Durante séculos, diferentes partes da América Latina se especializaram em produzir aquilo que os mercados externos queriam comprar. Primeiro vieram produtos como açúcar, café e cacau, cultivados em estruturas coloniais marcadas pela concentração da terra e pelo trabalho compulsório. Depois, já no século XX, a expansão da agricultura mecanizada incorporou novas regiões e novas mercadorias, entre elas a soja. A pecuária, por sua vez, atravessou diferentes períodos históricos e permaneceu como uma das principais formas de ocupação econômica do território em países como Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.
As diferenças entre esses ciclos são grandes demais para permitir que sejam tratados como uma única história. A produção de soja do Brasil contemporâneo, baseada em mecanização, biotecnologia, crédito e logística internacional, não pode ser comparada diretamente a um engenho de açúcar do período colonial. Uma pequena propriedade cafeeira colombiana tampouco funciona da mesma maneira que uma grande fazenda brasileira de gado. Ainda assim, os quatro produtos ajudam a identificar uma característica que atravessa boa parte da história econômica latino-americana: a capacidade de transformar grandes extensões de território em áreas especializadas na produção de bens destinados a mercados que frequentemente estão fora da região.
Essa especialização continua relevante. Na safra 2025/26, o Brasil deve produzir cerca de 63 milhões de sacas de café de 60 quilos, o equivalente a 35,2% da produção mundial. A Colômbia aparece como terceiro maior produtor global, com 12,5 milhões de sacas, enquanto Honduras, Peru e México também estão entre os dez maiores produtores. No açúcar, o Brasil responde sozinho por uma parcela ainda maior do mercado: a previsão do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos é de 43,8 milhões de toneladas na safra 2025/26, 23,5% da produção mundial.
A soja pertence a uma história mais recente, mas alcançou uma escala que alterou profundamente a geografia agrícola sul-americana. A produção brasileira projetada para 2025/26 é de 176 milhões de toneladas, cultivadas em uma área estimada de 49,1 milhões de hectares. O USDA prevê exportações brasileiras de 114 milhões de toneladas e atribui parte do crescimento à expansão da capacidade portuária e à demanda chinesa. Na carne bovina, o Brasil deve produzir 12,61 milhões de toneladas no mesmo período, 20,2% da produção mundial; Argentina e México também estão entre os dez maiores produtores.
O tamanho desses números ajuda a explicar por que a agricultura de exportação continua sendo uma questão central para a região, mas não explica sozinha como ela chegou até aqui. Para entender a semelhança entre países tão diferentes, é preciso voltar aos momentos em que a produção agrícola começou a organizar o território em função do comércio externo.
O açúcar e a formação da agricultura de exportação
O açúcar ocupa uma posição particular nessa história porque foi uma das primeiras mercadorias agrícolas a organizar grandes partes das economias americanas em torno de um mercado internacional. A cana chegou ao continente com a colonização europeia, mas sua expansão ganhou escalas muito diferentes conforme cada território combinou disponibilidade de terras, acesso aos portos, capital e mão de obra. No Brasil, a produção se concentrou sobretudo no Nordeste e se estruturou em torno dos engenhos, das grandes propriedades e do trabalho escravizado. No Caribe, o mesmo produto produziu algumas das sociedades de plantation mais dependentes da escravidão do mundo atlântico. Em Cuba, Puerto Rico, Jamaica, Barbados e Saint-Domingue, a produção açucareira reorganizou terras, populações e relações de poder para atender a uma demanda que vinha principalmente da Europa.
O caso de Saint-Domingue, a atual Haiti, mostra até onde essa lógica poderia chegar. No final do século XVIII, a colônia francesa havia se tornado uma das principais economias açucareiras do Caribe, sustentada pelo trabalho de centenas de milhares de africanos escravizados. A riqueza produzida pelas plantações estava concentrada entre proprietários e comerciantes, enquanto a população escravizada constituía a maioria da sociedade. A Revolução Haitiana, iniciada em 1791, rompeu violentamente com essa estrutura: a independência de 1804 resultou de uma revolta de escravizados que derrubou a ordem colonial.
Em Cuba, o açúcar teve uma trajetória diferente. A ilha se tornou uma grande potência açucareira justamente quando outras colônias americanas já haviam conquistado a independência. Durante o século XIX, a expansão dos engenhos e dos grandes estabelecimentos açucareiros esteve diretamente ligada ao aumento do tráfico de africanos escravizados. A produção também passou por uma forte transformação tecnológica: engenhos movidos a vapor e investimentos em infraestrutura permitiram aumentar a escala da produção. A escravidão não desapareceu simplesmente porque a economia se modernizou; ela permaneceu integrada a esse processo até a abolição, em 1886.
A própria transição cubana para o trabalho livre revela como a mudança de tecnologia não significou o fim imediato das relações coercitivas. Depois da abolição, trabalhadores chineses contratados, libertos e trabalhadores assalariados passaram a compor a força de trabalho das plantações. A economia açucareira continuou, portanto, dependendo de uma grande quantidade de trabalhadores submetidos a diferentes formas de desigualdade e controle. Ao mesmo tempo, a crescente necessidade de capital e maquinaria aproximou ainda mais a produção cubana de investidores e mercados estrangeiros. No final do século XIX, a economia açucareira já estava fortemente vinculada aos Estados Unidos; em 1894, quase 90% das exportações cubanas tinham esse destino.
Puerto Rico oferece outro exemplo de como açúcar, terra e poder se combinaram. A produção açucareira ganhou força especialmente no século XIX, e regiões como Ponce se transformaram em áreas de grandes propriedades e engenhos. A atividade estava ligada ao trabalho escravizado e à formação de uma elite de proprietários e comerciantes. Estudos sobre a economia açucareira de Ponce mostram justamente a relação entre plantation, escravidão, comércio e formação dessa elite. Após a abolição, a estrutura econômica não desapareceu: mudou a composição da mão de obra e a forma de organização das empresas, mas a concentração de terras e o peso político e econômico dos grandes produtores continuaram sendo questões centrais. No início do século XX, companhias norte-americanas passaram a ter participação importante na indústria açucareira de Puerto Rico e da República Dominicana, mostrando outra transformação do modelo: a antiga plantation colonial foi sendo incorporada a empresas capitalizadas e cadeias agroindustriais cada vez mais concentradas.
Na República Dominicana, o açúcar também atravessou diferentes períodos históricos. A cana havia sido introduzida pelos espanhóis ainda no século XVI e utilizou inicialmente mão de obra indígena submetida à exploração e, posteriormente, trabalhadores africanos escravizados. Séculos depois, a produção voltou a ganhar importância com a expansão dos grandes engenhos. No início do século XX, empresas estrangeiras passaram a controlar parcelas importantes da produção e do processamento: a South Porto Rico Sugar Company, por exemplo, operou tanto em Puerto Rico quanto na República Dominicana. A experiência dominicana mostra uma continuidade particularmente interessante para esta história: a produção permaneceu orientada para o mercado externo, mas o agente que controlava a cadeia mudou, passando dos proprietários coloniais para empresas agroindustriais e capitais estrangeiros.
O México apresenta uma trajetória diferente e ajuda a evitar que a comparação fique restrita ao Caribe. A cana foi introduzida ainda no período colonial e se espalhou por diferentes regiões, onde assumiu formas produtivas ligadas às haciendas e aos engenhos. Ao longo do século XX, a atividade passou por processos de modernização, intervenção estatal e reorganização industrial. A produção mexicana continua relevante no mercado regional e internacional, mas sua importância econômica e territorial não alcançou a mesma centralidade que o açúcar adquiriu em Cuba, no Caribe britânico ou no Brasil colonial. A própria diferença é importante: uma mesma commodity pode ocupar posições muito distintas dentro da estrutura econômica de cada país.
O Brasil também precisa ser recolocado nesse conjunto. A cana brasileira atravessou uma transformação enorme desde os engenhos coloniais: incorporou trabalho livre, mecanização, pesquisa agrícola, grandes usinas e uma cadeia industrial que hoje produz tanto açúcar quanto etanol. O país é atualmente o maior produtor mundial de açúcar, com produção estimada em 43,8 milhões de toneladas na safra 2025/26. Mas, é claro, comparar o Brasil atual com Cuba ou Barbados dos séculos XVIII e XIX como se fossem o mesmo sistema seria historicamente incorreto. O ponto da comparação está em outro lugar: a cana continua ocupando grandes áreas, articulando produção agrícola e indústria e conectando territórios latino-americanos a mercados externos, embora sob instituições, relações de trabalho e tecnologias completamente diferentes das existentes durante o período colonial.
Essa trajetória também ajuda a explicar por que a concentração fundiária continua sendo uma questão central quando se fala de commodities na América Latina. A agricultura familiar representa mais de 80% dos estabelecimentos agrícolas da região, segundo a FAO, mas ocupa uma parcela muito menor da área agrícola. Isso não significa que pequenas propriedades estejam necessariamente afastadas das cadeias de exportação, nem que toda grande propriedade esteja voltada a commodities. Café, cacau, frutas e outros produtos mostram justamente que agricultores familiares também podem participar de mercados internacionais. A questão é que a região combina uma enorme quantidade de pequenos estabelecimentos com uma estrutura de propriedade na qual parcelas relativamente menores de produtores controlam extensões muito maiores de terra.
O café criou uma geografia que ainda existe
O café oferece um contraste importante. Ao contrário da cana, sua produção latino-americana contemporânea não depende exclusivamente de grandes propriedades. Pequenos produtores têm participação fundamental em vários dos principais países produtores, e a cultura continua profundamente ligada à economia de regiões rurais da Colômbia, América Central, Peru, México e Brasil.
A escala brasileira é excepcional. As 63 milhões de sacas projetadas para 2025/26 equivalem a mais de cinco vezes a produção colombiana e mais de onze vezes a hondurenha. Ainda assim, os três países ocupam posições importantes em uma mesma cadeia internacional de produção e comercialização. O café produzido em uma pequena propriedade colombiana ou hondurenha pode terminar em mercados semelhantes aos abastecidos pelo café brasileiro, ainda que os sistemas de produção, processamento e comercialização sejam diferentes.
Essa integração internacional tem uma consequência econômica relevante: produzir uma commodity não significa necessariamente controlar sua cadeia de valor. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, a CEPAL, observa que o café possui uma característica particular em relação à soja: além de ser uma matéria-prima agrícola, pode ser comercializado como produto final e envolve uma série de serviços associados ao processamento, à distribuição e à diferenciação. A instituição usa justamente café e soja para discutir o dilema entre permanecer concentrado na produção de matérias-primas e avançar para etapas de maior valor agregado.
Essa questão aparece de forma diferente em cada país. O produtor pode cultivar o café, mas não necessariamente participa das etapas mais rentáveis que vêm depois da colheita. Torrefação, marcas, distribuição, cafeterias e serviços associados ao consumo podem gerar valor muito superior ao produto agrícola inicial. Isso não significa que o agricultor receba pouco em todos os casos, nem que a industrialização resolva automaticamente as desigualdades da cadeia. Significa que a posição ocupada por cada país e por cada agente dentro da cadeia importa tanto quanto o volume produzido.
O café também mostra como a especialização agrícola pode se tornar parte da própria organização social de um território. Em algumas regiões da Colômbia, ele está associado à formação histórica de comunidades rurais e à ocupação das montanhas e, especialmente na colonização de Antioquia e no chamado Eje Cafetero, foi cultivada por um número expressivo de pequenos e médios produtores. Famílias camponesas combinavam o café com alimentos para consumo próprio e usavam a venda do grão para obter renda monetária. A expansão da produção estimulou a abertura de caminhos, ferrovias e outros meios de transporte, conectando regiões antes isoladas a cidades como Manizales, Pereira e Armenia e, delas, aos portos de exportação.
Isso não significa que a história colombiana tenha sido marcada apenas pela pequena propriedade. No século XIX, grandes fazendas também tiveram um papel importante, especialmente em Santander, Cundinamarca e Tolima, onde predominavam relações como parceria, arrendamento e agregação. O que diferencia a experiência colombiana é a coexistência desses modelos e, posteriormente, o peso crescente da produção familiar em algumas regiões. O café acabou criando uma estrutura econômica capaz de integrar pequenos produtores ao mercado internacional e, ao mesmo tempo, tornou-se central para a formação da economia exportadora do país. Entre aproximadamente 1910 e 1960, sua expansão foi uma das transformações mais importantes da economia colombiana, afetando emprego, renda, transportes e relações entre diferentes regiões.
Na América Central, a história foi ainda mais desigual. Costa Rica desenvolveu uma cafeicultura baseada em propriedades menores e trabalho remunerado, enquanto Guatemala e El Salvador tiveram processos de concentração de terras muito mais marcados. Na Guatemala, a expansão cafeeira da segunda metade do século XIX esteve ligada à expropriação de terras comunais indígenas e à criação de mecanismos estatais que obrigavam trabalhadores indígenas a fornecer mão de obra às propriedades cafeeiras. Entre 1871 e 1883, o governo vendeu centenas de milhares de hectares de terras públicas a produtores de café, inclusive áreas que haviam sido utilizadas por comunidades maias.
O caso salvadorenho também esteve ligado à concentração fundiária e à expansão de grandes propriedades cafeeiras. Em diferentes graus, portanto, o café ajudou a consolidar uma elite agrária e uma economia voltada à exportação em partes da América Central, mas seus efeitos variaram conforme a estrutura fundiária e as relações de trabalho de cada país. Na Guatemala, a produção ficou particularmente concentrada em grandes propriedades e dependia fortemente da mão de obra indígena; na Costa Rica, a produção se desenvolveu de forma mais pulverizada entre pequenos proprietários.
É justamente essa diferença que torna o café um bom exemplo para pensar o Brasil dentro da América Latina. A mesma commodity podia produzir sociedades diferentes porque encontrava estruturas de propriedade, populações e relações de trabalho diferentes. No Brasil, ajudou a consolidar uma poderosa elite cafeeira e uma rede de cidades e ferrovias; na Colômbia, contribuiu para a expansão de uma agricultura familiar comercial em várias regiões e para a integração territorial; em partes da América Central, esteve associado à concentração de terras e à exploração do trabalho indígena. Em todos esses casos, porém, o café fez algo semelhante: transformou áreas rurais em regiões produtoras conectadas a uma economia internacional e passou a influenciar a distribuição de riqueza, o trabalho e a organização do território.
A história do café, portanto, não é apenas uma sucessão de ciclos de preços. Ela também é uma história de ocupação territorial e de formação de sociedades rurais.
A soja chegou depois, mas ocupou muito mais espaço
A soja parece pertencer a outro capítulo. Ela não foi uma commodity central da América Latina colonial e sua expansão aconteceu sobretudo a partir da segunda metade do século XX, quando novas tecnologias agrícolas permitiram cultivar grandes extensões em regiões que antes tinham pouca participação na produção comercial de grãos. Em vez de engenhos, portos coloniais ou ferrovias construídas para um único produto, a soja avançou junto com máquinas, pesquisa agronômica, crédito, estradas, armazéns, silos e grandes corredores de exportação.
O Brasil foi o caso de maior escala. A soja, inicialmente concentrada no Sul, avançou para o Centro-Oeste e depois para novas fronteiras agrícolas, apoiada por variedades adaptadas ao clima tropical e pela mecanização. A Embrapa teve papel importante no desenvolvimento dessas variedades, permitindo que a cultura avançasse para áreas do Cerrado. Na safra 2025/26, o USDA projeta 48,8 milhões de hectares cultivados com soja no país e uma produção de 175 milhões de toneladas.
Mas olhar apenas para o Brasil esconde uma transformação regional. Argentina, Paraguai e Bolívia passaram a formar, junto com o Brasil, um dos grandes espaços produtores de soja do mundo. A Argentina teve sua expansão acelerada a partir dos anos 1970, favorecida pelos preços internacionais, pelas condições agrícolas e pela incorporação de novas áreas e sistemas de cultivo. Nos anos 1990, mudanças econômicas e tecnológicas deram novo impulso ao setor. Hoje, o USDA projeta para 2025/26 cerca de 48,5 milhões de toneladas na Argentina, 11 milhões no Paraguai e 3,9 milhões na Bolívia.
No Paraguai, a soja produziu uma transformação particularmente forte no território. A cultura se expandiu a partir das décadas de 1970 e 1980, sobretudo na região oriental, acompanhada pela mecanização e pela entrada de produtores brasileiros. A expansão avançou sobre áreas antes ocupadas por florestas, pastagens e pequenas propriedades camponesas, alterando sistemas locais de produção e intensificando conflitos em torno da terra. A concentração fundiária, portanto, não nasceu com a soja, mas a expansão da commodity passou a operar dentro dessa estrutura e a aprofundá-la em determinadas regiões.
Na Bolívia, a soja se concentrou principalmente no departamento de Santa Cruz, onde começou a ganhar importância a partir dos anos 1970. Programas de pesquisa e desenvolvimento de sementes ajudaram a estruturar a atividade, que posteriormente se integrou às cadeias de exportação do sul do continente. A expansão boliviana mostra outra característica dessa nova fronteira: a soja não precisa ocupar todo o território de um país para transformar profundamente uma região específica.
O resultado é uma cadeia que ultrapassa fronteiras nacionais. Uma mesma lógica produtiva conecta áreas agrícolas do Cerrado brasileiro, do Chaco e do leste paraguaio, das planícies argentinas e da região de Santa Cruz, com empresas, máquinas, sementes, tradings, portos, ferrovias e rodovias funcionando em escala regional. A CEPAL estima que a cadeia da soja ocupe 34% da superfície cultivada da América Latina e responda por 52% da produção mundial.
E a soja tem uma particularidade importante: na maior parte das vezes, ela não chega ao consumidor como soja. O grão é processado para produzir farelo utilizado na alimentação animal e óleo vegetal, além de participar de cadeias de biodiesel. Isso conecta a agricultura sul-americana a uma indústria global de carnes, óleos e energia. A própria CEPAL destaca essa diferença em relação ao café: enquanto o café pode chegar diretamente ao consumidor como produto final, a soja funciona majoritariamente como matéria-prima e insumo industrial.
É também por isso que a China se tornou tão importante para essa cadeia. A demanda chinesa está ligada principalmente ao uso da soja na alimentação animal, inserindo a produção sul-americana em uma cadeia que passa pela criação de aves, suínos e outros animais em diferentes partes do mundo. O produto cultivado em uma fazenda brasileira, argentina ou paraguaia pode, portanto, terminar alimentando uma cadeia de carne em outro continente.
A soja representa uma estrutura produtiva diferente, construída sobre ciência agrícola, máquinas, capital, logística e mercados globais. Mas algumas perguntas continuam familiares: quem controla a terra? Quem produz? Para onde vai a mercadoria? Quem controla o processamento e a logística? E o que acontece com o território quando uma cultura voltada ao mercado internacional passa a ocupar milhões de hectares?
Culturalmente, a expansão da soja também transformou os territórios onde chegou, já que em regiões do Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia, ela alterou paisagens rurais, hábitos de trabalho e formas de ocupação do espaço, além de aproximar comunidades de uma agricultura cada vez mais mecanizada e voltada à exportação. No Paraguai, por exemplo, a chegada de produtores brasileiros e a expansão da soja também produziram mudanças linguísticas e culturais em áreas de fronteira, contribuindo para a presença do português e do “brasiguaio” no cotidiano de partes do país. No Brasil, a migração de agricultores e trabalhadores para novas fronteiras agrícolas ajudou a formar cidades e identidades regionais associadas ao agronegócio. Na Bolívia, a expansão em Santa Cruz se relacionou à transformação de uma região historicamente marcada por outras atividades econômicas e por uma identidade regional própria. A soja, portanto, não modifica apenas o que é plantado: ela muda quem vive no território, como essas pessoas circulam, trabalham e se relacionam com a terra.
O gado ocupa uma posição diferente
A pecuária bovina ajuda a completar esse quadro porque sua importância na América Latina não depende apenas da exportação. O gado chegou ao continente durante o período colonial e se adaptou rapidamente a grandes áreas de pastagem, tornando-se uma das atividades que mais contribuíram para a ocupação de extensos territórios. Com o tempo, deixou de ser apenas uma atividade econômica e passou a fazer parte da cultura de diferentes sociedades.
Na Argentina e no Uruguai, essa relação é particularmente evidente. A expansão da pecuária nas planícies do Rio da Prata ajudou a formar uma sociedade rural marcada pela figura do gaucho, pelo trabalho a cavalo e pela criação extensiva. O gado também esteve na base de uma cultura alimentar em que a carne bovina ganhou lugar central, do asado às práticas sociais construídas em torno dele. No Brasil, processos semelhantes contribuíram para a formação de culturas regionais ligadas ao campo e à figura do peão, embora a pecuária tenha assumido formas muito diferentes entre o Sul, o Centro-Oeste, o Nordeste e a Amazônia.
O México apresenta outro exemplo. A formação das grandes haciendas ganaderas criou práticas de manejo do gado a cavalo que deram origem à charrería, tradição que posteriormente se transformou em expressão cultural e esportiva. Reconhecida pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial, a charrería preserva técnicas, roupas, objetos e rituais associados à vida das comunidades pecuárias.
No Paraguai, a pecuária também possui uma história anterior à atual indústria de carne e está ligada à ocupação do território e à formação de comunidades rurais. A atividade conviveu com outras formas de produção e, nas últimas décadas, passou a compartilhar espaço com a expansão da soja. Em partes da região do Chaco, a criação extensiva continua sendo uma das principais formas de utilização econômica da terra.
Essas diferenças ajudam a evitar uma leitura em que “gado” significa a mesma coisa em toda a América Latina. Na Argentina e no Uruguai, ele está profundamente associado à identidade do gaucho e ao asado; no México, à tradição do charro e da charrería; no Brasil, a diferentes culturas rurais e regionais; no Paraguai, à ocupação de extensas áreas e à economia pecuária. A mesma atividade econômica produziu, portanto, repertórios culturais diferentes.
A dimensão cultural também ajuda a entender por que a pecuária ocupa um lugar diferente da soja no imaginário latino-americano. A soja é relativamente recente e aparece sobretudo como uma cultura agrícola mecanizada, ligada a máquinas, silos, tradings e cadeias industriais. O gado, por outro lado, deixou marcas muito mais antigas no cotidiano: comida, música, vestimenta, festas, profissões, paisagens e personagens que passaram a representar determinadas regiões.
Isso não significa que a cultura da pecuária seja apenas uma consequência da exportação de carne. O processo foi mais complexo: a disponibilidade de grandes áreas para criação, as relações de trabalho, a circulação de animais e pessoas e a formação de mercados internos ajudaram a criar modos de vida que depois ganharam significados culturais próprios. O produto econômico acabou produzindo também formas de viver e imaginar o território.
No plano econômico, a escala atual é igualmente significativa. O Brasil deve produzir cerca de 12,6 milhões de toneladas de carne bovina em 2025/26, contra aproximadamente 3,2 milhões da Argentina e 2,2 milhões do México, segundo projeções do USDA. O Brasil responde sozinho por cerca de um quinto da produção mundial. Mas esses números contam apenas uma parte da história: a importância da pecuária latino-americana também está no território que ela ocupa e nas sociedades que se formaram em torno dela.
No Brasil, essa dimensão territorial tornou-se especialmente controversa com a expansão da pecuária sobre novas fronteiras agrícolas. Na Amazônia, a conversão de florestas em pastagens esteve associada a processos que incluem abertura de estradas, ocupação de terras públicas, especulação fundiária e posterior valorização das áreas para outras atividades. A relação entre pecuária e desmatamento, portanto, não pode ser reduzida a uma simples equação entre “gado” e “floresta”: envolve mercados de terra, infraestrutura, regularização fundiária e diferentes etapas de ocupação.
A relação com a soja torna essa dinâmica ainda mais complexa. Em algumas regiões, áreas de pastagem são convertidas em lavouras mecanizadas, enquanto a pecuária se desloca para novas áreas. Em outras, soja e gado convivem ou se integram em sistemas produtivos. Observar apenas onde está a soja ou onde está o gado em determinado momento pode esconder a sequência de transformações que ocorreu naquele território.
É por isso que a pecuária ocupa um lugar particular nessa história das commodities. O café reorganizou cidades e redes de transporte; o açúcar estruturou sociedades escravistas e economias coloniais; a soja criou novas fronteiras agrícolas e cadeias industriais. O gado fez tudo isso em escalas e períodos diferentes, mas também deixou uma marca cultural que ultrapassou o próprio mercado: transformou paisagens em modos de vida e, em alguns países, tornou-se parte da maneira como uma sociedade conta a própria história.
O que realmente se repete
A comparação entre os quatro produtos fica menos convincente quando se procura uma continuidade perfeita entre o período colonial e a agricultura atual. A escravidão foi abolida, o trabalho agrícola se tornou predominantemente assalariado, a mecanização transformou a produtividade e os mercados internacionais passaram por mudanças radicais. Os países latino-americanos também desenvolveram indústrias, serviços e mercados domésticos que não existiam nos primeiros séculos de colonização.
Ainda assim, algumas estruturas permaneceram importantes. A primeira é a desigualdade no acesso à terra. A FAO estima que a agricultura familiar represente mais de 80% dos estabelecimentos agrícolas da região, enquanto ocupa aproximadamente um quarto das terras agrícolas. Isso significa que a grande quantidade de pequenas propriedades convive com uma distribuição muito desigual da superfície rural.
A segunda é a importância das exportações agrícolas para a obtenção de divisas. Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Colômbia, Honduras e vários outros países possuem setores agrícolas altamente conectados aos mercados internacionais. Em alguns casos, uma única commodity representa parcela significativa das exportações e, consequentemente, torna a economia mais exposta às oscilações de preços internacionais.
A terceira é a concentração de determinadas etapas da cadeia produtiva. Produzir uma commodity em grande quantidade não significa necessariamente controlar processamento, tecnologia, distribuição ou marcas. A CEPAL identifica justamente essa diferença ao comparar soja e café: a primeira é majoritariamente utilizada como insumo intermediário, enquanto o segundo também chega ao consumidor final por meio de cadeias de serviços e diferenciação.
A quarta é a infraestrutura construída em torno dessas atividades. Ferrovias, rodovias, portos, frigoríficos, armazéns e terminais de exportação não são elementos neutros da paisagem. Eles alteram o valor das terras, definem rotas comerciais e podem estimular novas áreas de produção. A agricultura de exportação não se limita à propriedade rural; ela reorganiza territórios inteiros.
Isso ajuda a explicar por que a dependência de commodities continua sendo discutida por organismos internacionais mesmo em economias que modernizaram profundamente sua agricultura. A UNCTAD define como dependente de commodities a economia em que mais de 60% das exportações de mercadorias são compostas por produtos básicos. Em 2021–2023, 95 das 143 economias em desenvolvimento analisadas pela organização permaneciam nessa condição. A instituição associa essa dependência à exposição à volatilidade dos preços internacionais e defende a ampliação do valor agregado e da diversificação produtiva.
A categoria, entretanto, não significa que todos os países dependentes de commodities tenham a mesma estrutura econômica. Brasil e Honduras, por exemplo, não podem ser colocados no mesmo grupo simplesmente porque ambos exportam produtos agrícolas. O Brasil possui uma economia industrial e de serviços muito maior e uma pauta de exportações mais diversificada. O peso relativo das commodities é diferente, assim como a capacidade do Estado e das empresas nacionais de participar das etapas de processamento.
É justamente por isso que a ideia de uma América Latina que “continua colonial” precisa ser usada com cuidado. A região não está reproduzindo literalmente a economia colonial. O que permanece é a relevância de um padrão de inserção internacional baseado na capacidade de fornecer recursos naturais e produtos agrícolas em grande escala.
O problema não é a commodity em si
A agricultura de exportação trouxe ganhos econômicos importantes para a região. O Brasil construiu uma das maiores cadeias agroindustriais do mundo; a Argentina possui uma das agriculturas mais competitivas do planeta; Colômbia e América Central consolidaram reputações internacionais no café; Uruguai transformou a pecuária em uma atividade fortemente integrada ao mercado externo. Não há evidência que permita tratar essas atividades simplesmente como obstáculos ao desenvolvimento.
O problema aparece quando a produção de matérias-primas se combina com pouca capacidade de capturar valor nas etapas seguintes, desigualdade no acesso à terra e exposição excessiva às oscilações do mercado internacional. Nesse caso, aumentar a produção pode ampliar as exportações sem necessariamente produzir uma transformação proporcional na estrutura econômica.
A própria CEPAL coloca a questão nesses termos ao analisar café e soja: a região pode continuar especializada na produção primária ou buscar formas de agregar valor às cadeias agroalimentares.
Isso não significa que todo café precise ser torrado localmente, que toda soja precise ser transformada em produtos industriais no país de origem ou que exportar carne in natura seja economicamente inadequado. A questão é saber em quais etapas existe capacidade tecnológica e empresarial para aumentar o valor produzido e quanto desse valor permanece na economia local.
A resposta também passa pela distribuição dos recursos produtivos. A agricultura familiar continua sendo majoritária em número de propriedades e fundamental para o abastecimento alimentar regional, mas enfrenta limitações de acesso à terra, crédito, assistência técnica e infraestrutura. Em junho de 2026, a FAO voltou a apontar o acesso à terra e a segurança da posse como obstáculos centrais para o desenvolvimento da agricultura familiar na América Latina e no restante do mundo.
Essa coexistência entre agricultura familiar e agronegócio de grande escala é uma das características mais importantes da região. Ela impede uma leitura em que a agricultura latino-americana seja tratada como um único setor e também mostra por que a discussão sobre commodities não pode ser reduzida à oposição entre produção e preservação ambiental ou entre campo e cidade.
Uma história que mudou sem desaparecer
Café, açúcar, soja e gado não contam a mesma história. O açúcar pertence à formação da economia colonial e à escravidão atlântica; o café participou da expansão das economias nacionais depois da independência e da formação de novas sociedades rurais; a pecuária atravessou séculos de ocupação territorial e continua ligada às economias do Cone Sul e do Brasil; a soja representa uma etapa muito mais recente, marcada pela mecanização, pela pesquisa agrícola e pela integração com a indústria de rações e com o mercado asiático.
O que aproxima essas histórias é menos o produto do que a forma como ele reorganiza o território quando passa a ser produzido em escala para atender à demanda externa. Em momentos diferentes, terras foram incorporadas, estradas foram abertas, portos foram ampliados, trabalhadores foram deslocados e capitais foram direcionados para as regiões capazes de produzir aquilo que o mercado internacional valorizava.
A América Latina contemporânea não está presa ao mesmo sistema econômico dos séculos coloniais. Mas continua sendo uma das principais regiões produtoras de matérias-primas agrícolas do mundo. O Brasil sozinho ocupa posições de liderança em café, açúcar, soja e carne bovina; Argentina, Colômbia, Paraguai, Uruguai, México e os países da América Central também construíram economias em que determinadas commodities ocupam uma posição que vai muito além da agricultura.
É essa permanência que torna a comparação entre os países latino-americanos possível. Não porque todos tenham repetido o mesmo ciclo, mas porque diferentes sociedades encontraram na produção de commodities uma das principais formas de participar da economia mundial. O desafio contemporâneo é menos abandonar esse papel do que entender seus limites: quanto território ele exige, como a terra é distribuída, quem participa das cadeias de maior valor e até que ponto a riqueza gerada pela exportação consegue se transformar em desenvolvimento econômico mais amplo.
Nesse sentido, café, açúcar, soja e gado são produtos muito diferentes, mas ajudam a contar uma mesma história regional: a de economias que aprenderam a produzir em escala para o mundo e que ainda precisam decidir quanto de sua capacidade produtiva querem converter em controle sobre as próprias cadeias de valor.
