Bolívia entra na quarta semana de crise com bloqueios, escassez e pressão por renúncia do presidente

O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, anunciou nesta segunda-feira que reduzirá em 50% seu próprio salário e o de seus ministros. O gesto, apresentado durante cerimônia oficial em Sucre como demonstração de “compromisso com o país”, ocorre enquanto a Bolívia atravessa sua quarta semana consecutiva de protestos, bloqueios de estradas e escassez de itens essenciais nas principais cidades.

Desde o início de maio, trabalhadores rurais, mineiros, professores e transportadores intensificaram a pressão sobre o governo de Paz, que está no poder há seis meses. O que começou como uma série de reivindicações setoriais — reajustes salariais, melhoria no abastecimento de combustíveis e medidas de estabilização econômica — convergiu, nas últimas semanas, para uma demanda central: a saída do presidente.

Escassez e confrontos

Os bloqueios nas principais rodovias de acesso a La Paz agravaram a falta de alimentos, medicamentos e combustíveis na capital boliviana e em El Alto. A inflação anual chegou a 14% em abril, segundo dados oficiais, reflexo da pior crise econômica do país em quatro décadas — marcada pelo esgotamento das reservas de dólares e pela eliminação dos subsídios aos combustíveis, medida adotada por Paz em dezembro.

No sábado (23), forças de segurança tentaram desbloquear estradas ao sul de La Paz em uma operação que terminou em confronto com manifestantes. O governo nega que tenha havido vítimas fatais durante a ação, mas manifestantes afirmam que houve ao menos uma morte. A Defensoria do Povo, a Igreja Católica e organizações de direitos humanos pediram, no domingo, a abertura imediata de diálogo entre as partes e esclarecimentos sobre o incidente.

A única saída de La Paz sem bloqueio tem sido pelo aeroporto de El Alto, que também chegou a ser interditado por algumas horas na sexta-feira (22). Turistas estrangeiros, incluindo brasileiros em trânsito pelo país, relataram dificuldades para deixar a Bolívia, com voos com preços elevados e ônibus sem circulação. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil recomendou evitar viagens não essenciais aos departamentos de La Paz e Oruro.

Recuos e impasse político

Ao longo das últimas semanas, Paz recuou em algumas das medidas que originaram os protestos. Revogou uma reforma agrária que pretendia transformar pequenas propriedades rurais em médias, e chegou a um acordo com professores, que aceitaram um bônus e anunciaram a suspensão dos atos. Mesmo assim, as manifestações não só continuaram como se espalharam para novos setores.

O governo boliviano acusa o ex-presidente Evo Morales de estar por trás dos protestos e de incentivar a mobilização de setores sociais contra a gestão atual. Morales, que governou o país entre 2006 e 2019 e foi impedido de concorrer nas eleições do ano passado por decisão constitucional que limitou reeleições, nega envolvimento direto. No domingo, ele pediu a convocação de novas eleições dentro de 90 dias como condição para a pacificação do país.

Morales é atualmente considerado foragido pela Justiça boliviana. Em 11 de maio, foi declarado em situação de desacato após não comparecer ao início de seu julgamento por suposto tráfico de pessoas — acusação que ele nega. Permanece em seu reduto político na região cocaleira de Cochabamba desde outubro de 2024.

Tensão diplomática

A crise transbordou para o campo diplomático. Na semana passada, a Bolívia expulsou a embaixadora colombiana após o presidente Gustavo Petro classificar os protestos como “insurreição popular” e se oferecer para mediar o conflito. A Colômbia respondeu expulsando o embaixador boliviano “por reciprocidade”. O governo de Paz acusou Petro de “interferência direta” nos assuntos internos do país.

O governo boliviano também denunciou a situação à Organização dos Estados Americanos (OEA), afirmando que as manifestações buscam “alterar a ordem democrática” do país. Paz conta com o apoio dos Estados Unidos, novo aliado na América Latina sob a presidência de Donald Trump. Sua chegada ao poder, há seis meses, encerrou dois décadas de governos socialistas liderados pelo MAS, partido fundado por Morales.

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