Dicionário de Gírias: Cuba — O Guia Completo do Espanhol Cubano

Se você está aprendendo espanhol e pretende viajar a Cuba, conversar com cubanos ou simplesmente entender letras de música, filmes e séries ambientados na ilha, precisa conhecer as gírias cubanas. O espanhol falado em Cuba é rico, musical e cheio de expressões que não aparecem em nenhum livro didático tradicional — e é justamente isso que torna a comunicação com um cubano tão divertida (e às vezes desafiadora) para quem só estudou o “espanhol de sala de aula”.

Neste dicionário de gírias cubanas, reunimos as expressões mais usadas no dia a dia da ilha, com explicação do significado, contexto de uso e frases de exemplo. A ideia é que você saia daqui entendendo não só o “o quê”, mas também o “quando” e o “como” usar cada gíria.

Por que o espanhol cubano tem gírias tão particulares?

Cuba desenvolveu, ao longo de décadas de relativo isolamento e de uma cultura popular muito forte, um vocabulário informal próprio. Muitas expressões nasceram de jogos de palavras, rimas populares e até de fatos históricos marcantes. Outras vêm da vida cotidiana: da fila para pegar o ônibus, da carona compartilhada, do jeitinho cubano de contornar a escassez. Entender essas gírias é entender um pedaço da cultura cubana.

Glossário de gírias cubanas (A-Z)

Abaixo está o dicionário completo, organizado em ordem alfabética, com o significado de cada gíria e um exemplo de uso.

A

Acere — forma informal de dizer “amigo”, “cara”, “mano”. “Acere, ¿qué bolá?” (Mano, e aí, tudo bem?)

B

Bembelequero / Bembelaquera — pessoa que espalha fofoca ou notícia não oficial (vem de bemba, gíria para “lábios”). “No confíes en Miguel. Él es un bembelaquero.” (Não confie no Miguel. Ele é fofoqueiro.)

Boteros — táxis de rota fixa, uma alternativa popular de transporte em Cuba. “Toma un botero. Es barato.” (Pegue um táxi. É barato.)

Botella (ir en botella) — pedir carona parando carros em sinais de trânsito, prática típica cubana. No passado, botella também significava ter uma boa “conexão” para conseguir emprego. “Voy a tomar botella a tu casa.” (Vou pegar uma carona até sua casa.)

C

Camello — apelido para os antigos ônibus de Havana, por causa da carroceria com “corcovas” que lembram um camelo. Pegar um desses era, literalmente, uma via-crúcis. “Tengo que tomar un camello a la fiesta.” (Tenho que pegar um ônibus para a festa.)

Chao, pesca’o — forma bem-humorada de dizer “tchau”, com efeito de rima parecido com o nosso “até mais, jacaré!”. Em algumas regiões existe até a versão em dupla: “¡Chao pesca’o!” / “¡Y a la vuelta, picadillo!”, que remete à época em que o cartão de racionamento cubano garantia peixe na primeira quinzena do mês e carne moída na segunda. “¡Chao, pesca’o, hasta mañana!” (Tchau, até amanhã!)

Chivo (el chivo) — gíria para bicicleta. “Mi coche está averiado, así que montaré en chivo.” (Meu carro quebrou, então vou de bicicleta.)

D

Deja la singae — forma direta (e um tanto grosseira) de dizer “para de me encher”. “Deja la singae.” (Para de me encher.)

Dichabar (no me vayas a dichabar) — trair a confiança de alguém contando um segredo adiante. “Esto es un secreto. No me vayas a dichabar.” (Isso é segredo. Não vá contar por aí.)

E

Echar pila — flertar, dar em cima de alguém. “Creo que ese chico está echando pila conmigo.” (Acho que esse cara está flertando comigo.)

Echar un patín — correr (literalmente, “jogar um patim”). “Tengo que ir a trabajar. Voy a echar un patín.” (Tenho que ir trabalhar. Vou correr.)

Embullarse — ficar animado, empolgado com algo. “No te embullas todavía. Tenemos que trabajar primero.” (Não fica animado ainda. Primeiro temos que trabalhar.)

En talla — quando algo (ou alguém) “se encaixa bem”, seja uma roupa, uma situação ou um novo relacionamento. “¿Conociste al nuevo novio de Maite? En talla.” (Você conheceu o novo namorado da Maite? Combinam bem.)

Esqueleto rumbero — pessoa muito magra (literalmente, “esqueleto de dançarino de rumba”). “Él necesita comer más. Él es un esqueleto rumbero.” (Ele precisa comer mais. Ele é muito magro.)

Está volao — “isso é incrível!”, usado para expressar admiração ou surpresa positiva. “¿Ganaste la lotería? Eso está volao.” (Você ganhou na loteria? Isso é incrível!)

Estoy en la fuácata — “estou duro”, “estou sem dinheiro”. “Estoy en la fuácata. Sólo tengo el cambio en mi bolsillo.” (Estou duro. Só tenho o troco no bolso.)

F

Frutabomba — é assim que se chama o mamão papaya em Cuba (veja o alerta sobre papaya mais abaixo). “Se me antoja una frutabomba.” (Estou com vontade de comer mamão.)

G

Gabeto (el gabeto) — forma alternativa de dizer “casa” ou “lar”, além do tradicional casa. “Me quedo en gabeto este fin de semana.” (Vou ficar em casa este fim de semana.)

Gringo — em Cuba, essa palavra é reservada só para estadunidenses, diferente de outros países latino-americanos, onde às vezes também se aplica a europeus. “Hay muchos gringos en la ciudad este fin de semana.” (Tem muitos americanos na cidade neste fim de semana.)

J

Jamar — comer, no estilo bem cubano. “Estoy hambriento. Jamemos.” (Estou faminto. Vamos comer.)

Jamar un cable — estar passando por sérias dificuldades financeiras, quase sem emprego ou moradia. “Juan jama un cable.” (O Juan está numa situação muito difícil.)

Jamonero — pessoa insistente e “grudenta” ao paquerar, tipo “cantada barata”. “Mi tio es un jamonero.” (Meu tio é um chato que fica dando em cima.)

Jeva — pode significar tanto “garota” quanto “namorada” (mi jeva = minha namorada). “Voy a cenar con mi jeva esta noche.” (Vou jantar com minha namorada hoje à noite.)

M

Mango — usado para dizer que alguém é muito atraente ou gostoso(a). “¡Esa jeva es un mango!” (Aquela garota é um gato!)

Mantén tu latón con tapa — “mantenha segredo”, literalmente “mantenha a tampa na sua lata de lixo”. “No le digas que nos encontramos. Mantén tu latón con tapa.” (Não conte que nos encontramos. Guarda segredo.)

Me piro — “vou nessa”, “estou de saída”. “Estoy cansado. Me piro.” (Estou cansado. Vou nessa.)

Me resbala — “não ligo”, “pouco me importa” (literalmente, “escorrega em mim”). “No estoy preocupado. Me resbala.” (Não estou preocupado. Não ligo.)

Mete tremenda muela — dito de quem fala demais, sobre qualquer assunto: o “bocudo” ou “tagarela” da turma. “Él nunca deja de hablar. Mete tremenda muela.” (Ele nunca para de falar. É um tagarela.)

N

No dipara un chícharo — dito de alguém preguiçoso, que não ajuda em nada em casa (tradução literal: “não estala nem uma vagem”). “Ella no hace nada en la casa. No dipara un chícharo.” (Ela não faz nada em casa. É preguiçosa.)

No te rajes — “não desista do plano”, dito depois de combinar algo com amigos, para reforçar que ninguém deve furar o compromisso. “Realmente quiero hacer esto. No te rajes.” (Eu realmente quero fazer isso. Não desista.)

Nos pillamos — equivalente a “a gente se vê” ou “até mais”. Atenção: dependendo do tom, pode ter uma conotação mais insinuante, então use com cuidado. “¡Qué bueno verte! Nos pillamos.” (Que bom te ver! A gente se vê.)

P

Papaya — atenção aqui: em Cuba, essa palavra não se refere à fruta, e sim é uma gíria vulgar para a genitália feminina. Jamais peça “papaya” no mercado — o certo é pedir frutabomba.

Pégate al agua, Felo — expressão que significa algo como “não fuja do assunto”, mas com origem trágica: remete às últimas palavras dos pilotos do voo 455 da Cubana de Aviación, alvo de um atentado em 1976 que matou 73 pessoas. Por ser sensível para gerações mais antigas, é uma expressão que estrangeiros devem evitar usar.

Pincha (la pincha) — gíria para “trabalho”, “emprego”. “Mi nueva pincha es horrible.” (Meu novo trabalho é horrível.)

Pinchar — o verbo “trabalhar”. “Tengo que pinchar este fin de semana.” (Tenho que trabalhar neste fim de semana.)

Prieto / Prieta — forma de se referir a uma pessoa negra, considerada em Cuba mais respeitosa do que negro. “Ella es prieta y hermosa.” (Ela é negra e linda.)

Q

¿Qué bolá contigo? — o equivalente a “e aí, tudo bem?”. Também pode aparecer escrito como volá, já que em espanhol o B e o V têm som muito parecido. Variações incluem ¿Qué bolero?, ¿Qué bolaita? e ¿Qué vuelta?. “Hola amigo. ¿Qué bolá contigo?” (Oi, amigo. E aí, tudo bem com você?)

S

Se destimbaló — expressão usada para alguém que “caiu”, no sentido de estar mal na vida, sem sorte. “Lo despidieron de su trabajo. Se destimbaló.” (Ele foi demitido do trabalho. Está mal.)

Singar — gíria vulgar para “fazer sexo” (equivalente ao joder do espanhol padrão). “No pude atender tu llamada. Estábamos singar.” (Não pude atender sua ligação. Estávamos transando.)

Surnar — dormir profundamente, tipo aquele sono pesado depois de um dia inteiro na praia. “Voy a surnar ahora.” (Vou dormir pesado agora.)

T

Te sueño la cara — literalmente “sonho com seu rosto”, usado para dizer que você está a fim de alguém. “Eres hermosa. Te sueño la cara.” (Você é linda. Estou a fim de você.)

Tipo cuadrao — pessoa quadrada, inflexível, difícil de lidar. “Es difícil trabajar con él porque es un tipo cuadrao.” (É difícil trabalhar com ele porque é muito rígido.)

Tumba eso — “deixa isso pra lá”, “esquece o assunto” (literalmente, “derruba isso”). “Ricardo, es mi decisión. Tumba eso.” (Ricardo, a decisão é minha. Esquece o assunto.)

U

Un mate — um beijo de língua, o famoso “beijo francês”. “Míralos. ¡Qué mate!” (Olha eles. Que beijo!)

V

Voy a hacer café — literalmente “vou fazer café”, mas na prática é o jeito educado de um anfitrião avisar que já está na hora dos convidados irem embora (já que em Cuba é comum as visitas aparecerem sem avisar). Uma variante ainda mais direta é “No te vayas, espera café”, quando o dono da casa realmente quer garantir que a visita entenda o recado. “Voy a hacer café. Trabajo que hacer.” (Vou fazer café. Tenho trabalho para fazer.)

Y

Yuma — usado especialmente para estrangeiros dos Estados Unidos (mas pode se estender a outros de fora da América Latina). “Ese yuma es rico, ¿no?” (Aquele estrangeiro é rico, né?)

Um alerta cultural sobre certas expressões

Vale um parênteses importante: nem toda gíria cubana é “inocente” ou apropriada para qualquer situação. Como vimos no glossário, expressões como “Pégate al agua, Felo” carregam uma origem histórica sensível, e por isso é melhor evitá-las mesmo conhecendo seu significado popular. Já gírias como singar e papaya têm conotação vulgar ou informal demais, então reserve-as para contextos bem descontraídos entre amigos próximos — nunca em situações formais.

Como usar essas gírias sem cometer gafes

Uma dica de ouro para quem estuda espanhol: gíria não substitui gramática, ela complementa. Antes de sair usando “acere” e “¿qué bolá?” por aí, é importante ter uma base sólida de conjugação verbal, concordância e estrutura de frases em espanhol. Gírias como as de Cuba fazem todo sentido quando você já entende o funcionamento da língua — do contrário, correm o risco de soar forçadas ou fora de contexto.

Se você quer ir além do vocabulário informal e realmente dominar o espanhol — seja o de Cuba, da Espanha, do México ou de qualquer país hispanofalante —, o caminho passa por entender bem os tempos verbais, as regras de acentuação, os falsos cognatos entre português e espanhol e as particularidades de cada região. Continue explorando nosso site para guias completos de gramática espanhola, feitos especialmente para brasileiros que querem aprender de verdade, sem enrolação.

¡Chao, pesca’o! E até o próximo dicionário de gírias.

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