Eu acompanho o folklore argentino desde 2016. Já estive em uma peña no norte da Argentina, cantando clássicos de Atahualpa Yupanqui ao lado de desconhecidos, em uma dessas experiências em que música e território parecem inseparáveis. Por isso, talvez uma das coisas mais improváveis que eu pudesse imaginar fosse ver milhares de pessoas em São Paulo cantando músicas de inspiração folclórica argentina com a mesma disposição com que cantariam um hit de trap.
Foi exatamente o que aconteceu na noite de 13 de setembro, na Audio, durante a passagem de Milo J pelo Brasil com a turnê La vida era más corta. A apresentação, primeira de duas noites esgotadas em São Paulo, poderia ser descrita simplesmente como mais uma etapa da internacionalização de um dos nomes mais importantes da nova música argentina. Mas isso seria reduzir demais o que aconteceu.
Uma peña em escala de arena
Por algumas horas, São Paulo se aproximou de uma peña moderna. Para quem não conhece o termo, trata-se de um espaço tradicional de encontro em torno do folklore argentino: um lugar onde músicos se apresentam, o público canta, dança e compartilha um repertório que funciona tanto como música quanto como memória cultural — não exatamente um show no sentido convencional, mas uma experiência coletiva em que a distância entre palco e plateia costuma ser menor.
O show de Milo J tinha, evidentemente, os elementos de uma produção de grande escala: telões, iluminação, uma banda que transitava entre instrumentos acústicos, arranjos folclóricos e a linguagem da música urbana. Mas a relação do público com aquelas músicas seguia uma lógica parecida com a da peña: milhares de pessoas cantando juntas, pulando, respondendo aos músicos, transformando um repertório sobre identidade, memória e território em algo compartilhado. A diferença é que, em vez de uma roda de folklore no norte argentino, o cenário era um dos nomes mais jovens e populares da música urbana do país vizinho.
É essa transformação que torna La vida era más corta um projeto interessante para além do que seria apenas uma fusão de estilos. Milo J não está simplesmente somando elementos folclóricos a um repertório urbano para criar uma sonoridade diferenciada. O disco e o show parecem, antes, uma investigação sobre o que significa ser argentino a partir de uma geração que cresceu ouvindo trap, rap e hip-hop, mas que também herdou uma tradição musical muito anterior a ela.
A distinção importa porque folklore não é sinônimo de música antiga, nem uma coleção fixa de ritmos que precisa ser reproduzida sempre da mesma forma para seguir legítima. Na Argentina, o folklore está ligado a territórios, festas populares, histórias familiares, migrações, desigualdades e diferentes formas de imaginar a identidade nacional. A obra de Atahualpa Yupanqui, Mercedes Sosa e outros artistas que construíram essa tradição não pode ser separada das pessoas e dos lugares que ela passou a representar.
Milo J parte dessa premissa. Em vez de tratar o repertório como herança intocável, ele o coloca em diálogo com o que sua própria geração produziu. A presença de instrumentos acústicos, arranjos folclóricos, murga e referências latino-americanas não anula o trap que está na origem de sua carreira; os dois universos passam a ocupar o mesmo espaço, sem hierarquia entre eles.
A participação da murga uruguaia Agarrate Catalina na turnê ilustra bem essa escolha. A murga carrega uma tradição própria de música, teatro, humor e crítica social, e sua presença amplia a noção de folklore para além das fronteiras argentinas — sugerindo que o projeto de Milo J não busca apenas reafirmar uma identidade nacional, mas situá-la dentro de um contexto latino-americano mais amplo. O resultado é uma música que não precisa escolher entre o beat e a guitarra, entre o rap e a chacarera, entre a periferia urbana e a memória do interior.
Jangadero e a voz de Mercedes Sosa
O ponto em que essas camadas deixaram de ser uma discussão sobre gênero musical e se tornaram experiência concreta foi quase ao final, durante Jangadero, quando a voz de Mercedes Sosa apareceu no som, acompanhada por imagens da cantora no telão.
La Negra morreu em 2009; Milo J nasceu em 2006. A distância entre as duas trajetórias é grande, mas naquele momento específico ela deixou de ser relevante: a voz de Mercedes não estava sendo apresentada como material de arquivo, e sim como parte do repertório presente de um artista de 19 anos. Uma tradição permanece viva quando alguém segue encontrando formas de cantá-la, e Mercedes Sosa foi uma das figuras centrais na transformação do folklore em linguagem nacional e latino-americana.
Isso ajuda a explicar por que a experiência do show faz sentido também fora da Argentina. Embora o repertório seja argentino, as questões que ele levanta não são exclusivas do país: a relação entre território e identidade, a memória familiar, a desigualdade, a mestiçagem, a marginalização e a necessidade de afirmar uma cultura popular diante de modelos importados atravessam diferentes países latino-americanos, o Brasil incluído.
A catarsis coletiva
Se Jangadero trouxe a dimensão histórica do show, as canções Niño e Luciérnagas mostraram sua dimensão mais íntima. A energia da pista mudou: depois de boa parte do repertório marcada por público cantando e pulando, várias pessoas ficaram imóveis, outras fecharam os olhos, algumas choraram. Não parecia um intervalo de descanso antes da próxima faixa, mas um momento de concentração diferente, como se uma parte do público tivesse encontrado naquele repertório uma forma de acessar experiências pessoais.
É outro ponto de contato com a tradição folclórica: a música popular não serve apenas para representar um território, mas também para organizar sentimentos coletivos. Uma canção pode carregar uma memória familiar, uma perda, uma saudade, e, quando milhares de pessoas cantam ao mesmo tempo, essa experiência deixa de ser só individual. Que Milo J consiga produzir esse efeito através de uma linguagem musical à primeira vista distante da tradição folclórica é um indicativo de maturidade artística — não no sentido de excepcionalidade, mas no sentido de domínio consciente do material com que está trabalhando.
A trajetória de Milo J ajuda a situar esse encontro. A Argentina se tornou uma referência mundial em música urbana em boa parte graças à cena de freestyle que revelou nomes como Duki, Wos, Trueno e Paulo Londra — o circuito do Quinto Escalón formou uma geração acostumada a tratar a música como linguagem de rua, competição, improvisação e identidade. Milo J pertence a essa geração, ainda que sua trajetória não se confunda inteiramente com a dos artistas que passaram por esse circuito.
O que diferencia seu projeto é ter tratado o folklore não como um desvio a ser justificado, mas como parte constitutiva de sua identidade artística. La vida era más corta não parece uma tentativa de demonstrar competência em outro gênero; é um disco que incorpora o folklore como dado de partida. Nessa lógica, a música urbana fornece a linguagem contemporânea e o vocabulário do presente; o folklore fornece memória, território e uma conversa com quem veio antes. O disco não precisa escolher entre os dois — e essa recusa da escolha é, em si, uma posição estética e identitária.
O que esse show revela sobre o Brasil
Há ainda uma questão que ultrapassa o show em si. O Brasil tem uma relação ambígua com a América Latina: consome determinados artistas, ritmos e referências do continente, mas frequentemente o faz como quem observa uma região culturalmente externa a si mesmo. A música argentina, por exemplo, costuma chegar ao público brasileiro principalmente pelo rock, pelo pop ou, mais recentemente, pela música urbana — raramente pelo folklore.
Duas noites esgotadas de um show tão marcado por referências folclóricas em São Paulo não significa que o público brasileiro tenha passado a conhecer chacarera, milonga ou murga, tampouco que o folklore argentino tenha se tornado popular no país — seria um exagero afirmar isso. Significa, de forma mais modesta, que um artista consegue levar essas referências a um público que dificilmente teria ido atrás delas por conta própria. É um dos papéis possíveis da música popular: funcionar como porta de entrada para uma história cultural mais ampla.
Alguém pode ter ido à Audio para ouvir “Rara vez” ou a colaboração com Bizarrap e ter saído de lá tendo escutado Mercedes Sosa pela primeira vez; alguém pode ter passado duas horas diante de uma estética centrada na identidade marrón sem nunca ter pensado sobre o tema antes; alguém que já conhecia o trap argentino pode ter descoberto que existe, por trás dele, uma história musical bem mais longa. Obrigada, Milo J.
