A eleição brasileira de 2026 acontece em um momento em que a América Latina já mudou de cor política várias vezes em menos de duas décadas. O continente que, nos anos 2000, elegeu uma sequência de presidentes de esquerda e centro-esquerda agora tem governos de direita em boa parte de seus maiores países. Argentina, Chile, Colômbia e Peru são alguns dos exemplos mais recentes. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta permanecer no poder diante de Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, enquanto o Congresso eleito em 4 de outubro produziu uma maioria ainda mais inclinada à direita.
O resultado brasileiro, portanto, não será apenas uma decisão sobre quem governará a maior economia e o país mais populoso da América Latina. Será também um dos últimos capítulos de uma disputa regional que começou a se desenhar muito antes de 2026: primeiro com a ascensão das esquerdas nos anos 2000, depois com a reação conservadora que ganhou força a partir da segunda metade da década de 2010 e, agora, com uma direita que chega ao poder em diferentes países por caminhos diferentes.
Na primeira rodada da eleição brasileira, Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, com cerca de 47% dos votos contra 45% do presidente. O segundo turno está marcado para 25 de outubro. Ao mesmo tempo, o Partido Liberal, legenda de Bolsonaro, praticamente dobrou sua representação no Senado, passando de 15 para 28 cadeiras, e tornou-se a maior força individual também na Câmara. O resultado significa que, mesmo se Lula for reeleito, ele encontrará um Congresso muito mais à direita do que o que recebeu em 2023.
A pergunta que interessa à América Latina é, portanto, maior do que “Lula ou Flávio?”. Que tipo de região sairá dessa eleição?
Quando o Brasil ajudou a puxar a América Latina para a esquerda
Para entender o peso dessa escolha, é preciso voltar aos anos 2000. Lula não foi apenas mais um presidente de esquerda eleito em uma América Latina que começava a rejeitar o modelo neoliberal predominante nas décadas anteriores. Sua chegada ao Palácio do Planalto, em 2003, aconteceu dentro de uma transformação regional que produziu uma convergência política inédita.
Hugo Chávez já estava na Presidência da Venezuela desde 1999. Néstor Kirchner chegou ao poder na Argentina em 2003. Evo Morales venceu na Bolívia em 2005. Michelle Bachelet assumiu o Chile em 2006. Rafael Correa chegou ao governo do Equador no mesmo ano. Fernando Lugo, no Paraguai, e outros presidentes de esquerda ou centro-esquerda completariam esse mapa nos anos seguintes. Cristina Fernández de Kirchner sucederia o marido na Argentina em 2007, enquanto José Mujica chegaria à Presidência do Uruguai em 2010.
Não eram governos iguais. Chávez e Lula tinham projetos muito diferentes; Morales e Bachelet também. Havia divergências sobre economia, democracia, política externa e o papel do Estado. Mas existia uma convergência suficiente para que a região experimentasse algo que havia sido raro em sua história: uma sequência de governos dispostos a conversar entre si a partir de uma posição de maior autonomia em relação aos Estados Unidos.
A literatura sobre a chamada “onda rosa” identifica justamente esse período como um momento de expansão do regionalismo latino-americano. A convergência ideológica facilitou a criação ou revitalização de instituições como Unasul, Alba e Celac e alterou a agenda de organizações já existentes, como o Mercosul. Não era apenas uma questão de presidentes que compartilhavam posições políticas. A integração passou a incluir dimensões políticas, sociais e de coordenação diplomática que iam além do comércio.
A Unasul talvez seja o melhor símbolo desse período. Criada em 2008, a organização reuniu os países sul-americanos em torno de uma tentativa de construir mecanismos próprios de diálogo político. Durante seus primeiros anos, nomes como Lula, Chávez, Evo Morales, Rafael Correa, Néstor Kirchner e Cristina Fernández de Kirchner exerciam enorme influência simultaneamente. A cooperação não dependia apenas de instituições permanentes: funcionava também por meio de uma forte diplomacia presidencial, em que os próprios líderes eram peças centrais da articulação regional.
Isso produziu resultados políticos concretos. A América do Sul passou a ter canais próprios para discutir crises internas, infraestrutura, energia, defesa e integração. O Brasil, por seu tamanho econômico e demográfico, tinha um papel particularmente importante nesse processo, e havia algo que hoje parece muito mais raro: uma massa crítica de governos interessados em construir uma agenda regional simultaneamente. Quando Brasília defendia a integração sul-americana, outros governos tinham um incentivo para participar, e priorizar as relações Sul-Sul, abria espaço para outros países ampliarem suas próprias margens de negociação.
Mas Lula também tinha uma característica incomum para a política latino-americana daquele período: conseguia transitar simultaneamente entre governos ideologicamente diferentes, grandes empresas, movimentos sociais e potências internacionais. Seu governo manteve relações próximas com Washington e, ao mesmo tempo, ampliou a relação com China, África e outras economias emergentes.
Essa posição permitiu ao Brasil desempenhar uma espécie de papel de ponte. Em vez de apresentar a integração regional como uma escolha entre Estados Unidos e América Latina, a diplomacia brasileira procurava ampliar o espaço de negociação.
Foi nesse contexto que o país ganhou protagonismo na criação do G20 comercial, fortaleceu relações com países emergentes e participou da construção do BRICS. Na América do Sul, a diplomacia de Lula também ajudou a transformar o Brasil em um interlocutor central em crises políticas e negociações regionais.
A própria política externa de Lula em seu terceiro mandato recuperou parte dessa tradição. Desde 2023, o governo tentou reativar a Unasul, fortalecer o Mercosul, ampliar relações com países asiáticos e recuperar a ideia de uma América Latina capaz de formular posições próprias. A assinatura do acordo Mercosul-União Europeia, concluído após décadas de negociação e aprovado pelo Congresso brasileiro em 2026, é um exemplo dessa tentativa de diversificação.
Esse modelo enfrenta agora um ambiente muito diferente.
A região que Lula ajudou a coordenar já não existe
A partir da metade da década de 2010, a convergência política começou a se desfazer. Governos de esquerda perderam eleições, crises econômicas desgastaram presidentes e a insatisfação com partidos tradicionais cresceu.
A própria América Latina entrou em um ciclo de alternância acelerada. A direita voltou ao poder em alguns países, a esquerda reagiu em outros, e a política passou a funcionar cada vez mais como uma sucessão de votos de punição.
O Brasil foi um dos casos mais importantes dessa ruptura. Em 2018, Jair Bolsonaro venceu a eleição presidencial com uma plataforma de extrema direita, discurso fortemente antissistema, conservadorismo nos costumes, retórica de segurança pública e uma relação política cada vez mais próxima da agenda de Donald Trump. A eleição brasileira foi observada como um acontecimento regional justamente porque ocorreu no maior país da América Latina e demonstrou que uma direita que antes ocupava uma posição periférica podia chegar ao centro do poder.
Bolsonaro não foi simplesmente uma reprodução brasileira de Trump. O fenômeno tinha raízes próprias: a crise econômica, o desgaste do PT, os escândalos de corrupção, a Operação Lava Jato, o antipetismo, a violência urbana e o crescimento político das igrejas evangélicas. Mas a vitória brasileira fazia parte de uma transformação internacional na qual movimentos conservadores começaram a utilizar redes sociais, discursos anti-establishment e pautas culturais para mobilizar eleitores.
A eleição de 2018 também mostrou que o Brasil poderia funcionar como laboratório político para o restante da região. A estratégia digital de Bolsonaro, especialmente o uso de WhatsApp, tornou-se objeto de estudos sobre como campanhas de direita poderiam combinar comunicação direta, desconfiança das instituições e mobilização de bases altamente engajadas.
Quatro anos depois, Lula derrotou Bolsonaro por uma margem mínima: 50,9% contra 49,1%.
Aquela eleição teve um peso simbólico que ultrapassava o resultado brasileiro. Depois de anos de avanço de governos conservadores e de uma escalada de discursos autoritários em diferentes partes do continente, a vitória de Lula foi interpretada como uma possibilidade de reconstrução de uma esquerda regional.
Por alguns meses, parecia possível que a América Latina estivesse iniciando uma nova “onda rosa”, mas essa leitura durou pouco.
A segunda onda rosa não conseguiu se transformar em bloco
Entre 2018 e 2024, vários países voltaram a eleger governos de esquerda ou centro-esquerda. México, Argentina, Chile, Colômbia, Brasil, Honduras e outros países produziram um mapa que, novamente, parecia favorecer a esquerda.
Mas havia uma diferença fundamental em relação aos anos 2000: na primeira onda, existia uma convergência relativamente forte entre governos que haviam chegado ao poder após o desgaste de um mesmo modelo econômico e que compartilhavam uma agenda de integração regional. Na segunda, as esquerdas chegaram ao poder em contextos muito diferentes, com sociedades mais polarizadas e instituições regionais mais enfraquecidas.
Gustavo Petro na Colômbia, Gabriel Boric no Chile, Lula no Brasil e Andrés Manuel López Obrador no México não formavam um bloco político comparável ao ambiente dos anos 2000. Tinham prioridades diferentes, relações diferentes com os Estados Unidos e níveis muito distintos de apoio interno.
Além disso, a situação econômica já não era a mesma. A China havia se tornado uma potência comercial indispensável para a região. A dependência das commodities permanecia. A pandemia havia aprofundado desigualdades. A criminalidade organizada havia se expandido. E a inflação voltou a ocupar o centro da preocupação dos eleitores.
A esquerda passou a governar sob uma condição particularmente difícil: precisava responder simultaneamente a problemas estruturais e a uma sociedade muito mais impaciente.
Foi nesse ambiente que a direita encontrou uma nova oportunidade.
A América Latina de 2026 virou à direita — mas não de uma só maneira
O mapa político atual é impressionante. Javier Milei transformou a Argentina em um dos principais laboratórios da direita libertária. José Antonio Kast chegou à Presidência do Chile defendendo uma agenda nacional-conservadora e de segurança. Abelardo de la Espriella venceu na Colômbia em uma eleição apertada, deslocando para a direita um país que havia eleito Gustavo Petro apenas quatro anos antes. No Peru, Keiko Fujimori finalmente conseguiu vencer uma eleição presidencial depois de três derrotas anteriores.
Somados a outros governos conservadores, esses resultados fizeram com que a direita passasse a ocupar uma posição dominante em boa parte do continente. A BBC descreveu o cenário de 2026 como uma mudança significativa no mapa de poder regional; o país de Abelardo de la Espriella e a vitória apertada de Keiko são parte desse movimento.
Mas chamar tudo isso simplesmente de “onda de extrema direita” pode esconder mais do que explicar. A direita de Milei não é a mesma de Kast. Kast não é Bolsonaro. Keiko possui uma trajetória própria, ligada ao fujimorismo e à história política peruana. De la Espriella chegou ao poder como outsider em uma campanha marcada por segurança e discurso antipolítico.
O que os aproxima é menos um programa econômico idêntico e mais uma capacidade de transformar algumas ansiedades comuns em capital eleitoral.
A primeira é a segurança. Em diferentes países, o crescimento do crime organizado transformou a violência em uma das principais preocupações dos eleitores. A América Latina continua sendo uma das regiões mais violentas do mundo, e organizações criminosas passaram a ter presença mais sofisticada em territórios onde antes não possuíam esse nível de controle.
A segunda é a rejeição às elites políticas tradicionais. Milei fez disso uma bandeira central na Argentina. Bolsonaro utilizou a mesma lógica no Brasil. De la Espriella construiu parte de sua campanha colombiana sobre a imagem de alguém vindo de fora da política tradicional. A mensagem é simples: os partidos tradicionais governaram, falharam e, portanto, precisam ser substituídos.
A terceira é a frustração econômica. Mesmo quando indicadores macroeconômicos melhoram, isso não significa necessariamente que o eleitor perceba sua vida como melhor. Emprego, renda, custo de vida, endividamento e acesso a serviços públicos continuam pesando muito mais no voto do que indicadores abstratos de crescimento.
A própria análise do CIDOB sobre a guinada de 2026 chama atenção para esse ponto: a direita latino-americana não é homogênea, e seus avanços combinam voto de punição contra governos percebidos como incapazes com a centralidade crescente da segurança e do discurso de endurecimento penal.
Há, portanto, uma ironia no cenário atual. A direita está vencendo em muitos lugares, mas não necessariamente porque os latino-americanos tenham se tornado ideologicamente de direita. Muitas vezes, eles estão votando contra quem estava no poder e influenciados pela alta propaganda que causa o pânico moral e ideológico, fomentado pelos algoritmos de redes sociais.
Keiko, Kast, De la Espriella e Milei não são quatro versões do mesmo fenômeno
No Peru, a vitória de Keiko Fujimori representa uma situação particularmente complexa. Sua trajetória está ligada diretamente ao legado de Alberto Fujimori, um dos personagens mais controversos da história política latino-americana recente. Sua quarta tentativa de chegar à Presidência terminou em vitória em 2026, depois de uma sequência de derrotas eleitorais.
No Chile, a ascensão de José Antonio Kast acontece em uma sociedade que passou por uma sequência extraordinária de crises políticas: protestos de 2019, processo constitucional fracassado, mudança de governo e frustração com projetos tanto à esquerda quanto ao centro. Kast representa uma direita nacional-conservadora que conseguiu capitalizar especialmente as preocupações com segurança e imigração.
Na Colômbia, o resultado de Abelardo de la Espriella tem outro significado. O país havia feito uma mudança histórica ao eleger Gustavo Petro, seu primeiro presidente de esquerda. Quatro anos depois, a direita voltou ao poder em uma disputa extremamente apertada. A eleição não demonstrou simplesmente que a Colômbia “deixou de ser de esquerda”: demonstrou a velocidade com que um eleitorado pode punir um governo quando segurança, economia e avaliação de desempenho passam a dominar a agenda. A margem inferior a 1% entre De la Espriella e Iván Cepeda reforça essa leitura de um país profundamente dividido.
A Argentina é outro caso. Javier Milei não chegou ao poder como uma direita tradicional. Sua proposta é muito mais radical no campo econômico: redução do Estado, desregulamentação, combate ao que chama de “casta” e uma ruptura com décadas de tradição econômica peronista. Seu governo tornou-se uma referência internacional para setores da direita que defendem uma agenda libertária.
É justamente essa variedade que torna a atual guinada latino-americana tão importante. Não existe uma Internacional de direita governando a região a partir de um único centro. Existe uma série de governos e movimentos que compartilham algumas referências, redes políticas e prioridades, mas chegam ao poder por razões nacionais específicas. O que há é uma inspiração em Jair Bolsonaro. Se ele conseguia chegar à presidência de um país de tanta importância na região como o Brasil, por que não seus respectivos ultra-direitistas de cada nação também não poderiam subir ao poder?
E existe uma figura externa que aproxima todos eles: Donald Trump.
Trump mudou o cálculo geopolítico
A volta de Trump à Casa Branca modificou o ambiente no qual esses governos operam.
Durante o primeiro governo Trump, sua influência sobre a política latino-americana já havia fortalecido setores conservadores. Depois da vitória republicana de 2024, a relação entre Washington e os governos da região ganhou uma dimensão ainda mais explícita de disputa por influência.
A chamada “Donroe Doctrine”, expressão utilizada para descrever uma política hemisférica mais agressiva do governo Trump, representa uma tentativa de recolocar a América Latina no centro da estratégia geopolítica dos Estados Unidos. A agenda combina combate ao narcotráfico, segurança, pressão econômica e contenção da influência chinesa. O governo americano também passou a defender uma presença mais assertiva no hemisfério.
Isso muda o significado da eleição brasileira, já que o Brasil é grande demais para simplesmente escolher um lado sem produzir consequências para os outros.
Lula tem defendido uma política externa baseada em multilateralismo, diversificação de parceiros e maior autonomia do Sul Global. Seu governo aprofundou relações com China e BRICS, tentou reativar mecanismos sul-americanos e buscou concluir o acordo Mercosul-União Europeia. Ao mesmo tempo, não rompeu com os Estados Unidos nem adotou uma política de confronto permanente com o Ocidente. Essa posição intermediária é importante justamente porque o Brasil tem relações econômicas profundas com os dois lados.
Em 2026, isso deixou de ser uma questão puramente diplomática. O governo Trump impôs tarifas adicionais de 25% sobre produtos brasileiros, atingindo uma parcela significativa das exportações do país para os Estados Unidos. Brasília passou a negociar uma redução das tarifas enquanto também considerava respostas comerciais e jurídicas.
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro representaria, portanto, mais do que uma troca de presidente. Significaria uma mudança potencial na posição do maior país latino-americano diante de Washington.
Flávio se apresenta como aliado de Trump, enquanto Lula acusa o governo americano de utilizar tarifas e pressão econômica para interferir na política brasileira. Reuters também aponta que uma eventual presidência de Flávio provavelmente aproximaria Brasília de Washington. A questão é que a direção da política externa brasileira mudaria em um momento em que o espaço geopolítico da América Latina está sendo disputado com muito mais intensidade. Qual realmente é o interesse dos EUA na região?
O que está em jogo não é apenas a esquerda brasileira
É aqui que a eleição brasileira ganha uma dimensão regional, pois se Lula vencer, o Brasil continuará sendo um dos poucos grandes países latino-americanos governados pela esquerda. Isso não significaria o retorno automático da América Latina dos anos 2000, mas haveria uma diferença importante: o maior país da região continuaria oferecendo um contraponto político e diplomático à nova maioria de direita.
Lula poderia continuar defendendo Mercosul, relações com China e União Europeia, BRICS, cooperação sul-americana e uma política externa menos subordinada à agenda de Washington. O Brasil permaneceria como um polo de negociação entre diferentes blocos. Isso seria especialmente relevante em uma América Latina cada vez mais fragmentada.
De outro lado, uma vitória de Flávio Bolsonaro produziria um efeito político igualmente importante. Pela primeira vez desde 2002, o Brasil poderia ser governado por uma direita fortemente alinhada ao bolsonarismo depois de esse movimento ter consolidado uma ampla bancada no Congresso.
E essa não seria uma direita isolada. Ela encontraria governos de direita em Argentina, Chile, Peru e Colômbia, além de outros governos conservadores espalhados pela região. A convergência não seria total, mas o ambiente político seria muito diferente daquele de 2022.
O resultado do Congresso brasileiro torna essa hipótese ainda mais relevante. O Partido Liberal passou de 15 para 28 senadores, seu melhor resultado desde a redemocratização, e ampliou também sua presença na Câmara. Uma eventual Presidência de Flávio teria, portanto, uma base legislativa muito mais favorável do que Jair Bolsonaro teve em seus primeiros anos.
Isso poderia afetar temas internos, como a situação judicial de Jair Bolsonaro e seus aliados, mas também alteraria o posicionamento internacional do Brasil.
O Brasil pode voltar a ser o pêndulo da região
Há uma característica particular na política latino-americana: seus países raramente mudam isoladamente.
As ondas políticas atravessam fronteiras e o sucesso de Lula nos anos 2000 ajudou a criar um ambiente em que outros governos de esquerda encontraram espaço para cooperar. A vitória de Bolsonaro em 2018 ocorreu em um momento de fortalecimento de uma nova direita internacional. A vitória de Lula em 2022 foi parte de uma reação regional à direita que parecia estar novamente ganhando força.
Agora acontece o movimento inverso: Milei tornou-se presidente da Argentina. Kast chegou ao poder no Chile. De la Espriella levou a Colômbia novamente à direita. Keiko venceu no Peru. E o Brasil, maior país da região, pode seguir o mesmo caminho.
A sequência não prova que exista uma coordenação política entre esses governos. Mas mostra que existe uma atmosfera regional comum. É também por isso que a ideia de que cada eleição é exclusivamente nacional se torna insuficiente.
Quando um país do tamanho do Brasil muda sua política externa, isso afeta negociações comerciais, alianças diplomáticas, organizações regionais e o equilíbrio entre Estados Unidos, China e Europa. Quando o Brasil muda sua posição sobre Mercosul, a Argentina precisa reagir. Quando Brasília decide aprofundar sua relação com Pequim, os demais países sul-americanos recalculam suas próprias posições. Quando o governo brasileiro decide participar de uma articulação regional, outros países ganham incentivo para fazê-lo.
O que se perdeu desde a América Latina de Lula, Evo, Cristina e Mujica
Talvez a maior diferença entre os anos 2000 e 2026 esteja justamente aí. Naquela época, era possível encontrar ao mesmo tempo Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia, Cristina Fernández de Kirchner na Argentina e José Mujica no Uruguai. Havia também Chávez na Venezuela, Correa no Equador e Bachelet no Chile.
Esses governos tinham divergências profundas, mas existia uma linguagem política comum suficiente para sustentar uma agenda de integração.
O Brasil podia conversar com a Argentina; Argentina e Uruguai tinham interesses convergentes no Mercosul; Bolívia se aproximava de seus vizinhos por meio de energia e infraestrutura; Venezuela tentava construir sua própria arquitetura regional; e a Unasul oferecia um espaço para que presidentes discutissem crises sem depender exclusivamente de Washington ou da Organização dos Estados Americanos.
Hoje, essa coordenação é muito mais difícil. A região está ideologicamente fragmentada. Os governos têm prioridades diferentes e, em alguns casos, relações muito distintas com Estados Unidos e China. Eles não buscam mais integrar um bloco hegemônico regional, mas sim disputar por quem consegue mais atenção de Donald Trump.
A própria existência das organizações regionais foi afetada pela mudança política. A Unasul, símbolo da primeira onda de integração, entrou em uma espécie de hibernação durante os anos de predomínio da direita. A volta de Lula e Alberto Fernández em 2023 abriu uma tentativa de reativá-la, mas o projeto encontrou novamente um continente politicamente dividido. A literatura recente sobre integração latino-americana destaca justamente esse problema: quando a convergência ideológica desapareceu, organizações criadas ou fortalecidas durante a “onda rosa” passaram a enfrentar disputas, ameaças de retirada e perda de relevância.
É difícil imaginar, hoje, uma coordenação regional semelhante àquela que reunia Lula, Evo, Cristina e Mujica.
A disputa brasileira acontece também dentro da disputa entre Washington e Pequim
A China já é o principal parceiro comercial de vários países latino-americanos e possui importância extraordinária para o Brasil, especialmente nas exportações de commodities. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam sendo uma potência econômica, financeira e militar impossível de ignorar.
O Brasil tenta historicamente evitar uma escolha binária. É justamente essa posição que Lula procura preservar quando fala em multipolaridade e Sul Global. Seu governo ampliou relações com Pequim e com os BRICS, mas também negociou com Washington e trabalhou pela aproximação entre Mercosul e União Europeia. A diplomacia brasileira tenta, em outras palavras, aumentar o número de portas disponíveis.
A política de Trump dificulta esse equilíbrio. Washington está utilizando tarifas, segurança e pressão diplomática como instrumentos de política hemisférica. Ao mesmo tempo, a China tenta aprofundar sua presença econômica e política. Em julho de 2026, Xi Jinping declarou apoio a Lula diante do que chamou de interferência externa e defendeu maior coordenação entre China e Brasil, inclusive no âmbito dos BRICS e do Mercosul.
O Brasil tornou-se, portanto, um dos principais campos de disputa dessa competição. Uma mudança de governo em Brasília pode alterar não apenas a relação Brasil-Estados Unidos, mas a margem de manobra de toda a América do Sul.
Se Lula vencer, a América Latina continuará sendo majoritariamente governada pela direita, mas terá no Brasil um dos principais contrapesos a esse movimento. Brasília poderá tentar reconstruir mecanismos de cooperação e manter uma política externa baseada na diversificação de parceiros e na autonomia estratégica, além de dar esperança para que os vizinhos consigam se recuperar em suas eleições futuras.
Se Flávio Bolsonaro vencer, o Brasil se somará à corrente conservadora que já atravessou Argentina, Chile, Colômbia e Peru. E fará isso com uma particularidade: além da Presidência, o bolsonarismo terá uma das maiores bancadas parlamentares de sua história.
O Brasil não controla o destino da América Latina. Mas seu tamanho, sua economia, sua diplomacia e sua posição geopolítica fazem com que qualquer mudança em Brasília altere o espaço de possibilidades dos outros governos.
