Por mais de uma década, o pop argentino teve sua própria versão de uma velha fórmula da indústria musical: duas mulheres jovens, bonitas, bem-sucedidas e populares o suficiente para que seus públicos precisassem escolher um lado. Lali ou Tini. Como se duas das maiores estrelas pop do país não pudessem simplesmente existir ao mesmo tempo.
A cena que aconteceu no River neste sábado, 26 de setembro, tem graça justamente porque torna essa rivalidade retrospectivamente ainda mais absurda. Lali Espósito convidou Tini Stoessel para seu terceiro show no estádio neste ano. As duas apareceram vestidas de noiva, cantaram “Like a Virgin”, de Madonna, e dividiram o palco com a roqueira Marilina Bertoldi, recriando a lógica do beijo que Madonna, Britney Spears e Christina Aguilera protagonizaram no VMA de 2003. Depois, Lali e Tini ainda cantaram juntas “1Amor”.
Em 2003, o beijo entre Madonna, Britney Spears e Christina Aguilera no VMA virou uma das imagens mais conhecidas da cultura pop do século XXI. Também era uma cena construída sobre a lógica da provocação, do espetáculo e da sexualidade feminina como acontecimento midiático.
Mas talvez o mais interessante não seja o beijo, nem o vestido, nem a referência a Madonna. Agora, o que vemos não são três divas tentando reproduzir literalmente o ocorrido. É uma cena de pop argentino que mistura gerações, públicos, gêneros musicais e experiências diferentes. É duas artistas que passaram anos sendo colocadas em oposição decidindo fazer o que suas carreiras sempre sugeriram que seria possível: trabalhar juntas.
Duas meninas que cresceram sob comparação
Lali e Tini têm trajetórias diferentes, mas uma quantidade impressionante de paralelos. As duas chegaram à televisão ainda crianças e construíram suas primeiras bases de fãs em produções juvenis. Lali passou por Rincón de luz, Chiquititas e Casi Ángeles, antes de integrar os Teen Angels e iniciar sua carreira solo. Tini virou fenômeno internacional como protagonista de Violetta, da Disney, e depois transformou a popularidade da personagem em uma carreira musical própria.
Quando começaram a consolidar suas carreiras como cantoras, portanto, a comparação já estava pronta, mesmo que elas viessem em épocas diferentes: quando Tini fez a primeira temporada de Violetta, Lali já estava se lançando como solista. Mas existir duas argentinas que tenham crescido diante das câmeras, duas ex-atrizes juvenis, duas artistas pop com públicos enormes e, posteriormente, duas mulheres ocupando espaços semelhantes na indústria latino-americana, é o suficiente para criar discursos.
Até a vida amorosa forneceu combustível para a narrativa. Lali namorou Peter Lanzani entre 2006 e 2010; anos depois, Tini se relacionou com o mesmo ator, entre 2013 e 2015.
Era o tipo de coincidência que a cultura de celebridades transforma facilmente em roteiro: a ex e a nova namorada, duas estrelas juvenis, duas cantoras, duas torcidas. Faltava apenas declarar uma vencedora. Só que havia um problema nessa história: não parece que Lali e Tini estivessem particularmente interessadas em protagonizá-la.
Um episódio de 2013 torna essa história ainda mais curiosa. Naquele ano, pouco antes da primeira temporada de Violetta chegar ao Teatro Gran Rex, Lali foi convidada a conversar com Tini e o elenco sobre a experiência de se apresentar naquele palco. Ela já havia estabelecido o recorde de apresentações no teatro com Casi Ángeles e, em vez de aparecer como uma possível concorrente da nova estrela da Disney, foi chamada justamente para compartilhar o que havia aprendido. Tini ainda estava começando a lidar com a dimensão que Violetta alcançaria, enquanto Lali já conhecia a pressão de sustentar temporadas de um espetáculo juvenil diante de milhares de pessoas. É uma pequena cena que traz uma veterana oferecendo referências para uma estreante talentosa com a melhor das intenções.
Apesar de um rumor ou outro sobre como supostamente não se davam bem (o que já foi desmentido várias vezes), postaram uma foto juntas em um estúdio em 2021. A imagem circulou como se fosse a confirmação de uma colaboração que os fãs esperavam havia anos, mas Lali explicou recentemente que a história era bem menos planejada: as duas estavam em Madri, na casa de um amigo, se conheceram pessoalmente naquela ocasião e tiraram a foto sabendo que ela causaria graça entre os fãs. A cantora também afirmou que já chegaram a tentar trabalhar em algo juntas, mas não houve nenhum resultado muito concreto.
A rivalidade existia mais ao redor delas do que entre elas
Ao longo dos anos, as duas deram sinais públicos de respeito mútuo e, quando a possibilidade de uma colaboração finalmente aconteceu, o resultado não pareceu carregar a tensão que durante tanto tempo foi atribuída à relação entre elas.
Parte importante dessa rivalidade, no entanto, não surgiu do nada. Ela foi alimentada por fandoms, pela imprensa de entretenimento e também por pessoas dos círculos familiares e profissionais.
Um dos exemplos que voltou é Alejandro Stoessel, pai e então empresário de Tini. Em 2013, ele publicou no Twitter uma provocação dirigida a Lali: “¿Sabés cómo se dice LALI al revés…? LILA, porque es casi Violetta”, em referência à série que havia transformado sua filha em estrela internacional.
O momento também acontece em uma fase particularmente significativa para Tini. Em agosto foi anunciada a ruptura profissional com Alejandro Stoessel, depois de 15 anos de trabalho conjunto, e isso ocorre em paralelo a mudanças visíveis na maneira como ela apresenta a própria imagem e conduz sua vida pública. Nos últimos anos, vemos Tini passando a experimentar outras formas de se vestir e de se relacionar com pessoas e espaços que não necessariamente correspondem à imagem cuidadosamente construída durante sua adolescência como estrela de Violetta. É possível interpretar esse período como uma etapa de maior autonomia, mas é importante não transformar escolhas pessoais em uma narrativa fechada sobre sua vida.
É importante não transformar esse conflito familiar em uma explicação retroativa para toda a história entre Lali e Tini. Mas é impossível ignorar a ironia: justamente no momento em que Tini rompe profissionalmente com o homem que esteve no comando de sua carreira desde a adolescência, ela sobe ao palco da artista que seu pai havia transformado em uma espécie de antagonista simbólica.
Lali está usando o palco para ampliar o repertório do próprio público
Uma das características mais interessantes da atual fase de Lali é que seu espetáculo não parece interessado em manter seu público dentro de uma bolha pop.
No primeiro River desta era, ela chamou Kylie Minogue, mas nesta turnê também dividiu o palco com Miranda!, Duki e Dillom. E, em determinado momento, transformou o Monumental em um enorme pogo ao cantar “Vencedores Vencidos”, dos Redondos, em uma homenagem ao universo de Indio Solari.
Essa curadoria importa. Lali tem um novo público muito jovem e uma parcela dele chegou à música dela agora, devido sua ascensão de popularidade. Em vez de tratar isso como uma razão para simplificar suas referências, ela parece fazer o movimento contrário: apresenta nomes, músicas e tradições que talvez não fizessem parte do repertório original de parte dessa audiência.
A participação de Sandra Mihanovich vai na mesma direção. A presença de Kylie coloca uma referência internacional histórica ao lado de uma cantora argentina de outra geração; Marilina aproxima o show do rock e de uma cena queer; covers de músicas dos Redondos conectam o espetáculo a uma das tradições mais importantes — e menos domesticadas — do rock argentino.
Por um pop argentino sem rivalidade
A fala de Lali ao apresentar Tini no River é mais interessante do que a ideia de que as duas simplesmente “fizeram as pazes”. Dizer que o convite era “por las niñas que fuimos, pero sobre todo por las mujeres en las que nos convertimos” descoloca a narrativa das comparações que acompanharam suas carreiras para a trajetória que cada uma construiu desde a adolescência.
O encontro no River não apaga essa história, mas permite enxergá-la de outra maneira: duas artistas que cresceram sob a mesma expectativa de competição podem compartilhar um palco sem que uma precise ocupar o lugar da outra.
