades do palácio presidencial.

As emissoras de rádio começaram a transmitir mensagens que misturavam relato e convocação. Era o tal do Bogotazo. Bogotazo! Bogotazo! Chamavam a população às ruas, falavam em reação, em ação imediata, ao que a cidade respondeu: pessoas saíram de diferentes bairros em direção ao centro e as primeiras vitrines quebradas surgiram rapidamente. Em seguida vieram os saques, os incêndios, os confrontos. Ônibus e bondes foram atacados. Trilhos interrompidos. A circulação urbana foi substituída por deslocamentos irregulares, guiados por impulsos distintos. Alguns buscavam armas, outros carregavam mercadorias, outros apenas seguiam o fluxo.

O governo tentou reagir e polícia aparecia em alguns pontos e desaparecia em outros. Em certos locais, agentes tentavam conter a multidão. Em outros, permaneciam imóveis ou se integravam ao movimento. Autoridade já era uma palavra inexistente e, ao longo da tarde, quartéis foram invadidos, armas passaram a circular entre civis e escala dos confrontos se ampliou. Edifícios públicos começaram a ser atacados. Igrejas, escolas, sedes de jornais. Tudo! O fogo se espalhava, criando uma cartografia irregular da destruição. Cada novo foco de incêndio indicava que a cidade operava sem um centro de decisão reconhecido.

Em uma varanda, Darío Echandía tentou falar à população como substituto de Gaitán no Partido Liberal. Dizem por aí se escutou algo com as palavras “calma e unidade nacional”, mas o que mais se ouvia era o som de tiros, madeira quebrando, estruturas cedendo. Ninguém queria um substituto. Ninguém sabia mais o que queria.

Paralelamente, outra dinâmica surgia. Mercadorias saqueadas começaram a circular em feiras improvisadas. Objetos trocados por dinheiro, por bebida, por outros objetos. A economia urbana assumia uma forma provisória, baseada no que havia sido retirado das lojas. A chamada “Feria Panamericana” à essa altura se consolidava como um espaço de circulação de bens em meio ao colapso.

Ao amanhecer, Bogotá revelava as marcas do que havia acontecido nas últimas horas. Eram ruas cobertas por destroços, edifícios queimados, trilhos interrompidos e corpos espalhados. A cidade que, no dia anterior, buscava se apresentar como centro político do continente agora expunha sua fragilidade. Que ironia para um país latino-americano, não? É impressionante a rapidez com que a ordem institucional perde eficácia. À facilidade com que diferentes grupos assumiram as ruas sem coordenação central. À distância entre o discurso político formal e a experiência cotidiana de grande parte da população.

Nos dias seguintes, a violência se estendeu para outras cidades e o país entrou em um período que ficaria conhecido como La Violencia, com confrontos políticos se intensificaram, especialmente em áreas rurais.

Nos anos que vieram depois, a sensação era de que o país tentava voltar ao lugar, mas sem saber exatamente o que ainda está fora dos eixos. Governos se sucederam, acordos foram assinados, nomes voltaram a ocupar cargos conhecidos. Em 1953, Gustavo Rojas Pinilla apareceu como uma promessa de ordem em meio ao ruído. Mais tarde, liberais e conservadores passaram a dividir o poder, alternando-se como se o tempo pudesse ser organizado em turnos.

Mas, fora desse arranjo, outras linhas já estavam em movimento. No interior do país, longe das salas onde se assinavam acordos, surgiam grupos armados, territórios em disputa, novas formas de autoridade entre guerrilhas, cartéis de drogas e paramilitares. A política continuava existindo, mas já não cabia inteira nos mesmos lugares.

E, de algum modo, ainda se podia reconhecer, ali, uma imagem daquele dia em que a cidade saiu do eixo e ninguém conseguiu trazê-la de volta ao mesmo ponto.

Aquela tarde de abril permanece como um ponto de inflexão. A Colômbia deveria ganhar um protagonismo internacional e mudar, para sempre o seu destino. Na verdade, foi exatamente isso o que aconteceu, só não como planejado…

Leia a história do conflito armado na Colômbia aqui

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *