Se você estuda espanhol e tem contato com uruguaios, já deve ter percebido: o espanhol falado no Uruguai é bem diferente do que se aprende nos livros didáticos. O país integra a chamada região rioplatense (Uruguai e Argentina), com sotaque cantado, o famoso “sheísmo” (aquele “y” e “ll” pronunciados como “j” ou “x”), conjugações próprias do voseo e, claro, um vocabulário de gírias que não aparece em nenhum manual de espanhol tradicional.
Neste guia completo, reunimos as gírias uruguaias mais usadas no dia a dia, com tradução e explicação em português, para ajudar quem estuda espanhol a realmente entender — e não só decorar regras gramaticais. Preparamos o dicionário em ordem alfabética, para facilitar a consulta rápida sempre que você precisar buscar uma expressão específica.
Por que aprender gírias uruguaias é importante para quem estuda espanhol?
A gramática formal ensina a estrutura da língua, mas é a gíria que revela a cultura e o jeito de falar real das pessoas. Quem estuda espanhol pensando em morar, visitar ou se relacionar com uruguaios percebe rápido que expressões como “nomás”, “che” ou “ta” aparecem em praticamente toda frase. Sem conhecer esse vocabulário informal, é fácil se sentir perdido numa conversa cotidiana, mesmo já tendo um bom nível de espanhol.
Dicionário de A a Z
Todas as gírias abaixo estão organizadas em ordem alfabética, para facilitar a consulta rápida sempre que você encontrar uma expressão desconhecida.
A la miércoles — um jeito quase engraçadinho de mandar alguém para longe, uma versão suavizada de um palavrão.
A llorar al cuartito — expressão usada para encerrar uma discussão de forma provocativa, algo como “vai chorar no cantinho”.
Afanar — roubar, assaltar.
Al pedo — quando algo foi feito, mas não serviu para nada, foi em vão. Também descreve estar ocioso, sem fazer nada: “estoy al pedo” = “estou à toa”.
Bajá un cambio — “se acalme”, “segure a onda”, “vá com calma”.
Bajonearse — ficar desanimado, triste, na fossa.
Bancar — apoiar alguém, ou também esperar por algo/alguém.
Birome — caneta esferográfica.
Bo — geralmente usado ao começar ou terminar uma frase de modo informal, como uma interjeição de chamada.
Botija / Botija-a — sinônimo carinhoso de menino ou menina.
Botón — forma depreciativa e informal de se referir a um policial.
Bronca — raiva, ranço, irritação.
Canchero / Canchera — pessoa com estilo, que se veste bem e tem uma certa desenvoltura.
Cebar — o ato de preparar a água quente para o mate, ritual essencial da cultura uruguaia.
Championes — tênis, calçado esportivo. Talvez uma das gírias mais curiosas do vocabulário uruguaio para quem vem do português.
Changa — pequenos trabalhos, geralmente informais e de curta duração (“fazer uma changa”).
Che — talvez a gíria rioplatense mais famosa fora do Uruguai, usada para chamar a atenção de alguém, parecido com “ei” ou “cara”.
Chiva — bicicleta.
Chorro — quando se refere a pessoa, significa ladrão (o sentido literal da palavra é “jato de água”).
Dar color a tal cosa — quando alguém conta um fato exagerando, fazendo parecer melhor do que realmente é.
Embolarse / Embole — sinônimo de ficar entediado; “que embole” quer dizer “que chato”, “que tédio”.
Empedo (estar empedo) — estar bêbado.
Estar al palo — estar totalmente dedicado e ocupado com alguma tarefa, dando prioridade máxima a ela.
Estar en el horno — estar “lascado”, em uma situação complicada ou sem solução.
Garchar — gíria vulgar para se referir a relação sexual.
Groncho — alguém vulgar, que tende a falar palavrão e tem modos considerados grosseiros.
Guacho / Guacha — forma informal (e às vezes carinhosa, às vezes provocativa, dependendo do tom) de chamar alguém jovem.
Guarango — pessoa que falta com respeito, insolente, grosseira no trato.
Guri / Gurisa — outra forma comum de se referir a crianças ou jovens.
La gran siete — forma de expressar frustração de um jeito não tão agressivo, parecido com um “putz” mais forte.
Listo el pollo, pelada la gallina — expressão usada para dizer que uma tarefa foi concluída. Muitas vezes abreviada só como “listo el pollo”.
Macana — usada quando algo não sai como esperado, dá errado. “Qué macana” equivale a “que droga” ou “que azar”.
Macanudo — dizer que alguém é “re macanudo” é dizer que é uma pessoa muito bacana, gente boa.
Mala leche — expressão mais forte, para quem age com má intenção, não apenas de forma inconveniente.
Me chupa un huevo — forma grosseira de dizer “não me importa”. Uma versão mais suave e educada seria “me importa un pepino”.
Ni a palo — equivalente direto ao “nem a pau” do português, usado para negar algo com ênfase.
Ni en pedo — “de jeito nenhum”. “No voy ni en pedo” = “não vou de jeito nenhum”.
No es soplar y hacer botella — dito quando algo não é simples ou rápido de fazer; equivalente a “não é moleza”, “não é fácil assim”.
No seas malo — expressão de cumplicidade amigável, algo como “não seja chato” ou “poxa, para com isso”, dita geralmente entre risos.
Nomás — expressão multifuncional: reforça afirmações (“dale nomás”, “así nomás”) e aparece constantemente, inclusive em contextos de torcida esportiva (“Uruguay nomás”).
Omnibus / Bondi — ônibus.
Pah / Faaa — interjeições que costumam abrir frases, muito presentes na fala cotidiana.
Pavada / Pavadas — bobagem, besteira. “No me venga con pavadas” equivale a “não me venha com conversa fiada”.
Pesado — usado para descrever alguém chato, inconveniente, difícil de aturar. “Ai, que pesado o fulano!”
Pibe / Piba — expressão típica rioplatense para se referir a alguém jovem, um rapaz ou moça.
Pila — sinônimo de “muito”, talvez até mais usado que “mucho” na fala cotidiana. Pode até aparecer em frases carinhosas: “te quiero pila”.
Quedar pegado / regalado — passar vergonha, passar mico.
Que lo tiró — usado quando algo pega de surpresa, acontece de forma inesperada.
Que no ni no — expressão dupla: pode ser um “vamos com tudo” animado, ou uma forma de dizer “não me venha com desculpas”.
Re — o superlativo clássico uruguaio, equivalente ao “muito” ou “super” do português. “Re macanudo” = muito legal.
Relajo — bagunça, desordem.
Salado — gíria camaleão: tanto pode significar literalmente “salgado” quanto ser usado, coloquialmente, para expressar surpresa boa ou ruim — parecido com o “porra” baiano, que muda de sentido conforme a entonação.
Se le fue la moto — quando alguém passa dos limites, exagera muito em uma atitude ou fala.
Ta — pode ser usado em várias situações, mas costuma ser a abreviação informal de “está” (algo como “tá” em português).
Tarado — cuidado com o falso amigo! Em português soa pesado, mas no Uruguai é usado de forma leve, como “bobo” ou “idiota” num tom amistoso, sem conotação sexual.
Tomarte el pelo — “tirar com a sua cara”, zoar alguém. “¿Me estás tomando el pelo?” = “Está brincando comigo?”
Un cacho — “um pouco”. Exemplo: “aguantá un cacho” (espere um pouco).
Vender humo — se refere à pessoa que enche linguiça, exagera, ostenta coisas que não são reais.
Vichar — olhar, espiar, de um jeito bem característico da fala local (em vez do “mirar” mais formal).
Zanguango — alguém grande, geralmente desajeitado, que atrapalha ou ocupa muito espaço.
Zarpado — usado quando algo está muito bom, incrível, surpreendente.
Como usar este dicionário para estudar espanhol de verdade
Decorar uma lista de gírias não substitui o estudo da gramática espanhola, mas complementa de forma essencial o aprendizado de quem quer realmente se comunicar como um nativo. Uma boa estratégia é:
- Aprender a gramática formal (conjugações, tempos verbais, uso do voseo característico do Rio da Prata) em paralelo com o vocabulário informal.
- Assistir a conteúdos em espanhol uruguaio (podcasts, séries, vídeos) prestando atenção em quando essas gírias aparecem.
- Praticar frases próprias usando as expressões, sempre atento ao contexto — muitas gírias mudam de sentido dependendo do tom e da situação.
O espanhol do Uruguai é rico, cantado e cheio de personalidade. Entender suas gírias é dar um passo além da gramática e se aproximar de verdade da cultura rioplatense.
