Os peruanos foram às urnas no domingo, 07 de junho, para escolher um novo presidente em uma das eleições mais fragmentadas e imprevisíveis da história recente do país. Com 35 candidatos na disputa do primeiro turno — um recorde — e uma acirradíssima disputa entre os dois candidatos finais, com menos de 50 mil votos de diferença entre cada um deles, o pleito mostra a dificuldade de construção de lideranças capazes de concentrar apoio em meio a uma profunda crise institucional e social.
O processo eleitoral ocorreu após anos de instabilidade crônica. Em menos de uma década, o Peru acumulou sucessivas trocas de governo, com presidentes destituídos, renúncias e confrontos constantes entre Executivo e Legislativo. A crise se agravou após a destituição de presidentes recentes e a percepção crescente de que o Congresso ampliou seu poder de forma controversa, muitas vezes sob acusações de favorecer interesses próprios e enfraquecer mecanismos de controle institucional.
É assim como a insegurança e o avanço do crime organizado se consolidaram como temas centrais, pois o aumento de homicídios, extorsões e ataques a trabalhadores e pequenos empresários contribuiu para um clima de medo generalizado. Ao mesmo tempo, a corrupção seguiu como uma preocupação estrutural, alimentando a desconfiança da população em relação à classe política, de modo que grande parte dos eleitores, segundo as pesquisas de intenções de voto realizadas no país, não se sentia representada por nenhuma candidatura.
Após uma apuração extremamente disputada, Keiko Fujimori foi eleita presidenta do Peru em uma das eleições mais acirradas da história recente do país, e antes de finalizar oficialmente a apuração: a candidata atingiu um número que, matematicamente é irreversível. Durante a contagem dos votos, a diferença entre Fujimori e seu adversário, Roberto Sánchez, foi mínima, chegando em determinados momentos a registrar exatamente 50% para cada candidato. O resultado manteve o país em suspense por vários dias, enquanto os votos provenientes das regiões mais remotas continuavam sendo contabilizados.
Ocorreu uma forte virada para Sánchez graças as áreas rurais e andinas, onde sua candidatura encontrou respaldo entre setores que se sentiam afastados das decisões políticas nacionais, mas, ao final da apuração, os votos do exterior do país favoreceram a somatória para Fujimori.
Keiko Fujimori retoma a memória do fujimorismo e da ditadura de seu pai
À frente das intenções de voto apareceu, no primeiro turno, Keiko Fujimori, candidata do partido Fuerza Popular e figura central da política peruana nas últimas duas décadas. Em sua quarta tentativa de chegar à presidência, ela se consolidou como a principal referência de um campo político de direita fortalecido pelo discurso de ordem e segurança.
Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o país entre 1990 e 2000, Keiko construiu sua trajetória política diretamente vinculada ao legado do pai, cujo governo é amplamente caracterizado como uma ditadura após o autogolpe de 1992, quando dissolveu o Congresso e concentrou poderes no Executivo. Seu regime foi marcado pela derrota do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso, mas também por graves violações de direitos humanos e por uma rede de corrupção que resultou em sua posterior condenação judicial.
Esse passado fez do fujimorismo uma força extremamente polarizadora no Peru: para seus apoiadores, representa eficiência no combate ao crime e capacidade de impor ordem; para seus críticos, simboliza autoritarismo, ruptura democrática e enfraquecimento das instituições.
Durante a campanha, Keiko Fujimori apostou novamente em um discurso de “mão dura” contra o crime, defendendo o endurecimento das penas, maior controle sobre o sistema penitenciário e mudanças no Judiciário. Entre suas propostas mais controversas esteve a retirada do Peru de instâncias internacionais de direitos humanos, medida vista por especialistas como um possível retrocesso institucional. Ao mesmo tempo, buscou suavizar sua imagem, adotando um tom mais moderado do que em eleições anteriores para ampliar seu alcance eleitoral.
Apesar de ter vencido as eleições gerais, obteve mentos votos dentro do Peru: o que decidiu pela sua vitória foi a quantidade de eleitores peruanos vivendo no estrangeiro, onde obteve 63.2%. Considerando apenas os votos no país, Sánchez liderou com 50.1 %.
Quem é Roberto Sánchez: a trajetória política e propostas do novo presidente do Peru

Roberto Sánchez, de 57 anos, é psicólogo social formado pela Universidade Nacional Maior de San Marcos, em Lima. Ingressou na política em 2005, no então Partido Humanista Peruano, e ao longo dos anos consolidou sua atuação na esquerda peruana. Foi eleito deputado em 2021 e ganhou projeção nacional ao ocupar o cargo de ministro do Comércio Exterior e Turismo durante o governo de Pedro Castillo, permanecendo na função até a queda do governo em 2022.
Como presidente do partido Juntos por el Perú, Sánchez se apresentou como herdeiro político do projeto de Pedro Castillo. Sua campanha presidencial foi marcada pelo discurso de “refundação da pátria”, defendendo maior participação popular nas decisões do Estado, o fortalecimento das regiões historicamente excluídas e a convocação de uma Assembleia Constituinte para elaborar uma nova Constituição peruana. Também prometeu combater a pobreza e ampliar a presença do Estado em áreas consideradas abandonadas pelo poder público.
Entre suas principais propostas estavam a valorização da educação pública, a formalização da economia informal, o fortalecimento das economias locais e uma atuação mais ativa do Estado na condução do desenvolvimento nacional. Sánchez também defende reformas nas instituições de segurança e justiça, a proteção dos direitos humanos e políticas voltadas à redução das desigualdades sociais e territoriais que, segundo ele, dificultam o desenvolvimento do país.
Sua vice-presidenta pela chapa seria uma mulher camponesa e indígena. Brígida Curo é agricultora e criadora de gado e ganhou destaque na politica em 2022, ao liderar protestos contra o golpe do ex-presidente Pedro Castillo.
Um campo pulverizado e heterogêneo

Os 35 candidatos do primeiro turno representaram um espectro político amplo, mas marcado por fragilidade programática e baixa institucionalização partidária. Entre eles, foi possível identificar alguns perfis predominantes:
Candidaturas de direita com discurso de segurança
Entre os principais exemplos esteve Keiko Fujimori, que liderou as pesquisas defendendo políticas de “mão dura”, como endurecimento penal e maior controle sobre o sistema judicial. Outro nome relevante foi Rafael López Aliaga, ex-prefeito de Lima, que propôs medidas como expulsão de imigrantes irregulares e até a construção de presídios em regiões isoladas. Também se destacou Carlos Álvarez, que adotou um discurso ainda mais radical, defendendo punições extremas contra criminosos.
Outsiders e figuras midiáticas
O caso mais emblemático foi o de Carlos Álvarez, conhecido por sua carreira na televisão como humorista e imitador político, que entrou na disputa sem trajetória política tradicional. Outro exemplo foi Ricardo Belmont, empresário e figura midiática que buscou atrair eleitores jovens e insatisfeitos com o sistema político.
Direita liberal e empresarial
Rafael López Aliaga também se encaixou nesse perfil, combinando discurso conservador com propostas pró-mercado. Outro exemplo foi César Acuña, que defendeu crescimento econômico baseado em investimento privado e gestão empresarial do Estado.
Centro enfraquecido
Entre os candidatos mais moderados estiveram Jorge Nieto, com discurso institucionalista, e Marisol Pérez Tello, que defendeu reformas com foco em governabilidade e fortalecimento democrático. Apesar disso, ambos enfrentaram dificuldades para ganhar espaço diante da polarização e da centralidade do tema da segurança.
