Sede nos Andes: o preço oculto do lítio no norte argentino

Enquanto o mundo celebra o lítio como o combustível de uma transição energética limpa, no alto da Puna argentina uma paisagem bem diferente se desenha. Rios que secaram, famílias indígenas que veem seus rebanhos minguar, comunidades sem título de propriedade sobre a própria terra e um punhado de multinacionais estrangeiras que retiram toneladas de um mineral estratégico deixando, para trás, muito pouco além de promessas. É essa a outra face do chamado ouro branco, extraído de Jujuy, Salta e Catamarca, as três províncias que compõem o vértice argentino do Triângulo do Lítio — a região que, junto ao sul da Bolívia e ao norte do Chile, concentra a maior reserva desse mineral do planeta.

O contraste é gritante. De um lado, cifras bilionárias de investimento, dezenas de projetos anunciados, ministros que recebem executivos estrangeiros em reuniões protocolares, e projeções oficiais que sonham em transformar a Argentina na segunda maior produtora mundial de lítio na próxima década. Do outro, rios que desaparecem do mapa, comunidades que bloqueiam estradas para serem ouvidas, e um modelo de negócio no qual o Estado argentino, historicamente, ficou com uma fração mínima da riqueza gerada — enquanto quem paga o custo real, em água e em território, são as populações que habitam esses salares há séculos.

Um recurso que não é de ninguém — e de todos ao mesmo tempo

A concentração de lítio no norte argentino tem uma explicação geológica. Ao longo de milhões de anos, o soerguimento da Cordilheira dos Andes criou bacias fechadas de grande altitude, sem escoamento para o mar. Nelas, antigos lagos alimentados por chuvas escassas e degelos acumularam minerais liberados por rochas vulcânicas, entre eles o lítio. A aridez extrema da região — com evaporação muito superior à precipitação — fez o resto: os lagos secaram por completo, concentrando sais e metais em salmouras riquíssimas, hoje escondidas sob a crosta branca dos salares.

É essa mesma aridez, porém, que transforma a exploração do lítio em uma ameaça direta à sobrevivência de quem vive na região. A Puna é, por definição, um território de escassez hídrica extrema, de modo que bombear grandes volumes de salmoura de um ecossistema que já opera no limite da disponibilidade de água é um problema. E é justamente esse ponto que a indústria, por décadas, tratou como incidental.

Sob a legislação vigente, a exploração e a comercialização do lítio argentino permanecem quase inteiramente nas mãos de empresas transnacionais — australianas, chinesas, canadenses, britânicas, francesas, sul-coreanas e norte-americanas —, com participação mínima do Estado nacional na cadeia de valor. Não existe, até hoje, uma política federal específica de regulação do setor: o lítio é tratado sob o mesmo Código de Mineração genérico que rege qualquer outro mineral, elaborado décadas antes de o metal se tornar estratégico para baterias e veículos elétricos. As províncias, donas constitucionais dos recursos naturais em seu território, outorgam concessões e recebem, em troca, regalias que historicamente não ultrapassam 3% do valor de boca de mina — uma fração considerada ínfima diante dos lucros que a atividade gera para as companhias estrangeiras.

Para contornar essa limitação, Jujuy, Salta e Catamarca criaram empresas mineiras estatais próprias — respectivamente JEMSE, REMSa e CAMYEN —, que se tornam sócias minoritárias dos projetos, com participações que raramente superam 8% ou 9% do capital. É uma engenharia que permite às províncias capturar uma fatia adicional dos resultados, mas que também deixa claro quem, de fato, controla a exploração: capitais estrangeiros seguem sendo donos absolutos da esmagadora maioria dos projetos, decidindo ritmo de extração, tecnologia empregada e destino da produção — majoritariamente exportada em estado bruto, como carbonato de lítio, sem qualquer industrialização em território nacional.

O rio que a mineração fez desaparecer

Se existe um símbolo do custo ambiental dessa exploração, ele tem nome e está seco: o rio Trapiche, no Salar del Hombre Muerto, na fronteira entre Salta e Catamarca. Ali opera, desde o fim dos anos 1990, o projeto Fénix — a mina de lítio mais antiga da Argentina, hoje sob controle do gigante britânico-australiano Rio Tinto, depois de passar pelas mãos da norte-americana FMC, da Livent e da Arcadium Lithium.

Há poucos anos, o Trapiche se estendia por sete quilômetros e sustentava um ecossistema vivo: pastagens, vicunhas, pumas, gatos-andinos e três espécies de flamingos. Hoje, o que resta é uma planície seca, marcada por manchas escuras de vegetação morta. A empresa responsável construiu uma barreira exatamente no ponto em que o rio deixa de correr, de onde a água remanescente é captada e conduzida por tubulações até a mina — uma imagem que resume, de forma quase literal, a lógica extrativa: captar tudo o que resta antes que desapareça de vez. Em trechos mais a montante, o leito do rio foi revestido com material plástico para reduzir infiltração e evaporação, uma intervenção que biólogos independentes classificam como uma alteração grave para a vida aquática e para as redes alimentares locais, além de gerar contaminação por microplásticos em um curso d’água do qual animais silvestres ainda dependem para beber.

A empresa nunca negou os impactos, mas insistiu, em seus próprios relatórios de sustentabilidade, que os efeitos seriam reversíveis, com uma recuperação estimada em dez anos após a eventual interrupção da mineração — um prazo que soa como um cheque em branco para décadas de exploração ininterrupta. A justificativa corporativa de sempre também apareceu: a região seria praticamente desabitada, sem alternativas econômicas devido à altitude e ao clima hostil. É um argumento que ignora deliberadamente quem, de fato, vive ali.

O caso mais emblemático é o da família Condorí, que vivia às margens do vale criando ovelhas e lhamas: hoje restam apenas oito dos trezentos animais que possuíam antes, reduzidos pela escassez de água e pastagem — um processo que, na prática, empurra famílias inteiras para fora de suas próprias terras.

A pressão da comunidade produziu, em março de 2024, a primeira vitória concreta: o Tribunal de Justiça de Catamarca determinou a suspensão de novas licenças de mineração na área do rio Los Patos — outro curso d’água que alimenta o mesmo salar e ainda mantém um fluxo significativo, usado por vicunhas e flamingos — até que um estudo de impacto ambiental completo e abrangente fosse realizado. Foi a Justiça reconhecendo, ainda que tardiamente, o que as comunidades já denunciavam havia anos: que a mineração de lítio havia, de fato, afetado o regime hídrico da região.

Mesmo assim, o otimismo, assim como a água, é escasso entre quem vive ali.

Uma sede que se mede em milhões de litros

O que está em jogo, tecnicamente, é o seguinte: extrair lítio de salmoura significa bombear, de forma contínua, um fluido com concentração salina muito superior à da água do mar — inútil para consumo humano ou irrigação, mas fundamental para o equilíbrio hídrico dos salares e de tudo o que vive ao seu redor. Estimativas usadas por organizações ambientais apontam para algo em torno de dois milhões de litros de água consumidos por tonelada de lítio extraída, um volume monumental em uma das regiões mais áridas do planeta.

Com a tecnologia de evaporação em poços, ainda predominante na indústria, apenas entre metade e pouco mais de dois terços do lítio contido na salmoura é efetivamente recuperado — o que significa, na prática, que a mesma quantidade de água extraída do subsolo poderia render mais mineral se a indústria investisse em eficiência, algo que segue sendo tratado como secundário diante da pressa por escalar a produção. Cientistas ligadas a centros de pesquisa argentinos, como o CIDMEJU do Conicet em Jujuy, insistem que o monitoramento constante dos níveis de rios, arroios e água subterrânea deveria ser condição inegociável para qualquer expansão — e que a indústria precisaria estar preparada para reduzir o bombeamento sempre que os indicadores hídricos exigissem. Na prática, esse tipo de controle rigoroso segue sendo exceção, não regra.

O padrão se repete além das fronteiras argentinas: no Chile, pesquisadores já registraram afundamentos de até dois centímetros em áreas do Salar de Atacama, atribuídos ao esgotamento das águas subterrâneas provocado pela extração de lítio. É um sinal do que pode acontecer em escala ainda maior na Puna argentina, à medida que dezenas de novos projetos avancem da fase de exploração para a produção efetiva.

Território sem título, futuro sem garantias

A crise hídrica não é o único front de disputa. Em Jujuy, a tensão territorial explodiu com força em 2023, quando o governo provincial aprovou uma reforma constitucional que, entre outras mudanças, restringiu o direito de protesto e alterou regras relacionadas à posse da terra — justamente no momento em que o interesse internacional pelo lítio da região atingia seu pico.

Para centenas de comunidades indígenas que habitam essas montanhas havia séculos, muito antes da chegada dos colonizadores espanhóis, a reforma representou uma ameaça concreta e imediata. Grande parte dessas famílias nunca teve acesso a títulos de propriedade formais: seus direitos sobre a terra foram transmitidos por gerações através de acordos verbais, sem registro em cartório.

A reação das comunidades foi organizar bloqueios de estradas que se estenderam por meses, reunindo desde jovens adolescentes até anciãs que já haviam participado de mobilizações décadas atrás. A repressão policial deixou marcas: manifestantes atingidos por balas de borracha, entre eles moradoras que sofreram ferimentos graves nos olhos durante os confrontos. Mesmo diante da violência, os grupos indígenas mantiveram a ocupação, argumentando que o território é deles e que o lítio, portanto, também é.

A insatisfação com as respostas do governo provincial levou, em 2023, à organização de uma marcha até Buenos Aires — batizada de Malón de la Paz, em referência direta a mobilizações indígenas homônimas realizadas em 1946 e 2006 —, na tentativa de que o governo nacional finalmente ouvisse suas reivindicações. Jovens como Milagros Lamas, de dezenove anos, discursaram durante o trajeto reforçando que a luta não se resume à posse da terra, mas à denúncia mais ampla de que a mineração degrada a biodiversidade e agrava a crise climática.

Representantes do setor mineiro argumentam que a atividade gera empregos e capacitação profissional para as populações locais, e destacam esforços crescentes das empresas para operar suas plantas com energia solar em vez de combustíveis fósseis. Mas mesmo vozes ligadas diretamente à indústria já reconheceram publicamente que o setor precisa comunicar-se muito melhor com as comunidades para reduzir a desconfiança acumulada — um eufemismo para o fato de que, durante anos, a informação simplesmente não chegou a quem mais sofreria os impactos.

Ganhos concentrados, riscos socializados

O modelo argentino de exploração litífera segue uma lógica que se repete em praticamente todos os projetos: empresas estrangeiras concentram a propriedade e o controle operacional, capturam a maior parte do valor gerado e exportam o mineral quase inteiramente bruto — carbonato e cloreto de lítio, sem qualquer etapa de industrialização relevante em território nacional. Enquanto isso, quem arca com os custos ambientais e sociais são as comunidades locais, que raramente participam das decisões sobre ritmo de extração ou uso da água, e que seguem recebendo, na melhor das hipóteses, empregos precários e promessas de desenvolvimento que tardam a se concretizar.

O novo Regime de Incentivo para Grandes Investimentos, lançado pelo governo federal para atrair capital estrangeiro, acelerou ainda mais esse padrão: em seu primeiro ano, recebeu 22 projetos somando mais de 35 bilhões de dólares, dos quais quase dois terços vinculados à mineração — mas sem qualquer contrapartida adicional voltada à proteção hídrica ou territorial das comunidades afetadas. Projetos como a ampliação do Rincón, da Rio Tinto, ou de Hombre Muerto Oeste, da Galan Lithium, avançam amparados por benefícios fiscais e aduaneiros, enquanto o marco regulatório ambiental permanece, na prática, o mesmo de décadas atrás.

O movimento não se limita aos grandes conglomerados já consolidados. Governos provinciais seguem ativamente cortejando novas empresas exploradoras para ampliar ainda mais o número de licenças concedidas. Em Salta, por exemplo, o Ministério de Produção e Mineração recebeu recentemente representantes da Tierra Exploração S.A. para avaliar o avanço de campanhas de prospecção nos salares de Arizaro e Pocitos — companhia que já acumula mais de setenta licenças mineiras no norte argentino. Encontros como esse, cada vez mais frequentes, mostram que o apetite institucional por atrair investimento segue crescendo no mesmo ritmo — ou mais rápido — do que a capacidade do Estado de regular seus impactos.

Enquanto isso, tentativas de reverter esse padrão de dependência esbarram em obstáculos estruturais. Projetos de lei que buscaram declarar o lítio recurso estratégico de interesse público nacional, dando ao Estado prioridade de compra sobre o mineral extraído, foram rapidamente rejeitados pelos próprios governadores das províncias litíferas, que os classificaram como um ataque às suas autonomias constitucionais — e também pela câmara empresarial do setor mineiro, que alertou sobre um suposto risco de fuga de investimentos. O resultado é um impasse recorrente: nem o Estado federal consegue impor um modelo de gestão soberana do recurso, nem as províncias, sozinhas, têm poder de barganha suficiente diante de multinacionais que operam em escala global.

A comparação regional só torna mais evidente a fragilidade do modelo argentino. Tanto o Chile quanto, mais recentemente, a Bolívia trataram o lítio como recurso estratégico sob forte controle estatal havia décadas, com participação direta de empresas públicas nos contratos de exploração e exigências de que parte do processamento ocorra em território nacional. No Chile, os contratos mais recentes garantem ao Estado uma renda que gira em torno de 40% dos resultados, além de reservar parte da produção a preços preferenciais para empresas que industrializem localmente. Na Argentina, nada equivalente existe: o lítio segue regido pelas mesmas regras genéricas aplicadas a qualquer mineral, e apenas Jujuy, isoladamente, chegou a declará-lo recurso estratégico provincial, em 2011 — uma medida simbólica que não alterou substancialmente a distribuição de poder entre Estado e empresas.

O que resta, quando a água se vai

No fim, a pergunta que atravessa toda essa história é simples de formular e difícil de responder: quem, de fato, está se beneficiando do boom do lítio no norte argentino? Não são as famílias que viram seus rebanhos reduzidos a uma fração do que tinham. Não são as comunidades sem título de propriedade, hoje ameaçadas de despejo justamente nas áreas onde o mineral é mais abundante. Não são os rios que secaram, levando junto vicunhas, flamingos e ecossistemas inteiros que não voltarão em uma década, como prometem os relatórios corporativos.

Os ganhos concretos, mensuráveis em bilhões de dólares de investimento e exportação, seguem concentrados em conglomerados estrangeiros e, em menor medida, nos cofres provinciais — enquanto o custo, medido em litros de água que não voltam, em territórios disputados e em modos de vida tradicionais empurrados para a extinção, recai quase inteiramente sobre quem menos tem poder de decisão sobre o próprio destino.

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