Mon Laferte transformou o Espaço Unimed numa cerimônia — parte show, parte ritual, parte declaração de que uma mulher de 40 anos pode ser tudo ao mesmo tempo.
Tinha uma mulher vestida de noiva vendada no palco quando as luzes foram pro chão. Não metaforicamente vendada — com ataduras brancas, de verdade, cobrindo os olhos. E o Espaço Unimed inteiro, depois de gritar, ficou quieto. Não o quieto de quem está esperando. O quieto de quem acabou de entender que a noite vai ser diferente.
Esse foi o primeiro dos quatro atos da Femme Fatale Tour de Mon Laferte, que chegou a São Paulo no dia 16 de maio carregando seu nono disco de estúdio, Femme Fatale (2025), e uma trajetória que começou com seis pessoas num bar de Viña del Mar e chegou até aqui — arenas lotadas semanas antes, um público que sabe de cor até as faixas novas. Aquela mulher vendada no palco era Norma Monserrat Bustamante Laferte, que nasceu no Chile, cresceu artística e afetivamente no México, e que parece ter decidido, em algum momento da sua carreira, que a única coisa que não iria fazer era ficar quieta no lugar que o mercado escolheu pra ela.
O mercado, aliás, não sabe muito bem onde colocar Mon Laferte. Ela faz bolero, faz rock, faz jazz, faz cumbia, faz o que bem entende, e quando você acha que entendeu, ela coloca uma esteira no palco e recita um poema em cima dela por um minuto e meio enquanto a arena segura a respiração. Tentei encontrar um gênero pra descrever o que vi na sábado e desisti depois de trinta segundos. O gênero é Mon Laferte. Ponto.
O naipe de metais entrou em campo logo no segundo ato e não saiu mais. Mas espera — não eram metais de big band de Chicago, não era jazz de clube com charuto e fumaça azul. Era outra coisa. Era trompete com aquele ataque nervoso e dramático do México, que dobrava a melodia do bolero como se isso fosse a coisa mais natural do mundo, era uma latinidade inconfundível ao som de “Tormento”. Mon Laferte, que no ano anterior havia estrelado o musical Cabaret em sua versão mexicana, interpretando Sally Bowles, trouxe referências desse universo ao seu novo show. Mas, ali, o cabaré virou cabaré de Veracruz. O jazz virou jazz da América que existe abaixo do Rio Grande. E ficou melhor.
Mon Laferte viveu em Veracruz durante anos. Cantava covers em bar pra público que não queria ouvi-la. Ela conta isso com uma clareza desconcertante no documentário Mon Laferte, te amo, na Netflix — recomendo assistir, pois vai mudar a forma como você ouve as canções. Aquela experiência de tocar pro vazio, de cantar pra sobreviver, de aprender o son jarocho e o bolero e a cumbia porque eram os gêneros da cidade onde ela morava — tudo isso está guardado na memória muscular dela como intérprete.
Entre atos, interlúdios que contam uma história: o lugar da mulher na sociedade representado pela Femme Fatale, personagem que ela encarnou para questionar o que é esperado do gênero feminino. Elas deveriam almejar casar e ter filhos? Ser bonitas e perfeitas? Aceitar desde os micros até os macro atos de misoginia aos quais são expostas desde cedo? Com ironia, o vídeo do telão brinca com uma entrevista a várias “candidatas ao posto de miss”, em que elas dizem “Adoro quando um homem me mostra seu órgão genital! Ou quando me gritam coisas obscenas. Me sinto lisonjeada!”. Tudo isso, amarrado à narrativa cabaretesca dos dançarinos que se faziam muito presentes no palco. Em outro interlúdio, os quatro narram suas perspectivas em relação a romances: um galanteador seduz com palavras ao público (e, depois, é revelado que ele é argentino. Claro! Um “chamuyero” nato); uma mulher que jura que ama, mas tem mais outros quatro casos de amor; outro que está indignado porque seu namorado o deixou sozinho (para sair com a esposa); e outra que recita poemas românticos extremamente profundos.
Aqui está o gesto que só funciona quando uma artista sabe onde está e de onde veio: tomar uma forma que pertence a outro lugar, a outra tradição, a outro imaginário — o jazz vocal norte-americano, o cabaré europeu, o cinema noir — e latinziá-la sem violentar nenhum dos dois lados. O musicólogo Felipe Trotta tem um conceito que chama de ambiência — o ambiente simbólico que um gênero musical constrói ao redor de quem ouve. O bolero tem uma ambiência específica: dor de amor, entrega absoluta, a ideia de que sentir muito é uma forma de dignidade. Mon Laferte não só habita essa ambiência — ela a expande. Coloca dentro do bolero o feminismo, o erotismo, a raiva, o humor, a ironia. O bolero de Mon Laferte não é o bolero dos Tríos. É o bolero de uma mulher de 41 anos que sabe exatamente o que está fazendo e decidiu fazer mais.
Pornocracia é uma canção que sabe o que quer. O bolero chegou com a levada de sempre — cordas, metais suaves, aquele balanço que prepara o corpo antes de a letra chegar — e Mon Laferte começou a sussurrar palavras em italiano. Palavras sexuais, ditas com a calma de quem tem tempo, mas com o tom de voz de quem tem muita pressa. La Tirana entrou logo depois sem dar tempo de respirar, e o que era sedução virou outra coisa: tensão. Os metais saíram da moldura do bolero e começaram a empurrar, sincopados, nervosos, com aquele jazz de palco que não convida a sentar — convida a ficar de pé e prestar atenção.
Foi um momento que justifica ir a shows ao vivo em vez de ficar em casa com o álbum no fone. “Vuelve Por Favor” tem na sua estrutura uma tensão que vem do tango — não o tango como dança de salão, mas o tango como dramaturgia vocal, aquela coisa do Río de la Plata onde a melodia sobe e desce como se estivesse narrando um evento em câmera lenta. Mon Laferte não dançou tango. Ela cantou com o tango dentro, que é diferente e é mais difícil. “Préndele Fuego” entrou em algum momento na sequência e o Brasil apareceu no show sem ser anunciado: a influência da bossa nova está na harmonia, naquelas trocas de acorde que escorregam em vez de resolver, e na voz chegando mais perto da fala, menos vibrato, a melodia quase de lado.
Após um momento mais introspectivo de baladas, vieram Amantes Suicidas e Por Qué Me Fui a Enamorar de Ti em sequência — as duas salsas animadas. É o tipo de transição que expõe algo sobre como Mon Laferte entende gênero musical: como ferramenta. A salsa ativa um repertório corporal específico, diferente do que o bolero pede e diferente do que o folk permite. Colocar as duas depois de um bloco inteiro de canções introspectivas mostrou que o espetáculo tem amplitude suficiente pra sustentar registros opostos sem que nenhum deles pareça fora de lugar.
As seis trocas de figurino merecem um parágrafo próprio porque não eram decoração. A mulher vendada do início virou noiva, a noiva virou personagem de film noir, o film noir virou cabaré, o cabaré virou algo mais difícil de nomear — uma mulher livre de qualquer imagem que não seja a que ela mesmo escolheu — e, no final, ela virou uma Miss com sua faixa de “Femme Fatale”. Os quatro bailarinos que a acompanharam durante quase todo o show embaralhavam papéis de gênero com uma precisão coreográfica que nunca parecia técnica demais. Era quente. Era político, inclusive.
A indústria musical trata mulheres acima dos 40 com a gentileza de um formulário de aposentadoria. Mas, Mon Laferte parece ter lido esse formulário, dobrado em quatro, e usado como material de composição. Femme Fatale é um disco que só uma artista nesse ponto de maturidade faria — não porque seja sombrio ou lento, mas porque tem a confiança de quem não precisa mais provar nada pra ninguém, e essa confiança deixa espaço pra correr riscos. O show é a mesma coisa. Se pensarmos em sua trajetória, dificilmente pensaríamos que ela, que começou com um violão na mão e cantando algo dentro do escopo do rock alternativo, traria uma diversidade de gêneros e um espetáculo teatral para dentro de sua narrativa artística.
Na saída, ouvi dois caras conversando — não pareciam o público típico de Mon Laferte, estavam visivelmente ali por causa de alguém, um pouco surpresos consigo mesmos. Um disse pro outro: “eu não esperava que fosse tão… completo.” É uma boa palavra. A Femme Fatale Tour é um show completo no sentido em que um romance é completo — tem começo, meio, fim, tem personagem, tem arco, tem a sensação de que cada parte estava lá por um motivo. É uma obra. E latina!
Mon Laferte veio de Viña del Mar, passou por bares vazios de Veracruz, virou mexicana por adoção e convicção, e chegou até aqui cantando bolero com metais de banda de pueblo num espetáculo que cita o cabaré europeu e o cinema noir e soa, o tempo todo, profundamente, irremediavelmente latino-americano. Ela não cabe num gênero. Nunca coube. E a Femme Fatale Tour é, entre outras coisas, a afirmação de que esse não-caber é exatamente onde ela quer estar.
