O Banco Central do Paraguai (BCP) iniciou, em 3 de novembro, um procedimento de resolução do Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras do país. Com mais de 3 milhões de clientes e presença em mais de 65% da população adulta paraguaia, o banco ocupa uma posição relevante no sistema financeiro local. A decisão foi tomada após a identificação de problemas nos indicadores de solvência e liquidez, além de irregularidades em operações de crédito envolvendo empresas relacionadas ao grupo empresarial que controla a instituição.
A intervenção não significa que todos os depósitos foram perdidos ou que a instituição tenha sido formalmente declarada falida. Trata-se de um mecanismo previsto na legislação paraguaia para administrar a crise, levantar os ativos e as dívidas do banco e definir como seus compromissos serão cumpridos. O objetivo imediato é proteger os depositantes e evitar que a situação financeira da instituição se agrave.
Empréstimos a empresas do próprio grupo estão no centro da investigação
Uma das principais questões identificadas pelo Banco Central envolve empréstimos concedidos a empresas com possíveis vínculos com o Grupo Vázquez, conglomerado empresarial responsável pelo Ueno. A legislação bancária estabelece limites para operações de crédito com empresas relacionadas aos controladores, justamente para impedir que os recursos depositados pelos clientes sejam utilizados para financiar negócios dos próprios proprietários da instituição.
Segundo informações divulgadas pelo BCP, a fiscalização encontrou problemas na documentação dessas operações e dificuldades para identificar os vínculos entre as empresas beneficiadas e o grupo controlador. Também foram identificadas fragilidades nos indicadores financeiros do banco, que contribuíram para a decisão de iniciar o procedimento de resolução.
Por que o dinheiro da previdência paraguaia está envolvido?
Outro ponto importante é a exposição do Instituto de Previsión Social (IPS), entidade pública responsável pela administração de parte do sistema previdenciário do Paraguai. O instituto mantém investimentos em bancos por meio de instrumentos financeiros chamados Certificados de Depósito de Ahorro (CDA), semelhantes a aplicações em certificados de depósito bancário (CDBs) no Brasil.
Uma investigação publicada pelo jornal paraguaio ABC Color identificou que os recursos do IPS mantidos no Ueno cresceram significativamente nos últimos anos. O levantamento também apontou coincidências entre períodos de entrada de dinheiro público no banco e a concessão de empréstimos a empresas relacionadas ao Grupo Vázquez.
As movimentações levantaram suspeitas sobre a possível utilização de recursos públicos no financiamento de empresas do conglomerado. Entretanto, a coincidência entre valores e datas não comprova, por si só, que os depósitos do instituto tenham sido diretamente direcionados a essas operações. A origem e o destino dos recursos ainda precisam ser esclarecidos pelas investigações.
O que acontece com o dinheiro dos clientes?
Assim como o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) brasileiro, o Paraguai possui um mecanismo de proteção aos depositantes, chamado Fundo de Garantia de Depósitos (FGD). No caso do Ueno, a cobertura pode chegar a G. 228,3 milhões por pessoa ou empresa, considerando o conjunto de contas mantidas na instituição.
Os valores que ultrapassarem esse limite não estão automaticamente garantidos, mas também não são considerados perdidos. Sua recuperação dependerá do levantamento dos ativos do banco, incluindo empréstimos a receber, investimentos e propriedades.
Em 3 de novembro, o Banco Central anunciou que os clientes receberão inicialmente até G. 10 milhões, enquanto o pagamento dos valores restantes, respeitado o limite da garantia, seguirá um calendário a ser divulgado. As operações do banco, incluindo saques, transferências e serviços de cartão, permanecem suspensas durante o processo.
Uma crise que ultrapassa o setor bancário
O caso também ganhou repercussão política por envolver recursos previdenciários e relações empresariais de integrantes do grupo controlador. Além disso, Carlos Carvallo, que presidia o Banco Central no momento da intervenção, já havia ocupado anteriormente a presidência do Ueno. Ele deixou o comando da autoridade monetária em meio aos questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse.
O Ministério Público paraguaio também iniciou uma investigação criminal para apurar as operações financeiras e eventuais responsabilidades. Até o momento, as suspeitas ainda dependem de apuração e não representam uma condenação dos envolvidos.
O Banco Central sustenta que o problema está concentrado no Ueno e não representa uma crise generalizada do sistema bancário paraguaio. Ainda assim, a resolução da instituição deverá esclarecer não apenas quanto os clientes e o IPS poderão recuperar, mas também como foram concedidos os empréstimos investigados e por que os mecanismos de fiscalização não impediram a deterioração financeira do banco.
